Para a proclamação do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo
Ano 12 • N° 64 • Outubro - Novembro - Dezembro 2011

LEGADO

A entrega do «eu» a Cristo

Muitos dos problemas que enfrentamos na vida cristã
procedem de um eu não submetido a Cristo
.

O «eu» é a única coisa que realmente possuímos; a única coisa que realmente levaremos conosco quando deixarmos este mundo. Não levaremos propriedades ou contas bancárias; somente o nosso «eu».

O que acontece com o nosso «eu» na fé cristã? Em um dos nossos Retiros, alguém declarou «Na Hora dos Corações Abertos»: «Pensava que meu «eu» era uma coisa que deveria conservar, mas terminei convencido de que é um câncer e que deve ser extirpado». Assim, antes do Retiro, ele estava em um dilema: seu «eu» era algo para ser cultivado ou um câncer para ser eliminado? A sua dúvida, que foi dissipada, foi também a de muitos homens e mulheres.

Antes de ver a resposta cristã a respeito, vejamos o que pensam outras religiões.

As religiões que nasceram na Índia estão cansadas do mundo e da personalidade. Dizem que o mundo ao nosso redor é uma ilusão que devemos nos libertar, e sentem que a personalidade é um peso. Estão se esforçando por alcançar o limite da personalidade e obter a impessoalidade. Por isso, para eles, a mais alta concepção de Deus é o Brahma, que é um ser impessoal. Então os hindus sentam-se e se entregam à meditação, tentando alcançar o Brahma, e se perdem nessa imensa impessoalidade.

Assim como a gota de água se perde no oceano, a pessoa se perde nessa imensidão que é o impessoal, e isso a livra do peso da personalidade.

Buda sentou-se por longo tempo para meditar em relação ao sofrimento e a dor, e chegou à conclusão de que a existência e o sofrimento são a mesma coisa. Enquanto existirmos estaremos sofrendo, por isso a única maneira de sair do sofrimento é desertar da vida, e a maneira de livrar-se da existência é deixar de fazer algo, porque a ação é o que faz a roda da vida continuar girando. A única maneira de deixar de fazer algo é não ter sentimentos. Cortemos as raízes dos desejos, inclusive de viver, e a vida se tornará estática. Desta maneira, os seguidores das religiões hindus se preparam para a completa inatividade: o Nirvana.

Perguntei a um budista, no Ceilão, se no Nirvana havia alguma vida. Ele me respondeu: «Como pode haver vida se não há sofrimento?».

Buda quis resolver os problemas da vida abandonando a vida. É o mesmo que nos livrarmos da dor de cabeça cortando a nossa cabeça. É um preço muito alto para se pagar.

Existe também outro grupo de hindus que são devotos de um deus pessoal. Um deles veio a um dos nossos Retiros. Ele tinha se dedicado a Rama, um dos seus deuses. Perguntei-lhe: De onde você vem? Respondeu-me: «De Ram-Ram». Para onde você vai? «Para Ram-Ram». Qual é o seu desejo? «Ram-Ram». Ele tinha se consagrado para não dizer nada exceto o nome de seu deus. A sua personalidade desapareceu e ele desapareceu submerso na vida desse deus.

Quando deixamos de considerar as filosofias da Índia e nos voltamos para a psicologia moderna, encontramos o reverso das atitudes antes descritas. A psicologia moderna tem três afirmações em relação à verdade: Conheça-te a ti mesmo, Aceita-te a ti mesmo e Expressa-te a ti mesmo.

Pelas mesmas razões pelas quais respeito as filosofias hindu e budista sobre a personalidade, também tenho que respeitar a teoria da psicologia moderna. No entanto, desejo considerar os enganos das três afirmações da psicologia.

 

Conheça-te a ti mesmo

Não podemos nos conhecer estudando a nossa personalidade separada de Deus. Temos que saber qual é a nossa relação com Deus. Neste caso, poderíamos nos conhecer sabendo das nossas relações para com Deus, que somos filhos de Deus, que temos um destino, o qual é ser transformados à medida da estatura do Filho de Deus. Não podemos nos conhecer separados deste destino. Portanto, nos analisar separados desta relação é infrutífero. A psicanálise tem sido, comparativamente, muito infrutífero. Foi muito bom na análise e muito pobre na síntese. Ela pode nos separar em pedacinhos, mas não sabe como nos juntar de novo.

 

Aceita-te a ti mesmo

Mas como podemos aceitar a um ser inaceitável, cheio de problemas, misérias e preocupações? Pedir a alguém que aceite a si mesmo é pedir o inaceitável.

 

Expressa-te a ti mesmo

Mas se tomarmos uma dúzia de pessoas querendo expressar a si mesmos, o que teremos? Em uma cidade dos Estados Unidos fiz esta pergunta durante uma reunião pensando que responderiam: estaremos preparando ambiente para conflitos e pânico... Tomemos qualquer grupo de pessoas com a finalidade de expressar e teremos um ambiente de conflitos e problemas.

Então, o que está errado nestas três afirmações? Isto é exatamente o que a fé cristã teria que colocar no lugar destas afirmações: «Submete-te a ti mesmo». A fé cristã demanda de nós a única coisa que possuímos. Jesus diz: «aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo», e também: «quem quiser ganhar a sua vida, perdê-la-á». Ele pede a única coisa que possuímos. Isto quer dizer que o nosso «eu» desaparece? Algumas pessoas dizem que sim, e inclusive há um hino na Inglaterra que diz: «Tudo de mim e nada de ti», na primeira estrofe; «algo de mim e algo de ti», na segunda estrofe; e «nada de mim e tudo de ti», na terceira estrofe.

É uma linda poesia, mas nunca podemos chegar à posição em que não exista o eu. O eu é parte integrante de nossa personalidade e não pode de maneira nenhuma ser eliminado. Se o lançarmos portas afora, retornará pela janela, talvez com vestimentas religiosas, mas será o mesmo eu. Não podemos nos libertar dele. O que podemos fazer? A resposta é: entregá-lo a Jesus, que nos limpe desse egoísmo natural e nos devolva o nosso eu; e quando somos mais de Cristo, somos mais de nós mesmos.

Se entregue a Cristo e então não te entregarás a nenhuma outra coisa. Obedece a Cristo e então terás um mundo livre. Nunca seremos tanto de nós mesmos como quando somos de Cristo.  

 Nós conhecemos a nós mesmos debaixo de um destino maravilhoso. É o que se encontra na passagem bíblica: «portanto, nós todos, olhando com o rosto descoberto como em um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor» (2ª Cor. 3:18). Isto significa que somos transformados à imagem do que há de mais precioso e maravilhoso neste mundo. Este é o destino que nos faz erguer os ombros, que faz que o nosso sangue corra com mais intensidade por nossas veias.

Não posso me deter diante do meu «eu». Tudo o que há em mim de ódio e egoísmo desaparece. E não odiamos o nosso eu, porque nosso eu nos ama; e o que ele aceita, nós podemos aceitar também. Agora podemos nos aceitar, porque somos transformados em algo aceitável.

Estamos sob redenção, saímos do homem velho para o homem novo. Portanto, podemos aceitar esse eu que está debaixo da redenção, e inclusive amá-lo.

O cristianismo ensina o amor ao «eu». «Amarás ao seu próximo como a ti mesmo». É tão mau nos odiar a nós mesmos como odiar a outros. Podemos nos amar, porque nos amamos em Deus.

Desejo lhes contar sobre um amigo meu que considero um santo e possui aquilo que podemos chamar de ‘humor divino’. Ele diz: «Eu gosto de falar comigo mesmo, porque eu gosto de ouvir uma pessoa inteligente». Se todos nós tivéssemos um «eu» como o seu, diríamos o mesmo. Não condeno às pessoas que não gostam de falar consigo mesmas, porque talvez seu «eu» não esteja em condições de conversar, mas se pertencermos a Cristo, podemos gostar de nós mesmos.

Paulo diz: «Para mim o viver é Cristo». Ele sabia que quando estava se expressando estava expressando a Cristo. Nós também podemos nos expressar a nós mesmos quando expressamos a Cristo. A grande passagem das Escrituras que diz tudo o que estou tentando dizer é este: «Seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o porvir, tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus» (1ª Cor. 3:22-23). É uma afirmação maravilhosa. Ele diz que se pertencemos a Cristo, tudo nos pertence. Todos os grandes mestres nos pertencem, mas nós não lhes pertencemos, mas a Cristo. Todo mundo, a vida e a morte (todos os grandes acontecimentos), nos pertencem, porque pertencemos a Cristo. E Paulo acrescenta que até todo o tempo –o presente e o futuro–, tudo nos pertence porque pertencemos a Cristo.

Quando comecei a envelhecer, percebi que me levantava mais cedo a cada manhã. No princípio eu não gostei e perguntei a mim mesmo o que faria com aquelas horas livres. Então resolvi ouvir a voz de Deus. «Não pedirei nada», disse-me, «mas o que Ele quiser que eu faça, isso quero ouvir». Às vezes Ele me dizia coisas diferentes, mas certa manhã Ele me disse algo que eu nunca tinha ouvido: «Tu és meu e a vida é tua». Eu lhe pedi que repetisse. E Ele o repetiu: «Tu és meu e a vida é tua». Então eu disse: «Senhor, Tu me deste tudo, eu pertenço a Ti e a vida me pertence; se a vida me pertence, eu posso dominá-la». Eu não pertenço à vida; ela é que me pertence. Se não pertencermos a Cristo, a vida não nos pertence, e nenhum dos nossos pensamentos nos conduzirá à sensatez; ao contrário, todos nos levarão a insensatez.

A vida cristã pode ser resumida em uma frase: «Pertença a Cristo e a vida pertencerá a você». Costumo ter, todos os primeiro dias de cada ano, um retiro com os funcionários do governo em Washington. Reunimo-nos das 10 da manhã às 5 da tarde. Há alguns anos atrás, esteve conosco o Secretário de Defesa, Sr. Wilson. Depois da reunião lhe pediram que dissesse algo, e ele falou assim: «Eu gostei muito o que o senhor Jones disse, exceto uma coisa: ele falou sobre a entrega. Eu lamento não poder fazê-lo por causa da posição que ocupo. Seria uma palavra muito impopular ali». Então lhe disse: «Se você se entrega a Deus, não se entregará a nenhuma outra coisa». Então ele respondeu: «Correto, assim está bem».

Quando nos submetemos a Deus, não estamos submetidos a nada mais. Tudo é nosso, porque pertencemos a Cristo.

O centro de todos os pecados é o «eu» não submetido, pois ele se coloca no lugar de Deus, e procura organizar a vida como se fosse Deus. Este é o pecado central e todos os outros são frutos dessa raiz. Assim como os meus dedos estão unidos à palma da mão, os pecados exteriores estão unidos ao centro, que é o «eu».

Por que temos mal humor e rivalidades? Porque alguém feriu o nosso «eu». Por que mentimos? Porque com isso podemos defender o nosso «eu». Por que somos desonestos? Porque pensamos que isso trará vantagens ao nosso «eu». Por que somos impuros? Porque pensamos que assim daremos prazer ao nosso «eu». Por que sentimos inveja? Porque pensamos que alguém está se sobrepondo ao nosso «eu».

Todos estes pecados são frutos do «eu» insubmisso.

Chegamos agora ao clímax do assunto: Temos que entregar o nosso «eu» a Jesus Cristo ou não?

Um homem se aproximou de mim e me disse: «Você não se lembra de mim?». Sempre tive dificuldades para reconhecer a alguém, porque vejo muitas pessoas em muitos lugares diferentes. No entanto, havia algo que me fazia recordar daquele homem. Mas ele me adiantou, dizendo: «Sou o homem que lhe buscou em um hotel de Oklahoma». Então me lembrei de quando ele entrou em meu quarto e me disse: «Estou buscando a vida cristã, mas é um inferno. Vinte vezes ao dia o meu «eu» diz para eu desistir de tudo». Repliquei-lhe então: «É por isso que você enfrenta o inferno. Precisa tirar esse «eu» de suas próprias mãos e pô-lo nas mãos de Cristo. Oramos juntos e então ele se entregou a Cristo, dizendo: «Receba-me e me transforme», e levantou-se radiante.

Quando o vi pela segunda vez, a sua esposa veio até mim, dizendo: «Obrigado por haver devolvido o meu marido». Mas eu não lhe devolvi o marido, ele se entregou a Cristo, que o devolveu a si mesmo, à esposa e a todos.

Um pastor nos Estados Unidos conta que estava muito zangado porque o seu bispo não o punha em igrejas suficientemente grandes para ele. «O bispo e o gabinete estão me sacrificando. Estou pendurado na cruz». Um dos seus paroquianos ao ouvi-lo, disse-lhe: «Você está pendurado na cruz, mas ainda não morreu, pois está lutando com os ressentimentos». Naquele momento, aquele pastor se ajoelhou e orou. Ele disse depois que ao levantar-se era outro homem, sem receio algum. Naquele mesmo ano, 285 pessoas se converteram em sua congregação, a mesma da qual dizia que não era suficientemente grande para ele. Não havia nenhum domingo sem que alguém se entregasse.

Na verdade, quando aquele pastor dizia que o tratavam injustamente ao designar-lhe para uma igreja pequena, ele é que era pequeno para essa igreja. Nosso próprio «eu» ao nosso serviço é motivo de sofrimento e dor; mas nosso «eu» nas mãos de Deus é uma possibilidade e um poder.

O filho de Asa Candler, herdeiro dos milhões de seu pai, tornou-se um alcoólatra. Ele lutava contra o álcool e perdia sempre. Um dia quando entrava em sua casa, ouviu uma voz que dizia: «Entrega-te», e isto o afligiu. Que coisa estranha! Eu tentei entregar o álcool e esta voz me dizia: «Entrega-te». Ao encontrar-se com sua esposa contou-lhe o que tinha lhe acontecido. Ajoelharam-se e então entregou, não o álcool, mas a si mesmo. Ao contar isto, diz: «A minha esposa orou como nunca antes o tinha feito, e quando nos levantamos, eu sabia que o álcool já não seria um problema para mim».

Enquanto aquele homem estava tentando deixar o álcool não conseguia nada, mas no momento em que entregou o seu «eu» a Cristo, conseguiu tudo. O «eu» insubmisso era o seu problema.

Nós encontramos a liberdade através da submissão. Todo o problema não está em torno do que somos, mas no que somos. Se Cristo nos conquistar, nós conquistamos o mundo.

E. Stanley Jones (1884-1973)

Teólogo e missionário metodista.

Traduzido de «Jesus É Senhor», Imprensa Metodista, São Paulo, Brasil, 1969).