Para a proclamação do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo
Ano 12 • N° 64 • Outubro - Novembro - Dezembro 2011

LEGADO

Tenhamos paz

Romanos 5:1 não é uma afirmação do fato de que temos paz. É um chamado a tomá-la.

«Justificados, pois, pela fé, temos paz para com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo» (Rom. 5:1).

A palavra «pois», remete-nos para trás, aos versículos anteriores da carta do apóstolo. Não podemos levar uma parte da carta a algum outro lugar que nos agrade, e descuidar toda a outra parte do seu desenrolar. Devemos acompanhar ao apóstolo por toda a extensão do caminho. É de vital importância que não só cheguemos aos lugares corretos, mas também cheguemos lá com um enfoque correto. O enfoque é um fator essencial no mistério da revelação.

Qual é, então, o enfoque sugerido por esta palavra «pois»? Vamos dar uma olhada para o caminho já percorrido. Ele começou na devastação, triste e deprimente, da ruína do pecado do qual não há nenhuma saída. Todos perderam a sua justiça e todos perderam o seu poder de recuperá-la. Muitos dispositivos são experimentados e muitas tentativas são feitas para escapar, mas todas as lutas são ineficazes, e não há nenhuma forma de escapar. Nessa horrível escravidão todos estão presos por toda a vida.

Não há saída. Não, não até que Deus mesmo abrisse um caminho, um caminho novo e vivo. O infinito Amor encontrou a nossa profunda necessidade e através da devastação aparece um caminho, que clareia cada vez mais até que o dia seja perfeito. No amor e na graça expiatórios de Jesus Cristo os prisioneiros da desesperança se convertem em filhos da eterna esperança. Através do mistério de uma Cruz, todos podem recuperar a sua coroa. Em uma morte cujo mistério ninguém pode explorar, encontramos as fontes de uma nova vida. E tão completamente a graça divina encontra nossa necessidade que não só podemos abandonar a prisão do deserto, mas também podemos deixar as nossas obrigações e nossas cadeias. A liberdade oferecida não é apenas uma posição, é também uma força e uma provisão. É mais que uma anistia, mais que um decreto de emancipação. É uma dádiva e uma herança. É a libertação da saúde. É a libertação da harmonia.

É por isso que esta carta começa nublada e em trevas, mas o céu escuro se abre no final do quarto capítulo, e o céu azul aparece e o Reino dos Céus é aberto para todos os crentes.

E é justamente aqui que chegamos à palavra «pois». «Justificados, pois, pela fé, temos paz para com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo». Não é uma afirmação do fato de que temos paz. É uma apelação para tomá-la. Uma anistia é oferecida, tome-a. O perdão gratuito está sendo proclamado, tome-o.

Alguém pode ser tão néscio que ao ver uma libertação tão maravilhosa como esta não a aceite? Podemos ver a grande possibilidade e não traduzi-la em uma feliz experiência? Sim, essa é a estranha sugestão. A paz é oferecida, uma paz que excede o entendimento, mas não tomamos. Inclusive nos arrastamos até a própria Cruz com as nossas sufocantes cargas sobre as costas e retornamos como se nada tivesse acontecido ali. Continuamos levando as nossas cargas conosco. É um dos mistérios assombrosos da loucura humana. Aqui está o lugar indicado onde o peregrino cansado pode deixar a sua carga e encontrar descanso e paz. Mas não, voltamo-nos novamente para o lúgubre deserto, para as obrigações e para a prisão.

O que diremos, então, a estas coisas? Bem, vamos examinar novamente o caminho que nos conduz até esta grande palavra suplicante. Vamos examiná-lo bem lentamente. Vamos ficar com as coisas o bastante para poder senti-las. Vamos nos demorar no versículo trinta e dois do primeiro capítulo, e no quarto verso do segundo capítulo, e no vigésimo versículo e vigésimo terceiro do terceiro capítulo. Vamos fazer uma parada em cada um destes lugares modificando todos os plurais para o singular, até que nós tenhamos visto a nós mesmos em uma compreensão plena da palavra sagrada.

E então, mais que em nenhum outro lugar, fiquemos muito tempo no versículo vinte e cinco do terceiro capítulo: «A quem (Jesus Cristo) pôs como propiciação por meio da fé em seu sangue, para manifestar a sua justiça, por causa de ter passado por cima, em sua paciência, os pecados passados». Vamos encontrar a nós mesmos nesta palavra tão monopolista: «nós». Vamos nos ajoelhar diante da Cruz, e ficarmos ali até que os sentimentos vitais comecem a mover-se no coração entorpecido, como se o inverno tivesse acabado e tivesse ido.

E como um segundo conselho, vamos olhar para longe de nós mesmos, para Cristo. Aqui há uma passagem de uma carta de Klebe, que penso que é rica em conselho espiritual sólido: «Penso que é coisa egoísta e perigosa que as pessoas estejam sempre voltando os seus olhos para o seu interior. Por favor, não deixe que suas próprias faltas ou algo pouco confortável sejam muitas vezes mais importantes. Não é natural que seja assim naqueles por quem Cristo morreu». Não, não é natural. A única coisa natural é que devemos ser tão atraídos e arrebatados pela graça de Cristo, que as faltas, desgostos, temores, assim como os nossos pecados, sejam todos consumidos em sua glória. É por isso que vamos com fé e confiança para aceitar a Sua paz. Vamos nos lembrar alegremente das coisas que estão em Cristo, e em uma alegre e inflamada esperança vamos prosseguir ao longo do nosso caminho em bem-aventurança e paz.

John H. Jowett (1864-1923),

pregador e pastor da Westminster Chapel.