Para a proclamação do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo
Ano 12 • N° 64 • Outubro - Novembro - Dezembro 2011

VIDA CRISTÃ

Terminando com o passado

Lições básicas sobre a vida cristã prática.

«De modo que se alguém está em Cristo, nova criatura é;
as coisas velhas já passaram; eis que todas são feitas novas» (2ª Cor. 5:17).

Depois que alguém crê no Senhor, tem invariavelmente um número de coisas do passado que esperam serem terminadas. A pergunta é: como são concluídas?

 

O ensino da Bíblia

Na Bíblia, especialmente no Novo Testamento, Deus não parece preocupar-se muito pelas coisas que alguém fez antes de entregar-se ao Senhor. Procure encontrar, entre Mateus e Apocalipse, algumas passagens que abordem o assunto de acabar com o passado. Se você tentar, deverá reconhecer que é muito difícil achá-los. É verdade, as epístolas fazem uma recontagem da nossa vã maneira de viver no passado; também nos revelam quais devem ser as nossas ações futuras. Mas elas não recomendam o que fazer com o nosso passado.

Por exemplo, nas cartas aos Efésios e aos Colossenses é mencionado o nosso passado, mas nenhuma nos diz como deveríamos acabar com ele. Apenas tratam a respeito do que devemos fazer da nossa conversão em diante. A mesma verdade pode ser apreciada nas cartas aos Tessalonicenses. Elas também mencionam o passado sem especificar como devemos terminar com ele, já que a ênfase também está posta no futuro, como se o passado já não fosse um problema. No entanto, não há dúvida de que o passado deve ser apropriadamente terminado.

Por causa de alguns conceitos errados concernentes ao evangelho, o assunto do passado é às vezes tão excessivamente acentuado que põe às pessoas em um dilema. Não estamos sugerindo que o passado não precisa ser tratado, pois há algumas poucas coisas que são requeridas sim. No entanto, devemos dizer que isto não é fundamental.

Deus nos diz que todo o nosso passado está debaixo do Sangue. Somos perdoados completamente, porque o Senhor morreu por nós. Somos salvos através de Cristo o nosso Substituto, não no terreno do nosso tratamento com o passado. Ninguém é salvo por sua boa conduta anterior, nem tampouco é salvo por arrepender-se de sua maldade passada. Somos salvos através da redenção consumada pelo Senhor Jesus na cruz. Este é o único fundamento sobre o qual permanecemos firmes.

 

O que deve ser terminado

Então, o que devemos fazer com o passado? Depois de procurar cuidadosamente no Novo Testamento, encontramos algumas passagens sobre este tema. Mas todos estes casos são exemplos; nenhum é um ensino. O nosso Senhor nos deixou alguns exemplos para que sejamos guiados na resolução dos assuntos do passado.

 

1. Deve-se eliminar tudo o que é relacionado com a idolatria

«…vos convertestes dos ídolos a Deus» (1ª Tes. 1:9). O assunto dos ídolos não é tão simples como alguns pensam. Lembrem, somos o templo do Espírito Santo. Que concórdia tem o templo de Deus com os ídolos? Até o Apóstolo João, escrevendo aos crentes, exorta: «Filhinhos, guardai-vos dos ídolos…» (1ª João 5:21).

Devemos entender a maneira em que a Escritura vê a idolatria. Deus proíbe fazer imagem ou semelhança de algo que esteja nos céus, na terra ou na água, e também proíbe qualquer pensamento de que essas imagens são vivas. No instante em que este pensamento aflora, elas se convertem em ídolos. As imagens em si mesmas não são nada, mas se elas são reconhecidas como algo vivo, transformam-se em diabólicas. Por isso é que a adoração de ídolos é estritamente proibida; nenhum coração deve tornar-se para eles. Um dos dez mandamentos condena o fazer imagens (ver Deut. 5:8)

«Não perguntes a respeito dos seus deuses, dizendo: Como serviam estas nações aos seus deuses?...» (Deut. 12:30b). Não pergunte a respeito de outros deuses por curiosidade; não pergunte como outras nações servem aos seus deuses. Deus nos proíbe fazer tais averiguações, porque isto só nos levará a seguir o caminho das nações.

A partir do primeiro dia de sua vida de fé em Cristo, o crente deve separar-se dos ídolos e das coisas pertinentes à idolatria. Não deve mencionar nunca mais o nome dos ídolos, nem consultar adivinhos. Deve manter-se afastado de templos pagãos e de qualquer pensamento de adoração de imagens. Não deve perguntar como outras religiões adoram. O passado deve ser totalmente concluído. Qualquer objeto idolátrico deve ser destruído, não vendido. Isto é muito sério, já que Deus é extremamente zeloso para com os ídolos.

 

2. Alguns objetos requerem ser eliminados

«Deste modo muitos dos que tinham praticado a magia, trouxeram os seus livros, e os queimaram diante de todos; e contando o preço deles, achou-se ser de cinquenta mil peças de prata» (Atos 19:19). Isto também é algo que um novo crente deve terminar. Isto não é o resultado de uma ordem ou um ensino, mas a obra do Espírito Santo. O Espírito Santo trabalha nos crentes de tal forma que trazem diante estas coisas que não deveriam estar em sua posse, para destruí-las. Os livros mencionados em Atos 19 valiam cinquenta mil peças de prata, isso era muito dinheiro. Mas não foram vendidos para que a igreja usasse o que foi arrecadado; ao contrário, foram queimados. Se Judas tivesse presente, certamente teria objetado a queima dos livros por seu valor, já que aquele dinheiro poderia ter sido usado para ajudar os pobres. No entanto, agradou ao Senhor que fossem queimados.

Há muitas coisas que requerem serem terminadas. As imagens são uma, os livros esotéricos são outra. O princípio é claro: todas as imagens devem ser rejeitadas e todas as coisas duvidosas devem acabar também. Temos o exemplo escriturístico a respeito de que as coisas que têm definitivamente uma conexão com o pecado, como os jogos de azar ou livros obscenos, devem ser queimados.

O que ocorre com as coisas que são impróprias dos santos? Na casa de um incrédulo, seria absolutamente natural encontrar objetos ligados com o pecado e coisas não apropriadas para crentes. Portanto, depois que alguém creu no Senhor, ele deveria ir para a sua casa e examinar os seus pertences. As coisas ligadas com o pecado devem ser destruídas, e não vendidas. Coisas indecentes para os santos, como vestuário, por exemplo, podem ser modificadas se for possível, ou podem ser vendidas.

 

3. Toda dívida deve ser cancelada

«Então Zaqueu, pondo-se em pé, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, a metade dos meus bens dou aos pobres; e se em algo defraudei a alguém, o devolvo quadruplicado» (Lucas 19:8). Zaqueu nos apresenta um bom exemplo. Estranhamente, não existe ensino a respeito deste assunto; mas cada crente age da forma em que é movido pelo Espírito Santo. Se isto fosse algo meramente doutrinário ou de ensino, então tudo seria feito uniformemente.

Se um novo crente defraudou ou extorquiu alguém no passado ou roubou e tomou posse de algo maliciosamente, cremos que deve tratar com estas coisas à medida em que o Senhor opera nele. Financeiramente, ele pode ser incapaz de pagar aquilo que foi defraudado. Embora isto não afete ele ser perdoado por Deus, mas terá definitivamente uma influência em seu testemunho.

Cada novo crente precisa perguntar-se a si mesmo se tiver feito mal ou defraudado a alguém, se tiver levado para casa coisas que não lhe pertence ou que obteve de forma maliciosa. Se for assim, ele pode limpar estes atos. O arrependimento cristão inclui a confissão das faltas do passado. Não é um arrependimento comum que implica uma mera mudança de conduta. Por exemplo, se reiteradamente eu me irava no passado, seria suficiente mostrar o meu arrependimento não repetindo essa conduta de novo. Mas, como cristão, somado à mudança de conduta, devo também confessar que a ira era algo mau. Não só devo controlar o meu temperamento diante de Deus, mas também devo confessar diante dos homens a minha antiga falta de perder a calma. Então este assunto poderá ser terminado.

Watchman Nee

Traduzido de Spiritual Exercise», Christian Fellowship Publishers, 2007.