Uma revista para todo o Corpo de Cristo · Nº 63

A batalha contra o inimigo

Rodrigo Abarca

"Então, ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e o poder, e o reino do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo; porque já foi lançado fora o acusador de nossos irmãos, o qual diante do nosso Deus os acusava dia e noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte" (Apoc. 12:10-11).

Os ataques do inimigo permitem a manifestação do poder de Deus em nossa vida; isto é, o poder da ressurreição de Cristo. Aí temos um homem como Paulo, que caminha na vontade do Senhor, que ama ao Senhor, que está fazendo a obra do Senhor talvez como nenhum outro na história do cristianismo, e de repente, começa a sofrer uma onda de terríveis dificuldades e ataques. Vem a Jerusalém, o prendem, golpeiam-no e o põem em uma prisão com acusações injustas. Enquanto os judeus tramam e maquinam como matá-lo, passa-se dois anos na prisão e o governador, que deveria deixá-lo livre em justiça –porque não tem nenhuma razão para retê-lo–, mantém-no preso para congraçar-se com os judeus, enquanto espera que eles o subornem para matá-lo.

Paulo se inteira disto e percebe que a única maneira de manter-se a salvo é apelando a César. Então, o governador o manda a Roma, mas, quando o apóstolo vai pelo caminho, o seu navio afunda, passa uma noite e um dia agarrado em uma tabua, e finalmente sai na praia. Então, quando prepara uma fogueira para esquentar-se, uma víbora o morde. Parece como se todos os demônios comparecessem para caçá-lo! Finalmente, depois de chegar a Roma, deixam-no em uma casa alugada, onde vive durante dois anos preso. Imaginem que tipo de vida é essa!

Entretanto, Paulo vê que, por trás dessa adversidade, o Senhor está cumprindo o seu propósito. Ele se dá conta de que Satanás não pode vencer. Paulo percebe que é o inimigo quem está por trás dele, mas vê que, sobre tudo isso, o Senhor está operando e fazendo a sua vontade; porque o diabo não pode impedir que Deus cumpra o seu propósito. Quando o diabo nos ataca, o faz sob o controle e a autorização de Deus; nunca pode fazê-lo sem Deus, e Deus permite isto por várias razões.

 

Por que Deus permite a batalha

Deus quer que nós aprendamos como vencer ao diabo. João diz: «Escrevo-lhes a vós, jovens, porque vencestes o maligno», quer dizer, aprendestes como vencer ao maligno. Os meninos ainda não podem, mas os jovens são os que já alcançaram certa maturidade e sabem como ir à batalha e vencer ao maligno.

A igreja é chamada a vencer ao inimigo. Quando a igreja está em uma condição espiritual fraca, e não está caminhando no propósito de Deus, Satanás não se ocupa dela, porque a igreja não é uma ameaça para ele nessa condição. Mas, quando ela começa a tomar a terra prometida, a tomar posse do reino de Deus, a apropriar-se da plenitude de Cristo, então Satanás reage instantaneamente e começa a adversidade. Isto é inevitável, porque cada coisa que ganhamos de Cristo, o inimigo perde.

Se nós conhecermos a Cristo, Satanás começa a perder terreno, a perder o seu lugar. Recordem o efeito da missão dos setenta discípulos no evangelho: «Eu via Satanás cair do céu como um raio». Quando a igreja se apropria da autoridade de Cristo, Satanás começa a perder terreno nos corações e mentes dos homens. Cada vez que vocês oram em autoridade aqui na terra, ele é deslocado dos lugares celestiais, e perde a sua influência sobre as pessoas. Muito da pregação do evangelho se deve que vocês têm aberto, por assim dizer, um caminho nos lugares celestiais para que a palavra do Senhor toque os corações, deslocando os poderes das trevas que mantêm cativa a mente e o coração das pessoas.

Uma parte da pregação do evangelho é esta batalha que livra nos lugares celestiais, por meio da oração. A oração é fundamental. Este é o caminho da vitória, porque a oração é a nossa arma de batalha contra as hostes espirituais da maldade. Mas, Satanás fica fazendo campanha quando oramos.

Apocalipse 12 retrata muito bem a estratégia de Satanás e a maneira como atua. Aqui aparece a igreja como uma mulher vestida com o sol, com a lua debaixo dos seus pés e em sua cabeça uma coroa de doze estrelas. Este é o povo de Deus, retratado de maneira gloriosa. O sol é figura do Senhor Jesus Cristo, e a igreja está vestida de Cristo. Entretanto, tem que dar a luz aos filhos de Deus, ao longo da história deste mundo, e por isso está com dores de parto. Estas dores descrevem a tribulação da igreja através da história para dar a luz aos filhos de Deus.

Por isso, o dragão está em pé de frente para a mulher, para devorar ao seu filho no momento em que nasça. O dragão está de frente a ela, com a boca aberta, e quase parece que vai ganhar a batalha, porque está aí para devorar o menino. Não obstante, quando nasce o menino, para humilhação do dragão, o menino é arrebatado para Deus. Então o dragão se enche de ira contra a mulher. Mas diz, «e a mulher fugiu para o deserto», para um lugar secreto onde é guardada por Deus durante 1.260 dias.

Preste atenção a este fato: o diabo peleja a morte; isto não é um jogo de crianças. O dragão quer devorar ao menino, e em seguida, quando não o obtém, quer destruir a mulher com um rio; mas a terra vai em ajuda da mulher. Isso significa que Deus está no controle de tudo. Satanás pode fazer o que quiser, mas o Senhor vai nos libertar; e por isso a terra traga o rio, que provavelmente representa a corrente da perseguição que vem contra a igreja.

Então, «o dragão se encheu de ira contra a mulher». Por que se encheu de ira? Porque com a ação da mulher (como depois um anjo revela a João), Satanás foi lançado na terra. Quando o menino varão sobe ao céu, Satanás é lançado na terra e perde a sua posição de domínio sobre o mundo. Portanto, observem o que o dragão faz: «...encheu-se de ira contra a mulher», e uma voz do céu diz: «Ai dos moradores da terra porque o diabo desceu a vós com grande ira sabendo que lhe resta pouco tempo».

A mulher representa a igreja gloriosa e celestial, concebida no propósito eterno de Deus; e o menino varão é a igreja em ação no mundo, que nasce no mundo e atua nele. É o que Apocalipse chama os vencedores, quer dizer, aqueles que vencem o diabo porque tomam a visão celestial, encarnam-na no mundo e a levam a sua consumação. A mulher e o menino são uma mesma coisa vista em dois aspectos distintos. É obvio, o menino é Cristo que nasce, cresce e é formado em nós.

O diabo cai por terra e sabe que lhe resta pouco tempo. E o que faz? Em Apocalipse 13, vocês verão a reação final dele contra a igreja. Em nossas traduções diz: «Parei-me sobre a areia do mar», como se o profeta parasse ali, mas, no grego dos textos mais antigos diz «Parou sobre a areia do mar». Quer dizer, o diabo, com o propósito de fazer guerra contra a mulher, foi e parou na beira do mar e chamou a besta e ao falso profeta à cena, para descarregar toda a sua ira contra a mulher. Estas são as suas armas finais, e ele lhes dá toda autoridade para que destruam por completo à igreja.

Esta é uma batalha para a morte e sem quartel. O nosso adversário nunca se cansa nem descansa, porque é um ser espiritual. É importante dizer, irmãos, que nunca devemos cometer o engano de subestimar ao inimigo. O diabo não é pouca coisa. Pensem por um momento: é o mais poderoso dos seres criados por Deus, e nos supera largamente em inteligência, conhecimento e habilidades.

Se nós tivéssemos que lutar esta batalha sem o Senhor, estaríamos perdidos; não temos nenhuma chance de vencer. Satanás engana e tem sob o seu domínio o mundo inteiro, às nações, aos mais inteligentes e aos mais sábios. Mas a nossa vitória está em Cristo. Ele é o único que o venceu e contra o qual Satanás não tem poder. Mas, se nos separarmos de Cristo, estamos perdidos e o inimigo já nos venceu.

Vejamos o que diz Apocalipse 12, depois que o Filho varão foi levado aocéu. O versículo 7 diz: «Depois houve uma grande batalha no céu». Apocalipse é um dos livros fundamentais da Bíblia. É o mais difícil de entender, provavelmente porque nele se revelam os segredos e princípios pelos quais a igreja vence a Satanás e se estabelece finalmente o propósito eterno de Deus na história. Você pode ver aqui profundos princípios espirituais em ação, que estão atuando na história, e que Deus nos está revelando para que saibamos como se trava a batalha.

Então, o Filho varão subindo ao céu significa a igreja assumindo a sua posição celestial. Mas isto não é automático, mas é produto de uma série de coisas que têm que cumprir-se. No entanto, quando a igreja assume a sua posição de autoridade no céu, o que ocorre? Há uma grande batalha no céu. Quer dizer que, como resultado do que aconteceu com a igreja vem uma grande batalha, na qual Miguel e seus anjos expulsam o dragão e seus anjos do céu, e estes caem na terra. O que isto quer dizer? O mesmo que aparece no evangelho, quando o Senhor Jesus Cristo esteve na terra: como resultado da ação do Senhor no mundo, o diabo perde o seu lugar e cai na terra.

Assim também, como resultado da ação da igreja no mundo, isto é, de Cristo através da igreja, o diabo cai na terra. E isto é um princípio em ação, que se cumpre toda vez que a igreja se manifesta vitoriosa, e que vai ter uma manifestação definitiva ao final dos tempos, quando surgir a última expressão da igreja e a última operação contrária do diabo. Mas não se cumprirá uma só vez, mas veio cumprindo-se desde que o Senhor Jesus veio à terra. É um princípio que está operando através da história. Então diz: «o diabo cai na terra», e não prevalece. Entretanto, vocês devem ver a igreja por trás dos anjos que lutam contra Satanás.

 

O exemplo de Daniel

Recordem que o livro de Daniel nos revela isto mesmo; retira um pouquinho o véu dos lugares celestiais e nos mostra como funcionam as coisas ali. Recordem que Daniel descobre, lendo a profecia de Jeremias, que já passaram os 70 anos para que a nação judaica retorne a Israel, e reconstrua o templo como estava profetizado. Então ele começa a orar, pedindo ao Senhor que se cumpra a profecia. Vejam que, apesar de Daniel já saber que o profeta Jeremias tinha dito, não toma uma atitude de dizer: ‘Bom, o profeta o disse e vai se cumprir de qualquer maneira’. Ele sabe que tem que orar, porque Deus não faz nada a não ser em resposta à oração da igreja; sobretudo, quando há poderes espirituais no meio, que querem impedir que estas coisas se cumpram.

Claramente, o diabo não quer que Israel volte para a sua terra e reedifique o seu templo, porque um dia, para esse templo reconstruído, vai vir o Messias, e vai acabar com o império de Satanás. Então Daniel sabe que estas coisas não são automáticas, porque a vontade de Deus na terra só se faz quando a vontade humana se une à vontade divina. É um profundo axioma espiritual, porque Deus delegou ao homem o governo da terra e Deus nunca anula o que tem feito.

Deus quer governar a terra através do homem, e sempre vai fazê-lo através deste; sempre vai procurar um homem para exercer a sua autoridade aqui. Por isso Cristo expressou a autoridade de Deus na terra, porque é o Filho do Homem (Jo. 5:27), o homem perfeito, através do qual a vontade de Deus se faz na terra. Este é um princípio espiritual que não pode ser quebrado. Diz claramente em Ezequiel: «E procurei entre eles homem que fizesse um muro, e que ficasse na brecha diante de mim, a favor da terra, para que eu não a destruísse; e não o achei» (Ez. 22:30).

Vocês podem notar o quão importante é para Deus encontrar a esses homens, e no caso presente, ao corpo de Cristo? Esta é a função da igreja. Por isso, o Senhor nos ensinou a orar: «Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu reino».  E quando diz, «faça-se a tua vontade na terra como no céu», nos mostra queé a igreja que deve trazer a vontade de Deus para a terra. Por isso a oração da igreja é tão importante.

Volto para a história de Daniel. Daniel começa a orar: «Senhor que se cumpra a tua palavra, que a tua nação retorne para a sua terra, porque já passaram os setenta anos». Uma primeira resposta vem com o anjo Gabriel, que traz a chamada «profecia das setenta semanas». No entanto atrás disso, Daniel continua orando durante três semanas, sem obter resposta. Mas, passados estes dias, veio um anjo e lhe disse: «Daniel, do primeiro dia que dispôs o teu coração para orar... foram ouvidas as tuas palavras e por causa das tuas palavras eu vim. Mas tens que saber que durante 21 dias o príncipe da Pérsia se me opôs…». Quer dizer: «Havia uma potestade maligna impedindo que a sua oração fosse respondida; mas, porque você perseverou em oração, finalmente essa potestade foi retirada e eu pude passar».

Em consequência, os anjos, ao lutar contra as potestades malignas, têm que ser apoiados pela igreja, porque a igreja está sobre os anjos. Está escrito: «...deu-o por cabeça (a Cristo) sobre todas as coisas à igreja». Porque a igreja expressa a autoridade de Cristo e os anjos atuam em função dessa autoridade. E se a igreja não ora e não exerce autoridade, os anjos não podem fazer nada.

Os anjos atuam quando a igreja atua. Isso é um segredo que nos é mostrado aqui. Miguel e seus anjos atuam quando a igreja atua, e por causa da oração do Daniel, o príncipe da Pérsia é retirado e se abre o caminho para que o anjo de Deus chegue com a ordem e o mandato de Deus, e então a profecia vem a se cumprir.

Vocês podem notar o quão importante é tudo isto? Esta é a batalha espiritual. Não é uma batalha simplesmente por nossa saúde ou bem-estar, ou nossas situações pessoais. Isto vai muito mais além, irmãos. Devemos ter uma visão muito mais ampla. Estamos lutando para que se cumpra a vontade de Deus na terra, que Satanás seja retirado e os propósitos eternos de Deus venham a terra.

Então essa é a visão do livro de Apocalipse. Detrás desta batalha no céu, está também o princípio da igreja, orando e fazendo que as coisas aconteçam, e abrindo um caminho para que os anjos de Deus, por assim dizer, expulsem Satanás do céu. Quando o diabo cai na terra, se enfurece ainda mais contra a igreja e chama à cena ao falso profeta e à besta, mas isso ainda está mais adiante.

 

Princípios para a vitória

Vejamos os princípios pelos quais a igreja vence a Satanás segundo Apocalipse 12. Os versículos 10 e 11: «Então ouvi uma grande voz do céu que dizia: agora veio a salvação, o poder e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo». O que está aqui em jogo é isto: que se estabeleça o reino de Deus e a autoridade de Cristo sobre a terra, «porque foi lançado fora o acusador dos nossos irmãos, que os acusava diante de Deus de dia e de noite». Isto é uma clara referência à história de Jó, e diz «e eles o venceram…». Como? «...por meio do sangue do Cordeiro e a palavra do testemunho deles, e… –observem a última condição– desprezaram as suas vidas até a morte». Aqui estão os três elementos com os quais a igreja vence a Satanás.

 

O sangue do Cordeiro

Primeiro, o sangue do Cordeiro. Isto não significa, como alguns creem, que quando alguém está enfrentando as trevas tem que invocar o sangue. Não é uma coisa mágica. Isto se refere que a principal obra que Satanás faz contra nós é a acusação.

Não há obra mais insidiosa do diabo que a acusação. Ele nos acusa constantemente. Como já não pode nos acusar diante de Deus, porque temos ao nosso Advogado, chega até a nossa mente e nos sussurra: ‘Você é um pecador, você não serve para nada, você falha para com Deus’. E vai pondo um peso de culpa que, finalmente, se fizermos conta, leva-nos a uma derrota espiritual. E o segundo, que é tão insidioso quanto o primeiro, é que acusa uns contra os outros. Satanás não se contenta apenas em me acusar perante a minha própria consciência, mas também vai e me acusa com o meu irmão e me sugere: ‘Viu o que o teu irmão te fez?’, semeando a discórdia dentro do corpo de Cristo.

Há uma só maneira de defender-se da acusação do diabo: o sangue de Cristo. Porque o sangue de Cristo implica que o Senhor cancelou toda a minha dívida. Satanás pode nos acusar de tudo o que quiser, mas o Senhor já pagou por nós. Se pecar (e todos pecamos ocasionalmente), tenho que correr imediatamente para o sangue, e confiar nele. Satanás sempre vai tratar de desvalorizar o sangue, porque ele sabe que o dia que conseguir minimizar o seu valor, seremos derrotados. Porque, quem pode nos defender da sua acusação, a não ser o sangue de Cristo?

Recordem que a acusação do diabo procura nos desconectar de Deus. Quando eu me sinto culpado e pecador, não posso ter comunhão com Deus. É impossível, porque Deus é santo, e, embora a acusação seja mentira, se a aceitar, já me separa de Deus. Como posso caminhar com Deus, se me sentir pecador?

Por isso, entre outras coisas (faço um parêntesis), na igreja primitiva mantinham a ceia do Senhor como o centro da sua reunião, porque é o aviso, permanente e constante para todos, de que o sangue de Cristo foi derramado por nós. É o sangue que nos mantém em comunhão com Deus.

«...o venceram pelo sangue do Cordeiro». Não podemos, nem devemos aceitar nenhuma acusação de Satanás, porque se o fizermos estaremos desprezando o valor do sangue de Cristo: «Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda maldade». Mas, assim como eu vejo que Cristo me limpa, também devo considerar que limpa o meu irmão; e que o mesmo sangue que me justifica, justifica a ele também. Se o meu irmão me ofender, se pecar ou fizer algo errado, Cristo também o defende, porque é o nosso advogado. Ele morreu pelos pecados do meu irmão e cancelou a dívida do meu irmão da mesma forma que a minha. Em consequência, aplica-se o sangue de Cristo em ambos os casos para vencer ao diabo.

 

A palavra do testemunho

Vejamos agora o segundo elemento: a palavra do testemunho deles. Aqui a palavra do testemunho é a confissão de Jesus Cristo. É o anúncio, a declaração de quem Cristo é para nós. Está expresso assim, porque na época em que João escreveu o livro de Apocalipse, emitiu-se um decreto imperial em que todos tinham que adorar ao imperador. Os cristãos tinham que fazer uma confissão e dizer: ‘O imperador, César, é o Senhor’, quer dizer, o Kyrios (grego).

Se eles não fizessem isso, eram levados à morte. Era uma confissão que se fazia com os lábios e, é obvio, os cristãos não podiam dizer que César era o Kyrios, porque Kyrios é um título exclusivo que declara não só a autoridade suprema do Senhor Jesus Cristo, mas também a sua divindade. Então, «a palavra do testemunho deles», é que Cristo é o nosso Senhor e Deus. E não é apenas uma confissão, mas também um fato, que Cristo é a nossa cabeça, o nosso Senhor.

Se estivermos efetivamente debaixo da autoridade de Cristo, Satanás não pode nos tocar, porque ele não pode tocar ao Senhor. Mas para isto, requer-se que caminhemos debaixo do Seu governo, sob a Sua autoridade, que o reconheçamos como a nossa cabeça em todas as coisas e assim o confessemos.

 

Desprezaram as suas vidas

E o terceiro elemento é, «desprezaram as suas vidas». Finalmente, só há uma maneira de vencer a Satanás de maneira definitiva: desprezar esta vida até a morte. Isto significa que devo estar disposto inclusive a morrer pelo Senhor. Se eu estiver disposto a perder tudo, Satanás não pode me vencer. Mas se me agarro a algo, ele já me venceu.

Recordam a história de Jó? O que Deus disse a Satanás? «Anda e tira-lhe». Satanás foi e lhe tirou todos os seus bens, depois matou a sua família, e depois, na terceira ocasião, não contente com isso, foi e lhe tirou a sua saúde, e até a esposa de Jó se voltou contra ele. Em breve tempo Jó perdeu tudo. Se tivesse estado agarrado a alguma dessas coisas, ele teria sido vencido. Satanás teria ganho a batalha. Porque qual era a acusação de Satanás? «Jó te ama, te serve e te obedece porque tu o proteges. Te ama porque tu lhe dás as coisas; mas tira-lhe e veremos». Finalmente, esta é uma batalha entre Deus e Satanás pelo coração de Jó.

Satanás sustenta que o homem só serve a Deus por interesse, já que ele mesmo não o faria por outra coisa mais, porque Satanás é assim. E Deus quer que o sirvamos por amor. É uma batalha pelo coração. Qual é a única maneira em que isto se pode mostrar? Como se vence ao diabo? Deus tem que nos levar por um caminho onde nos despoja e retira aquilo que amamos, para que se veja se efetivamente somos capazes de lhe obedecer e lhe amar, só porque ele é digno e merece tudo. Se Deus nos tirar tudo, seremos capazes de seguir adiante? Por isso diz: «...e desprezaram as suas vidas», tal como Jó.

 

Consciência da batalha

Penso que um dos grandes problemas da Cristandade é a falta de consciência com respeito ao tamanho e o grau de intensidade da batalha em que está envolvida. É uma batalha pelo governo do universo, pelo domínio do mundo. Nós sabemos que o Senhor já ganhou a batalha, mas Satanás resiste e não aceita. Quem vai governar: Cristo com a sua igreja ou o diabo? Quem vai ganhar o território? É uma luta de morte. Quando o diabo perder esta batalha será lançado no lago de fogo e nunca mais haverá oportunidade para ele. Você percebe que ele luta por sua vida, por sua sobrevivência? Então, trata-se de um inimigo formidável; mas nós temos ao Grande Vencedor.

 

Uma batalha corporativa

Outra coisa importante que Paulo nos diz desta batalha, encontra-se em Efésios, e nos mostra que a luta contra o diabo não é solitária. Não podemos lutar esta batalha sozinhos. Se eu e você sozinhos, tentarmos lutar contra o diabo, já estamos vencidos. Esta é uma batalha que se realiza no corpo de Cristo. Este é outro ensino fundamental da Bíblia. Aquele que tem poder para vencer ao diabo não somos nós, solitariamente. É no Corpo que está a vitória e a autoridade de Cristo para vencer.

Vejam o que diz em Efésios 6:10, uma passagem muita conhecida que muitos interpretam de maneira individual, mas que Paulo o põe de maneira coletiva. Recordem que o assunto de Efésios é a igreja. Primeiro nos revela o propósito eterno de Deus com respeito à igreja no passado, em seguida a edificação da igreja no presente e em seguida a batalha da igreja contra as hostes espirituais da maldade, onde o novo homem que é o corpo de Cristo (v. 11) fica de pé para batalhar. E nos diz: «Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firme contra as armadilhas do diabo». Refere-se à igreja. Não a mim individualmente, mas a toda a igreja, vestindo a armadura de Deus. O corpo de Cristo se veste da armadura, pois é uma luta que realizamos juntos.

E então nos diz que há armas ofensivas e defensivas, «porque não temos luta contra sangue e carne, mas contra principados, contra potestades, contra governadores das trevas deste século, contra hostes espirituais de maldade nas regiões celestes». Há uma batalha que a igreja deve travar e a está travando pelo domínio da terra. Satanás domina o mundo com magia, espiritismo, feitiçaria, filosofias, religiões, etc. São intervenções de espíritos demoníacos na vida das pessoas. No entanto, essas coisas não funcionam contra a igreja, porque está escrito: «Nenhuma arma forjada contra ti prosperará».

Qualquer princípio de feitiçaria não funciona contra a igreja, porque ela não está sob o poder de Satanás. Estas coisas funcionam em um mundo onde Satanás é rei e senhor. Mas a igreja está debaixo do poder e da autoridade de Cristo. Nem a feitiçaria, nem a bruxaria funcionam com ela, a menos que alguém fique na posição destas coisas o alcançarem, saindo da autoridade ou da cobertura do Senhor.

Não obstante, diz-nos Efésios que um crente se mantém sob a autoridade do Senhor de duas maneiras: por um lado, quando ele está sujeito diretamente ao Senhor no coração, e o Senhor vive nele. Mas, por outro, também quando alguém está sujeito diretamente ao corpo de Cristo. Se alguém evitar a autoridade do corpo também se expõe aos ataques de Satanás.

Vou dar um exemplo: quando Paulo trata com o caso daquele homem que pecou em Corinto, diz: «O tal seja entregue a Satanás». O que isso significa? Diz: «Congregados vós, toda a igreja e o meu espírito», e isso quer dizer que a igreja, quando aparta uma pessoa e a põe para fora da sua comunhão, entrega-a a Satanás, porque fica fora da proteção do corpo de Cristo.

Preste atenção na obra insidiosa de Satanás, quando quer destruir a um filho de Deus. Primeiro, o inimiza com a igreja e começa a trabalhar para apartá-lo. Este começa a se isolar, a ficar em casa, e já não se reúne com os irmãos. Rapidamente Satanás encontra uma maneira de atacá-lo e o destrói. É como o lobo. Quando o lobo quer atacar ao rebanho, vai e isola uma ovelhinha, uma só. Ou os leões, que quando atacam um rebanho de búfalos, não se lançam sobre toda a manada; caem sobre um e o isolam. Assim é Satanás, como um leão rugindo. Ele trata de nos isolar, porque sabe que separados do corpo estaremos expostos, porque o corpo de Cristo é a nossa proteção contra ele.

 

O dia mau

Então diz: «Vesti-vos…», no plural. É o corpo que se veste da armadura «…de Deus para que possais estar firmes contra as armadilhas do diabo». E aí explica a luta, como diz o 13: «portanto, tomai toda a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau».

Há um dia mau. Não é que Satanás pode em todo tempo e a cada momento nos atacar, sem cessar, durante toda a nossa vida, porque Deus sabe que não poderíamos resistir algo assim. Então, Deus lhe dá um tempo, dias, ocasiões e períodos para nos atacar. Por exemplo, a ocasião em que o Senhor disse a Pedro: «Pedro, Satanás te pediu para vos joeirar como o trigo». Ali claramente Deus concede essa possibilidade, mas isto não quer dizer que toda a vida de Pedro seria joeirada; pois quem vai resistir isto toda a vida? Não, é por uns dias, por umas semanas. Mas vai vir e vai chegar e, claro, isto significa que levará a Pedro a negar o Senhor, e através dessa negação, finalmente se converterá no apóstolo que o Senhor está procurando. Antes Pedro era seguro e impetuoso, e depois ficou quebrantado, humilhado, é aí que o Senhor pode usá-lo.

«...para que possais resistir no dia mau». Há um dia mau que vem sobre a igreja, inevitavelmente. Há momentos em que parece que tudo começa a ir de mal a pior, como aconteceu com Paulo, e as coisas ficam difíceis. Vêm as enfermidades, os irmãos perdem os seus trabalhos, vem a pobreza. É um dia de terremoto; mas qual é o propósito de Deus naquilo? Que tudo o que não é de Cristo, o que é meramente humano, caia e só fique em pé o que é de Cristo.

Irmãos, a Deus não interessa a quantidade, nem o êxito humano, nem que tenhamos a maior igreja. Nada disso lhe impressiona; o que Deus quer é que Cristo seja formado em nós, e para isso ele tem que separar a palha do trigo. Nós não sabemos quanto temos de Cristo até que passamos pelo dia mau, pois quando somos sacudidos se desprende de nós tudo o que não é de Cristo. Ai desse dia para algumas igrejas! Porque quando as igrejas se edificam na pura atividade, energia e capacidade humana vêm o joeirar e não fica nada. Mas, quando estamos realmente em Cristo, o de Cristo sempre sobrevive, porque Satanás não pode destruir a Cristo.

Agora, isto pode ser terrível para nós, porque de repente são coisas que alguém ama e crê que são reais, mas não são. Quem de nós se conhece a si mesmo? Quem de nós sabe até que ponto é perverso? Não sabemos. Notem que não só o pecado é algo que Deus não aceita em sua obra; ele também não aceita nada que venha meramente do homem. Deus não quer nada que seja simplesmente a nossa inteligência, a nossa habilidade, a nossa força. Deus quer que tudo seja Cristo, do centro até a circunferência da igreja. Que tudo esteja baseado em Cristo, na vida da ressurreição, no poder de Cristo.

Disso se trata tudo, e por isso o Senhor, de tempo em tempo, permite que o diabo venha de maneira especial contra nós, pois ele está sempre preparado para atacar e fazer guerra a nós. Mas, se estivermos em Cristo, não nos pode vencer, e, na verdade, faz-nos mais que vencedores. Só na batalha descobrimos a vitória. Como você vai conhecer a vitória se nunca lutou uma batalha? Como vai saber que Cristo é vencedor se nunca enfrentou ao inimigo? Como vai descobrir o poder vitorioso de Cristo se nunca esteve frente a frente com o dragão? É inevitável.

 

«Estejais firmes...»

«Estejais, pois, firmes». O irmão Watchman Nee explica isto muito bem, dizendo que na carta aos Efésios há três verbos que representam a posição da igreja, a atividade ou a obra da igreja e a batalha contra Satanás. O primeiro é «sentai-vos», que representa a posição celestial. Aí eu não tenho que fazer nada, mas descansar na obra consumada de Cristo. Mas em seguida vem, «andai» e aí se refere ao que eu faço em resposta à obra consumada de Cristo. E finalmente, «estejais firmes», o que fazemos com respeito a Satanás.

Com respeito a Satanás, não temos que conquistar nada, nem ganhar nada; temos simplesmente que manter o território que Cristo ganhou para nós. «Estejais firmes» é sustentar o que Cristo já nos deu. O que Satanás vai tentar fazer? Vai tentar roubar e destruir tudo o que Cristo nos deu.

Vou dar um exemplo: Suponhamos que eu conheço muito da Palavra, estudei-a e me enchi de conhecimento. Deus, não obstante, não quer mero conhecimento, mas quer realidade, quer que Cristo viva em mim. Por isso, vai vir um dia em que Deus vai permitir que Satanás nos sacode a tal ponto, que todo esse conhecimento que eu creio ter, algo que não veio de Cristo, vai se tornar em pó. Não irá me sustentar no dia da provação, e então, eu vou descobrir amargamente que o meu conhecimento era puro conceito intelectual; que embora eu creia saber muitas coisas, não as sabia, porque não me sustentaram na hora da provação. E esta hora, inevitavelmente, vem sobre todos os escolhidos.

Outro exemplo: Suponhamos que eu seja uma pessoa pacífica, amável e simpática por natureza. Mas Deus não quer que eu seja meramente uma pessoa amável e simpática. Ele quer que Cristo seja formado em mim, e que o que haja em mim seja a amabilidade, a mansidão de Cristo. Então, Deus vai permitir que aconteça um período de provações. Quando somos postos sob uma pressão muito grande, o humano é derrubado. Então, de repente esse irmão que era tão amável, simpático, e humilde, converte-se em uma pessoa rebelde e agressiva. Tudo aquilo que era artificial vai caindo e agora ele tem uma oportunidade de vestir-se do caráter de Cristo, da mansidão de Cristo. Nisto vemos como Deus usa a Satanás.

 

Nossa armadura

Então a provação, a batalha, vem. Mas, como podemos estar firmes? «Cingindo os vossos lombos com a verdade». Antes, as pessoas usavam túnicas, e para mover-se com liberdade em uma batalha, isto constituía uma dificuldade. Um soldado que lutava com túnica, esta lhe embaraçava nas pernas. Como pode lutar assim? Pois bem, tinha que cingir a túnica para poder lutar.

Esta é uma figura da verdade, pois recordem que o ataque de Satanás sempre vem à mente. São dardos mentirosos que procuram enganar, pensamentos malignos que procuram apoderar-se da nossa mente. Então, como podemos nos mover no meio deles e esquivar de todos os dardos que vêm de Satanás? Quando ordenamos a nossa mente com a verdade. Assim distinguimos rapidamente os golpes e nos movemos com agilidade, espiritualmente falando.

«Vesti-vos com a couraça da justiça». Isto é a mesma coisa que vínhamos falando sobre o sangue de Cristo. Esta justiça é a justiça que Cristo nos dá para vencer, porque Satanás trata de nos atacar por meio de acusações, como já vimos. Qual é a couraça que nos protege dos seus dardos de acusação? O fato da justiça de Cristo: «Justificados, pois pela fé, temos paz para com Deus».

 

Calçados os pés

«...e calçados os pés com a preparação do evangelho da paz». Usamos os pés para caminhar ou correr. Recordem, no meio de uma batalha, os pés são fundamentais. Os antigos soldados, diferente de hoje, dependiam dos seus pés. Os melhores soldados eram os mais velozes, por duas razões: para perseguir o inimigo, e para fugir. A velocidade era fundamental.

Em nosso caso, nós não temos que correr, mas estar firmes. Mas, os pés são fundamentais para nos mover. Então temos que calçar os pés com a preparação do evangelho da paz. E por que da paz? É que não travamos a batalha sozinhos, mas, em primeiro lugar, com o Senhor ao nosso lado. Mas, além disso, e em segundo lugar, travamos ela juntos. Mas, se estamos lutando entre nós, como podemos travar a batalha?

Satanás usa uma antiga máxima: ‘Divide para reinar’. Se ele consegue colocar uma cunha e dividir, consegue vencer; porque um exército dividido estará derrotado. Por isso, o preparativo do evangelho da paz implica que caminhemos juntos, nos movemos em uníssono, como o exército romano.

Não houve outro exército semelhante; uma verdadeira máquina de guerra. E uma das suas características (que é o que Paulo tem em mente) é que se movia em uníssono, como um só homem coordenado. Se estivessem lutando uns com os outros, cada um tomando o seu próprio caminho, não teriam vencido. Quando tinham que enfrentar os guerreiros bárbaros, muito mais fortes, mas que lutavam cada um por sua conta e não tinha nenhuma organização, os romanos venciam porque se moviam como um só homem. Assim temos que nos mover com o evangelho da paz, pois o evangelho nos reconciliou com Deus e nos reconciliou uns com os outros. Se estivermos zangados uns com outros, Satanás já tem uma maneira de nos vencer.

 

O escudo da fé

«Sobretudo», ou seja, por cima de tudo, «tomem o escudo da fé». Nós temos a couraça e a armadura, mas o que cobre a armadura e a rodeia é o escudo. O escudo romano era alto, e quando o soldado o punha diante, ficava tapado até os olhos; era como uma espécie de muro que o protegia de qualquer ataque. O que tornava os escudos romanos invencíveis era que quando vinha o ataque do inimigo, eles colocavam escudo com escudo e formavam uma barreira impenetrável. Então o exército inimigo se chocava contra uma parede de escudos, de tal maneira que era impossível penetrar através dessa muralha.

Assim é o escudo da fé. Porque a fé não é algo meramente individual. É toda a igreja que se firma na Palavra do Senhor, e que levanta assim uma muralha de escudos. Então, se um irmão se enfraquecer, Satanás vai atacá-lo, mas o irmão que está ao seu lado o firma. Estando unidos uns com os outros, o inimigo não pode passar através dessa barreira. Então, irmãos amados, o escudo da fé se levanta entre todos. Às vezes eu não tenho fé, mas o meu irmão tem fé; às vezes eu me debilito, mas meu irmão vem e me levanta. Isso é o que tornava o exército romano invencível. Por isso Paulo, que conhecia sobre o exército romano, sabia o que estava falando.

A igreja é como um exército imbatível, o exército de Deus, muito mais poderoso que qualquer exército humano. Mas, usando a figura do exército romano, Paulo notava que esse exército tinha coisas que outros não tinham e que o tornava invulnerável. Por exemplo, às vezes os romanos enfrentavam elefantes. Enfrentar um elefante é uma coisa difícil, pois é um animal gigante. Então eles cravavam os seus escudos na terra e os soldados de trás punham os seus escudos como teto e tomavam uma posição que chamavam a formação da tartaruga, contra a qual um elefante não podia fazer nada.

Isto é o escudo da fé: algo maravilhoso. Os romanos literalmente tapavam com os escudos o seu exército: alguns os punham na frente, outros por cima, outros por trás e ficavam como um muro e um teto impenetrável. Não havia nada que pudesse penetrar esse escudo. E isso faziam entre todos: esse era todo o segredo. Eu só, com um escudo, quantos flancos posso tapar? Agora, se fizermos um escudo entre todos, podemos tapar todos os flancos. Este é «o escudo da fé, com o qual podeis apagar todos os dardos inflamados do maligno».

 

O capacete e a espada

«Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito que é a Palavra de Deus». O capacete da salvação é o fato da obra completa de Cristo a nosso favor. Satanás sempre ataca a nossa mente; mas, se eu puser o capacete da salvação, ou seja, a obra completa de Cristo, e armo a minha mente com esse entendimento, Satanás nada pode contra mim, porque o que Cristo fez por nós cobre todos os flancos pelos quais Satanás pode vir.

«...a espada do Espírito que é a Palavra de Deus», é a nossa arma de ataque. Uma coisa interessante: os romanos, diferente dos outros povos, não usavam uma espada longa. Às vezes acreditamos que quanto maior for a espada maior é o seu poder. Mas os romanos perceberam que quando há uma luta corpo a corpo, a espada longa não serve para nada, porque para movê-la se requer um movimento amplo. Então, eles usavam a espada curta. A espada romana era mortal, porque era pequena, e podia matar com um movimento curto na batalha corpo a corpo.

Às vezes, amados irmãos, a batalha se torna mais intensa e terrível; o diabo nos ataca por todos os lados, e a confusão nos rodeia. Que recursos temos então? A palavra de Deus, porque a palavra de Deus abre passagem através das trevas, das mentiras e da escuridão, e em meio a todo esse entrave e confusão, ela limpa e abre caminho.

Um irmão está sendo acossado e oprimido pelo diabo, mas a palavra de Deus entra na mente do irmão e desembaraça a escuridão e ele encontra a vitória. E, se a palavra de Deus está constantemente entre nós, compartilhada, confessada e cantada, essa palavra desfaz qualquer ataque, qualquer artimanha, qualquer argumento do inimigo. Então esta é a nossa arma de ataque.

 

A oração como arma

E a arma final da igreja, «orando em todo o tempo…». Por quê? Porque, na oração, a igreja cumpre o seu ministério de trazer para a terra o reino de Deus. É por meio dela que Satanás é despojado e lançado fora, como vimos antes.

Em uma primeira parte estão as armas defensivas, para nos proteger do diabo. Mas, quando passamos ao ataque, o que usamos? A espada do Espírito e a oração. Com a oração passamos ao ataque, porque um exército não vence só se defendendo. Em algum momento temos que enfrentar ao exército inimigo e derrotá-lo.

Como se derrota ao diabo? Com a palavra de Deus e com a oração. Com a oração nós desalojamos ao diabo, trazemos para a terra a vontade de Deus, o reino de Deus, declaramos que na terra Jesus Cristo está reinando, e Satanás tem que se sujeitar.

Porque notem como diz: «...com toda a oração…». Etoda oração significa todo tipo de oração. Não é uma só oração, mas uma oração que cobre todas as circunstâncias, todas as situações. «...toda oração e súplica no Espírito», porque quando oramos não é somente nós que oramos; é o Espírito de Deus quem traz para o nosso coração a vontade de Deus.

Nós não sabemos orar como convém. No entanto, ao orarmos, o Espírito nos revela a sua vontade e começamos a declarar a vontade de Deus, e então, abre-se o caminho para o cumprimento do propósito de Deus. Quantas vezes ao orar, o Espírito nos encarrega com um entendimento ou uma palavra específica e é ele quem abre o caminho conosco. Então não oramos sozinhos; unimos a Deus no Espírito, para que a sua vontade seja feita na terra.

E, irmãos, nada pode ser mais poderoso no mundo do que quando a vontade humana se rende à vontade divina. Quando a vontade do homem se faz uma com a vontade de Deus, abre-se a comporta do céu e todo o poder de Deus e toda a autoridade de Deus desce para a terra, e diante disso, o que resta ao diabo? Somente fugir.

«...e velando nisso com toda a perseverança…». Consideremos o exemplo de Daniel. Não é uma coisa automática. Temos que orar, orar e orar até obter a resposta, até alcançar a vitória.

 

Orando por todos

Finalmente diz: «por todos os santos…». A igreja tem que cobrir a todos os santos; tem que preocupar-se de todos eles e pô-los todos juntos em sua oração. E Paulo diz no final: «...e por mim». Porque Paulo, como todos os apóstolos, é a ponta de lança da igreja; o homem que vai adiante (por assim dizer). A igreja é um exército, e ele é como os exploradores que são enviados ao território do inimigo. E Paulo não vai sozinho. Muitas vezes vai sozinho fisicamente, mas por trás dele está toda a igreja. Aqui está a igreja, avançando e indo conquistar o território inimigo.

Então, é tão importante que quando os irmãos são enviados a um território novo, onde antes o evangelho não estava, vão apoiados constantemente pela oração da igreja. Não há nada que faça tanto pela obra missionária como a oração da igreja por trás dessa missão. Paulo diz que: «...para quando eu abrir a minha boca, seja-me dado expressar com intrepidez o mistério de Cristo». Irmãos, porque a pregação é um mistério espiritual e não uma coisa meramente humana.

Quando alguém abre a sua boca para ministrar ao Senhor, para falar do Senhor, para anunciar o mistério de Deus, requer que o Espírito lhe entregue as palavras corretas e inspiradas. Não se trata simplesmente se sabe tudo de cor, e como um conferencista, começar a dar um discurso. Não é assim. Isto é algo que tem que ser inspirado pelo Espírito sempre, ao ponto de que as palavras nesse momento sejam as corretas, as que o Espírito dá para tal efeito.

Por isso, nunca uma mensagem vai ser igual a outra, porque o Espírito vai dar palavras adequadas para cada momento. Mas, quando ocorre isso? Quando a igreja ora tudo se abre.

Você esteve alguma vez em uma reunião em que ao falar a palavra sente uma atmosfera opressiva e carregada? Isto é uma obra de Satanás, pois há poderes espirituais tratando de impedir que o evangelho chegue aos corações. Mas, se a igreja ora, desperta todo esse ambiente espiritual e a palavra flui e toca os corações, e há um céu aberto.

Recordam quando o Senhor Jesus disse aos seus discípulos: «De agora em diante verão o céu aberto…»? É algo fundamental que, quando nós ministramos, haja um céu aberto sobre nós, e os anjos de Deus possam descer. «Os anjos de Deus sobem e descem sobre o Filho do Homem». Isto é o que disse Jesus, recordando a escada de Jacó. Sempre havia sobre Cristo um céu aberto. Ele era uma escada, uma ponte entre o céu e a terra, pelo qual desciam os anjos que trazem a vontade de Deus para a terra. Com a igreja, tem que ser igual; sobre a igreja sempre tem que haver um céu aberto, para que a autoridade de Deus e o reino de Deus desçam à terra.