Uma revista para todo o Corpo de Cristo · Nº 61

Servindo com dor

Gonzalo Sepúlveda

Leitura: Marcos 1:35-39.

O Senhor Jesus se alegrou em pregar e em fazer a vontade do Pai; mas esse gozo foi misturado com dor, com aflições muito grandes. Quem ama o Senhor e deseja servir-lhe, não pode esperar que tudo vá muito bem, no sentido de que não vamos ter aflições neste serviço. Os apóstolos as tiveram, e se consideraram privilegiados de padecer por causa do Senhor (Atos. 5:40-41).

Quando três mil se converteram em um só dia, foi sem dúvida uma grande alegria para os apóstolos. Eles compartilharam a Palavra; o Espírito Santo estava ali, fazendo a sua obra poderosamente. Mas bem rápido eles se viram envolvidos em fogos de perseguição, chegaram a ser açoitados e até a morrer por causa do nome do seu Senhor.

O relato que encontramos em Atos 9:15-16 registra as primeiras palavras dirigidas a Saulo de Tarso, que chegaria a ser o principal apóstolo dos gentios: «O Senhor lhe disse: Vê, porque instrumento escolhido me é este, para levar o meu nome na presença dos gentios, e de reis, e dos filhos de Israel; porque eu lhe mostrarei quanto lhe é necessário padecer por meu nome».

 

Gozo e aflição

E do próprio Paulo aprendemos em Colossenses 1:24: «Agora me regozijo no que padeço  por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo por seu corpo, que é a igreja». O «gozo e as aflições» constituem essa estranha mistura que caracteriza os verdadeiros servos do Senhor.

O Senhor está nos chamando para vir atrás dele, para nos fazer pescadores de homens. Ele está fazendo isso. Pregaremos, daremos testemunho dele. Será um gozo quando alguém recebe as nossas palavras e se converte. Há gozo nos céus quando um pecador se arrepende, e a igreja também se alegrará. Mas não esqueçamos que a semeadura é com lágrimas (Salmo 126:5-6). Nos consolamos sabendo que também chegará o regozijo da colheita.

Irmãos, pode parecer um pouco estranho a mensagem de hoje. Porque normalmente nós estimulamos os irmãos para estarem sempre contentes, com júbilo, com alegria, com regozijo. Mas não devemos esquecer que há aflições neste caminho, para que não nos pareça estranho quando, em algum momento, a igreja passe por aflições.

Não é estranho que a vida do evangelista inclua sofrimentos: «Irmãos, sede meus imitadores, e olhem para os que assim se conduzem segundo o exemplo que têm em nós. Porque por aí andam muitos, dos quais vos disse muitas vezes, e até agora vos digo chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; o fim dos quais será a perdição, cujo deus é o ventre, e cuja glória é a sua vergonha; que só pensam nas coisas terrenas» (Fp. 3:17-19).

Filipenses é a epístola do gozo e do regozijo. No entanto, no meio dela, Paulo fala chorando, porque há alguns que «são inimigos da cruz de Cristo».

Também encontramos a dor em Filipenses 3:10. Que capítulo é este, irmãos! Quantas vezes o compartilhamos e nos alegramos porque está cheio de tanta riqueza. Que palavra mais linda! Como Paulo estima como perda, todas as coisas, «para ganhar a Cristo». Em seguida acrescenta: «…a fim de o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a participação dos seus sofrimentos, chegando a ser semelhante a ele na sua morte...».

Que equilibrado era Paulo! Pois ele se enchia de Cristo; a sua paixão era o Senhor. Era um homem que sofria pela obra do Senhor. Tudo reunia em Cristo; tirava os irmãos das filosofias e das vãs sutilezas do homem, para atraí-los para Cristo, «porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade». «Cristo, sua vida», dizia ele, «...buscai as coisas de cima, onde Cristo está assentado à mão direita de Deus» (Col. 3:1). Mas em seguida diz também que quer lhe conhecer ainda mais e chegar a ser participante dos seus sofrimentos. E que se regozija no que padece e cumpre em sua carne «…o que falta das aflições de Cristo por seu corpo, que é a igreja» (Col. 1:24).

 

Nossas dores

Irmãos, por que nós sofremos? Por que há dores hoje na obra do Senhor? Nós não sabemos o que são as perseguições por causa do evangelho. Em nosso país até gozamos de plena liberdade para pregar em qualquer esquina, para cantar e proclamar o nome do Senhor. Mas, o que é participar dos sofrimentos do Senhor? Por que nós sofremos?

Não temos que procurar muito no Novo Testamento para encontrar resposta: «diante de Deus em Cristo falamos; e tudo, meus amados, é para a vossa edificação. Porque temo que quando chegar, não vos ache tais como quero, e eu seja achado de vós qual não quereis; que haja entre vós lutas, invejas, iras, divisões, maledicências, murmurações, soberbas, desordens...» (2ª Cor. 12:19-20).

Quanto tempo e energia o apóstolo tem que se ocupar nas duas epístolas aos Coríntios e na carta aos Gálatas! «Estou maravilhado, estou perplexo». «meus filhinhos, por quem torno a sofrer dores de parto, até que Cristo seja formado em vós» (Gál. 4:19).

Amados irmãos, por que os cristãos sofrem? Por que custa tanto às igrejas avançar? Por acaso muitos já não deveriam ser mestres? Quantos entre nós deveríamos ter maior medida de graça? Quantas de nossas pregações deveriam ser menos enroladas, mais claras, mais profundas, mais diretas, mais cheias de Cristo? Quantas de nossas intervenções, de nossas orações, de nossas administrações, não deveriam estar em um nível mais alto?

Irmãos amados, existe dor no coração do Senhor quando não nos entendemos, quando alguém que menos imaginamos nos defrauda. Estas são as aflições de Cristo por seu corpo, que é a igreja. As dores provêm do que acabamos de ler: lutas, invejas, iras, divisões, falações. Há irmãos que provocam as lutas, que não renunciam às iras, invejas e divisões. Falta de Cristo ainda; a carne ainda está presente.

 

Libertos de nós mesmos

Uma das verdades compartilhadas neste lugar é que nem Satanás pode impedir que o propósito de Deus se cumpra; porque o inimigo está vencido. No entanto, a única coisa que pode atrapalhar a obra de Deus, somos nós mesmos. Por isso oramos assim: ‘Senhor, livra-nos de nós mesmos’. Se algum irmão está fazendo essa oração, significa que está amadurecendo, que deu um passo adiante em sua fé. Oh! Se todos tivéssemos revelação do que nós somos também!

É uma grande alegria escutar os irmãos dar graças ao Pai «por haver revelado a seu Filho». Isto cantamos e o proclamamos no meio da assembléia dos santos. Obrigado pela revelação de Cristo que temos! Mas também necessitamos a outra parte – que tenhamos revelação de quão perigosos somos «em nós mesmos». E, a menos que Cristo viva em nós, somos um perigo para a obra do Senhor. Este é o trabalho do Senhor contigo e comigo. Ele quer nos levar de glória em glória, mas para isto tem que derrubar nossas próprias firmezas naturais.

 

Três grupos

A igreja, a obra, o serviço ao Senhor, costuma ter tropeços. Falando muito diretamente, por causa da experiência dos anos podem reconhecer nas igrejas a três grupos de irmãos:

1. Aquele que provoca as dores

2. Aquele que tropeça e se enfraquece por causa destas dores

3. Aquele que, sofrendo as ofensas, suporta e levanta quem as provocaram, ao mesmo tempo que devem suportar e animar a quem se enfraquece.

 Uma breve descrição destes três grupos nos ajudará a nos identificar com algum deles. Há alguns por cuja causa vem as tristezas. Porque não foram fiéis ao Senhor, não se consagraram o suficiente, foram duros de coração, eles provocam as dores, escandalizam, dividem, defraudam, desiludem. Não se trata de irmãos que desejem provocar dano aos seus irmãos ou ao testemunho do Senhor (o qual seria em extrema tristeza), antes, não conseguiram amadurecer ou foram vencidos por algum antigo problema ou fraqueza não resolvida.

O segundo grupo de irmãos se enfraquece por causa do que os primeiros provocaram, desestimulando-se. ‘Como pode acontecer isto na igreja irmão? Dizem alguns. Pelo que parece, estes são em maior quantidade. Então o inimigo desfruta, porque começa a obter seu objetivo de dividir, desanimar e até paralisar os filhos de Deus.

Então vai aparecer um terceiro grupo. Estes irmãos dobrarão os seus joelhos e levantarão um clamor: ‘Senhor, olhe o que aconteceu; tenha misericórdia; olhe como isto trouxe desanimo sobre os outros’. E têm que assumir a pesada tarefa de levantar quem fracassa e reanimar aos que se enfraquecem.

Em que grupo você está, irmão? O que o Espírito do Senhor, que tudo sabe lhe diz?

Permita o Senhor que todos nós aspiremos sermos vencedores, quer dizer, que possamos nos sobrepor diante de algo que possa desanimar os filhos de Deus. Porque os nossos olhos estão postos no Senhor. Que, enquanto muitos se enfraquecem por causa das aflições que outros provocam, seguimos batalhando, correndo a carreira e guardando a preciosa fé que recebemos.

Temos sido despertados por Deus para conhecer o seu bendito Filho! Reunimo-nos porque vimos o Senhor; nada impeça que louvemos o seu glorioso Nome. Permaneceremos unidos com aqueles com quem Deus nos uniu, porque cremos que o Senhor está fazendo algo grande, reunindo os seus escolhidos, salvando os pecadores e edificando a sua igreja.

O problema maior segue sendo a nossa carne, que com facilidade ouve os sussurros do inimigo, e tem afinidade pelas coisas terrestres, pelas coisas boas e também pelas mais depravadas da terra. Irmão, não se engane. Se alguém estiver firme, olhe que não caia. Se alguém se sentir firme, nem por isso se esqueça: até o mais espiritual entre nós, terá que batalhar contra a sua carne e tomar a sua cruz a cada dia, e morrer, para que a vida de Cristo se manifeste através dele.

Irmão, a igreja será tão gloriosa e será tão vitoriosa, e ganhará a muitos homens, na medida em que cada um de nós nos apaixonemos pelo Senhor e entendamos o propósito pelo qual fomos chamados. Mais que uma reunião linda, os nossos olhos devem estar postos no autor e consumador da nossa salvação.

Deus nos uniu um ao outro. Em primeiro lugar, o Pai nos uniu a seu Filho. Glória ao Senhor! E isso já nos tira do mundo e de nós mesmos. Somos de Jesus; fomos lavados pelo sangue precioso do Cordeiro. O Espírito Santo habita em nós. Cristo vive em nós! Nós temos um Senhor Poderoso; ele sustenta a sua Casa.

Cheios do Senhor, iremos pescar homens. Vamos primeiro após ele, para nos encher dele, para apaixonarmos mais e mais por ele, e receber e assimilar as suas palavras.

 

Atravessando o vale

Terminemos com esta palavra de consolo. Salmos 84:5-7. «Bem-aventurado o homem que tem em ti as suas forças...» (V. 5). O que lhes parece? Aqui não há inteligência humana que valha; a única coisa que importa é se as suas forças estão ou não no Senhor. «...em cujo coração estão os seus caminhos. Atravessando o vale de lágrimas o transforma em fonte, quando a chuva enche os reservatórios. Irão de poder em poder; verão a Deus em Sião». Que precioso! Que o Senhor permita, por seu Espírito, que esta palavra seja realidade em cada um de nós.

Irmão, não se conforme em assistir às reuniões da igreja; não se conforme em ser mais um. Você tem que ser um irmão, uma irmã, que tem as suas forças no Senhor. Que se possa dizer isto de ti: ‘Olhe a este irmão, como se vê a Cristo nele! Como avançou; é um homem que tem as suas forças no Senhor! Vê-se mais de Cristo nele…!’

Porque se em seu coração estão os caminhos do Senhor, da abundância do coração falará a sua boca. Aquele que murmura, está cheio de murmurações; aquele que fofoca, está cheio de amarguras. Que o nosso coração esteja cheio do Senhor, para que o nosso tema seja Cristo, o seu evangelho, a sua salvação!

E o que estes homens fazem? Atravessam o vale de lágrimas, quer dizer, não ficam parados no vale.

Irmão amado, temos que ser capazes de atravessar o vale de lágrimas. Temos chorado? É claro que temos chorado. Se fossemos contar a nossa história, (às vezes contamos apenas coisas lindas), talvez seja melhor contar os nossos fracassos. Não sei quem poderia dizer que nunca fracassou; mas, pela misericórdia do Senhor, estamos aprendendo a atravessar esses vales.

Ficaremos parados no vale, ou vamos atravessá-lo? Quem o atravessa? Aqueles que têm a sua força no Senhor, e em cujo coração estão os seus caminhos. Amém, irmãos, porque viemos às reuniões? Para nos encher do Senhor; vamos para a Escritura, para nos encher de Cristo; procuramos a comunhão, porque queremos mais e mais dele.

«Atravessando o vale de lágrimas o transforma em fonte...». O que significa isso? Não só que superamos o problema, mas o problema também serve para nos fazer amadurecer, para crescer, para tirar lições. Esse problema agora é uma fonte de ensino, para que não torne a ocorrer, para crescermos em experiência, como corpo, diante do Senhor. E Satanás perdeu. Cristo ganhou. Isso é o que o Senhor quer.

«… quando a chuva enche os reservatórios». A chuva vem de cima; isso já é sobrenatural. Isto mostra que não depende de nós, mas do Senhor, que se derrama sobre nós e nos enche do seu Espírito. E bebemos dele, e do que recebemos dele, isso damos aos outros.

«Irão de poder em poder; verão a Deus em Sião». Irmãos não esperem o dia da ressurreição para ver o Senhor. O vejamos hoje. Vejamos, este ano, como nos livra; vejamos o Senhor sempre diante de nós. Vejamos que propósito tem o Senhor com cada aflição; e se formos participantes das aflições na igreja, pensemos: «Estas são as aflições de Cristo». E ao participar delas nos associamos mais e mais com o nosso amado Salvador.

São os sofrimentos de Cristo, porque a igreja ainda não está madura. Participamos desses sofrimentos, dizendo: ‘Senhor, sara a tua igreja’. Você irá fazer essa oração? Irmãos, procuremos o Senhor. Que ele sare os nossos corações, para que nenhuma amargura se manifeste, mas que através das nossas vidas, se manifeste a vida poderosa do Senhor.

Síntese de uma mensagem compartilhada em Rucacura 2010.