Uma revista para todo cristão
Ano 9 · N° 54
Novembro - Dezembro 2008

Como assumir o legado e enfrentar os novos desafios.

A segunda geração

Christian Chen (USA)

Leituras: Esdras 1:1-3, 5; 2:1-2; 7:1, 6-7.

Estas são algumas importantes porções do livro de Esdras, e sabemos que, na história de Israel, isso ocorreu 500 ou 600 anos antes de Cristo. O povo de Israel tinha sido levado cativo para a Babilônia, e segundo a profecia de Jeremias, eles permaneceriam na Babilônia por setenta anos, e em seguida retornariam a Jerusalém.

Quando lemos Esdras capítulo 1 vemos que, depois de setenta anos, o espírito do povo de Israel foi despertado, e muitos quiseram retornar a Jerusalém e reconstruir o templo de Deus. Durante setenta anos, o templo esteve em ruínas, e Jerusalém era uma cidade vazia. Então, umas cinqüenta mil pessoas, sob a condução de Zorobabel, retornaram a Jerusalém, e edificaram primeiro o altar, sobre o fundamento original, e em seguida reconstruíram o templo. Este é o contexto quando lemos os capítulos 1, 2 e 3.

Quando Israel foi levado cativo para a Babilônia, Nabucodonosor sitiou a cidade de Jerusalém e a queimou, e no templo não deixou pedra sobre pedra. Este fato deu origem ao maravilhoso livro de Lamentações. Quando o rei Nabucodonosor tomou a cidade e lhe pôs fogo, segundo a tradição dos judeus, Jeremias estava escondido em algum lugar perto do Gólgota –onde mais tarde Jesus morreu na cruz– de onde podia ver a porta de Damasco. E quando toda a cidade estava em chamas, o fogo celestial estava nos ossos de Jeremias, e então o profeta chorou, e escreveu o livro de Lamentações. Jeremias chorou sobre Jerusalém.

Qual é o significado de Jerusalém? Na Bíblia, sempre Jerusalém fala do testemunho de Deus, porque dentro da cidade estava o templo, que representa a presença de Deus. A razão pela qual Jerusalém é uma cidade única é porque ali está o templo de Deus. A cidade de Jerusalém representa o testemunho de Deus, e o templo representa a presença de Deus. Então, o testemunho de Deus é derivado da presença de Deus. Este é um princípio muito importante.

Agora, no princípio, no tempo de Salomão, quando o templo e a cidade estavam nos dias de glória, a presença de Deus estava ali, o testemunho de Deus estava ali. Essa era a visão do povo de Israel. Mas, por desgraça, eles falharam para com Deus e adoraram aos ídolos, e Deus permitiu então que Nabucodonosor sitiasse a cidade, e fossem levados cativos para a Babilônia.

Do templo não ficou pedra sobre pedra. O povo de Israel foi como uma árvore desarraigada e levada a um lugar muito remoto: Babilônia. Conforme profetizou Jeremias, eles permaneceriam ali durante setenta anos, e depois retornariam a Jerusalém.

 

A igreja cativa na Babilônia

Por que falamos a respeito disto? Porque, se estudarmos a história da igreja, veremos claramente que a igreja também esteve cativa na Babilônia. Babilônia significa confusão. Quando os judeus estavam cativos e viviam na Babilônia, Jerusalém estava vazia, e a casa de Deus em ruínas. Foi o tempo mais trágico na história de Israel. O testemunho de Deus estava em desolação.

Mas Deus tinha lhes prometido que, depois de setenta anos, eles retornariam a Jerusalém. Então, o testemunho de Deus seria restaurado. E antes que isso ocorresse, a casa de Deus deveria ser reconstruída. Isto indica que devemos ter primeiro a presença de Deus, e em seguida teremos o testemunho.

Faz muitos anos atrás na história, a igreja esteve cativa na Babilônia. Mas hoje, onde está o testemunho? Onde está o testemunho coletivo? Primeiro, quando nos reunimos como igreja, experimentamos a presença de Deus, e à partir dessa presença, será manifestada a glória e a formosura de Cristo. Então o mundo saberá que há um candeeiro ali.

A igreja no começo era assim. Quando os santos se reúnem, essa é a casa de Deus; ali está a presença do Senhor, ali o nome de Jesus é exaltado. Naquele lugar, quando a glória e a formosura de Cristo se manifestam, as pessoas dirão: ‘Esse é o testemunho de Deus’. Por isso, em Apocalipse, vemos sete igrejas na Ásia Menor, representadas por sete candeeiros.

Quando a igreja está em uma condição de normalidade, deveria ser assim. Em cada localidade, em todo lugar, deveria ver-se o testemunho de Deus – o testemunho do Senhor em Taipei, em Tóquio, em Seul, em São Paulo, em Santiago, em todo lugar. Esse é o propósito de Deus. Mas se conhecermos a história da igreja, e observarmos ao redor o que ocorre em nossos dias, veremos que a igreja foi de novo levada cativa para a Babilônia.

Babilônia significa confusão. Hoje em dia as pessoas estão confundidas a respeito da verdade da igreja. Muitos dizem: ‘Deixei meu guarda-chuva na igreja’. Em sua mente, a igreja é um edifício. Isto é uma confusão. Na Bíblia, a igreja é o corpo de Cristo. Como pode deixar seu guarda-chuva no corpo? Alguns médicos incompetentes fazem isso: quando operam alguém, deixam umas tesouras em seu interior. Isso é possível. Mas é impossível que você possa deixar seu guarda-chuva no corpo de Cristo.

Agora sabemos por que muitos estão confundidos. As pessoas pensam que a igreja é uma instituição. Quando chega à igreja, você sabe como se comportar, tem um programa, sabe como cantar, sabe como orar, sabe que haverá uma mensagem. É um lugar de adoração, um tipo de instituição. Alguém vai compartilhar a Palavra, alguém muito espiritual vai ler a Bíblia para todos. Só tem que ir no domingo e escutar, e isso é tudo. Irmãos, tudo isso é confusão.

O que é a igreja? Sabemos que é o corpo de Cristo. Se for o corpo, cada membro deveria estar funcionando. Entretanto, por que hoje, quando olhamos ao redor, descobrimos que só há um ou dois membros ativos? De novo, isto é confusão. E muitas pessoas pensam que a igreja não é nada mais que uma congregação. Agora, em essência, isso é verdade. Mas, quando todos nos reunimos, devemos fazer algo. Se olharmos ao redor, vemos que há confusão. Outra vez, a igreja foi levada cativa para a Babilônia.

 

Movimentos de restauração

Quando a igreja esteve na Idade Escura, foi assim. Mas, graças a Deus, porque Martin Lutero, João Calvino, Zwinglio, aqueles grandes reformadores, realmente conduziram o povo de Deus de volta a Jerusalém. Não mais confusão. Nos dias anteriores à Reforma, as pessoas vendiam indulgências, não conheciam nem sequer a salvação, a Bíblia estava encadeada. Não é de surpreender que a condição da igreja naquele tempo fosse de absoluta confusão.

Graças a Deus, por meio de Martin Lutero e esses maravilhosos servos de Deus, a igreja foi conduzida de volta para Jerusalém, ao fundamento original. Eles reedificaram o altar e também edificaram a casa. Graças a Deus, dessa forma, vemos que alguns retornaram para Jerusalém. Agora estava novamente na presença do Senhor, e também no testemunho do Senhor.

Irmãos, na primeira geração, tudo estava muito bem, cheio de vida. Mas, na segunda geração, perdeu-se gradualmente a visão. Agora guardavam a tradição. Na primeira geração, a taça de bênção estava cheia; mas na segunda geração, só estava pela metade. Na terceira geração, quase toda a bênção se foi: somente ficou a taça.

Mas o Senhor levantou outras pessoas, houve outro avivamento, outra primeira geração. Outra vez retornaram a Jerusalém. Entretanto, quando a bênção se foi, a confusão chegou de novo. Assim, o povo estava outra vez na Babilônia. Então, houve outro despertar – surgiu o grande avivamento na Inglaterra.

Por meio de Martin Lutero, veio à justificação pela fé; por meio de John Wesley, a santificação pela fé. Grandes avivamentos. Graças ao Senhor por tudo aquilo. Outra vez, por meio da liderança de John Wesley, fomos conduzidos de volta para Jerusalém. Agora conhecemos muito melhor a vontade de Deus. Não só conhecemos a posição da justificação pela fé. Segundo essa posição, agora podemos viver uma vida de santificação. Agora produzimos os frutos da santificação.

Irmãos, graças ao Senhor, devemos muito hoje a Martin Lutero, a John Wesley e muitos outros. Graças a Deus, a primeira geração foi maravilhosa. A taça estava cheia. Mas quando chegamos à segunda geração, só vemos a metade da taça. E na terceira geração, toda a bênção já se foi.

Então, na Inglaterra, o Senhor levantou a John Nelson Darby e a George Müller. Graças a Deus, outra vez retornamos a Jerusalém.

A primeira geração durou somente vinte anos, de 1828 a 1848. Aquele foi um maravilhoso mover do Espírito Santo. Segundo um erudito chamado D.M. Panton, o movimento dos Irmãos foi muito maior que o da Reforma. A Reforma foi possível não só devido à obra do Espírito Santo, mas também com a ajuda dos príncipes e nobres alemães. Martin Lutero foi protegido pelas armas carnais. Por isso houve tanto êxito. Mas se vermos o que o Senhor fez na Inglaterra, este outro movimento foi maior; a sua influência é muito maior do que nós imaginamos.

Deus fez uma obra maravilhosa, e assim outra vez o povo retornou para Jerusalém. Os primeiros vinte anos foram anos de ouro, cheios de bênçãos. Os estudantes eram mestres dos demais.

Isto ocorreu na primeira geração. Mas na segunda geração, foi só pela metade, e já estavam guardando a tradição. No começo, há revelação direta de Deus. Tudo é vivo. Você percebe a presença de Deus, e tem o testemunho. Mas ao chegar à terceira geração, a taça está vazia, e agora vemos uma taça, duas taças, três taças. Hoje, se olhar ao seu redor, verá mais de mil taças.

No princípio, cada taça tinha razão para gloriar-se, porque estava cheia de bênção. Mas quando a presença de Deus se foi, o que eles tinham? Agora comparam as suas taças: ‘A minha taça é melhor que a sua’. Agora estamos todos divididos. Irmãos, só há um corpo de Cristo. No entanto, hoje, por que nós temos diferentes doutrinas, diferentes experiências; diferenças culturais, diferenças de classes, tudo isso nos divide.

Lembre do nosso Senhor Jesus naquele ambiente alto. Ele orou três vezes. A primeira vez orou por seus doze discípulos. «Pai ... que sejam um, como nós» (João 17:11). Em seguida, ele orou pela igreja, «...para que sejam um, assim como nós somos um» (João 17:22). Por quê? Nosso Senhor sabia muito bem. Ele é o Profeta; ele podia ver o futuro longínquo.

 

A solidão do Senhor

Antes de orar, o que o nosso Senhor disse aos seus discípulos? «Virá o dia em que todos serão espalhados; cada um retornará para a sua própria casa, e eu ficarei só». O que significa isso? Quando o nosso Senhor Jesus foi detido, os discípulos fugiram para salvar as suas vidas. Pensa que o Senhor estava se referindo somente ao momento do Getsemani? Se for assim, como explicar que cada um tinha ido para a sua própria casa?

Entre os doze discípulos, sabemos que só João tinha uma casa em Jerusalém. Por isso é que Jesus encarregou a sua mãe, Maria, a João. O que significa isso então? Significa que aquela profecia não só era aplicável ao primeiro século, não só aos doze discípulos. Segundo o nosso Senhor, a igreja de Deus estaria espalhada: ‘Cada um de vocês tem a sua própria casa. Nessa igreja se sente confortável, ou vai à outra igreja porque lá se sente mais confortável. Você tem a sua casa, ele tem a sua casa, cada um tem a sua casa. Mas eu fui deixado só’.

Irmãos, hoje, quando vemos tantas divisões, quando vemos todos os filhos de Deus espalhados, quem é o mais solitário? O Senhor disse ao povo de Israel quando chorou sobre Jerusalém: «A sua própria casa». Quando o Senhor era um adolescente, aos doze anos de idade, ele disse: «Eu não deveria estar na casa de meu Pai?».

Ele chamou o templo de Deus, a casa de seu Pai. Mais tarde, quando o Senhor chorou sobre Jerusalém, ele disse: «Jerusalém, Jerusalém…». Ele se lembrou do pranto de Jeremias, e o que disse? «Eu deixarei a sua casa deserta». Não disse «a casa de meu Pai». Irmãos, essa é a confusão.

Hoje em dia, quando estamos todos divididos e espalhados, perguntamo-nos: O Pai celestial responderá a oração do nosso Senhor: «Que eles sejam um, como nós somos um»?

Algumas vezes as nossas orações não são respondidas, e há alguma razão para isso. Mas, pensa que é impossível para o Pai celestial negar a súplica que nosso Senhor fez antes de ser crucificado. Ele orou por seus doze discípulos, e orou pela igreja em geral. Ele sabia que um dia todos estariam espalhados. ‘Você tem a sua taça; eu tenho outra taça. Vejam a minha taça’.

Irmão, o que está mostrando a outros? Uma taça vazia? Uma instituição? Nada mais que uma taça? Nada mais que uma organização? Nada mais que um programa? Nada mais que uma prática? ‘Irmãos e irmãs, venham a nossa casa. Venham aqui, vão lá’. Agora estão todos espalhados. Entretanto, o nosso Senhor Jesus disse: «Deixaram-me completamente sozinho».

Irmão e irmã, se seriamente ouvir o pranto do verdadeiro Jeremias, o seu coração terá que ser comovido. Desejará retornar para Jerusalém. Eu penso que isso é o que o Senhor está fazendo hoje em dia no Chile. Graças ao Senhor por esta terra. Este é o país mais comprido do mundo, e quando vamos ao Chile quase chegamos ao fim do mundo, porque está longe da plataforma do centro do mundo, e até longe do centro do mundo religioso, longe do centro do assim chamado mundo cristão.

 

Uma obra original do Espírito Santo

O Espírito Santo pode fazer uma obra única, não influenciada pelos missionários americanos ou europeus. Há muitos anos atrás, os jovens foram capazes de receber a direção do Espírito Santo, e foram tocados pelo Senhor. Como Zorobabel, como Josué, retornaram para Jerusalém, retornaram à vontade de Deus. Graças a Deus!

Que maravilhosa obra do Senhor: a reedificação do altar, a reconstrução do templo, e finalmente a reconstrução da cidade. No altar vemos a nossa consagração; na casa de Deus, encontramos a presença de Deus.

Agora, quando ouvimos a voz do pranto do nosso verdadeiro Profeta, e quando respondemos à chamada do nosso Mestre, e nos reunimos como um, o que significa isso? Significa que, de algum modo, Deus está respondendo a oração de nosso Senhor Jesus, ao menos em Temuco, ao menos em Santiago, ao menos em algum outro lugar. Podem notar? De alguma forma, aquela oração está sendo maravilhosamente cumprida.

O que vocês desejam, irmãos e irmãs? Naturalmente, vocês desejam a vontade de Deus, querem satisfazer o coração do nosso Senhor. O coração do Senhor está representado por Sua oração: «...para que sejam um, assim como nós somos um».

Esta é a primeira geração, cheia de bênção, cheia da água viva. Eu sempre digo a muitas pessoas nos Estados Unidos e em muitos outros lugares: ‘Se você for ao Chile, atravessar os Andes é uma experiência maravilhosa; mas se visitar os santos dali, achará uma coisa que é única, algo que é original’.

Toda obra do Espírito Santo deve ser algo original, deve ser algo novo. Não é algo que se tirou dos Estados Unidos, da Alemanha ou de outra parte. A obra neste lugar não é uma extensão da obra nos Estados Unidos; é a obra do Espírito Santo nesta localidade. É por isso que o testemunho foi preservado de uma forma maravilhosa. Mas é necessário esperar… esperar… e esperar, para ver se isto é só para a primeira geração.

 

Aprendendo as lições da história

Se leres a sua Bíblia ou a história da igreja, aprenderá todas as lições a partir da história. Temos uma primeira geração, cheia de bênçãos, de revelação. Mas quando chegamos à segunda geração, eles não vêem muito, mas ouviram muito. São sustentados pelos mais antigos.

Naquela geração, tudo tinha sido dirigido pelo Espírito Santo. Mas agora sabem como reunir-se, sabem como fazer isto ou aquilo. Como há muitos frutos, eles passam o método à geração mais jovem.

Quando a geração mais jovem conhece o método, ah, que maravilhoso! Ah, funciona! Então, eles têm o método, e já não é necessário ir mais à presença do Senhor. Já não vão receber revelação; a tradição é boa e suficiente.

A primeira geração tem revelação e bênção. A segunda tem tradição e tradição. Tudo chega a ser fácil; não precisa estudar a Bíblia, nem precisa orar. Já conhece a vontade de Deus. Qual é a vontade de Deus? ‘É o que os anciões me falaram, o que a primeira geração me contou’.

Irmãos vejam o perigo aqui. Na segunda geração, a taça está pela metade, e ao chegar à terceira geração, quase tudo é tradição; só está a taça. É por isso que na história da igreja de hoje há tantas taças – milhares de taças.

Agora, irmãos, vamos aprender algumas lições da história da igreja, de como este testemunho maravilhoso deve ser preservado. Saberemos que será preservado, se na primeira geração a taça está cheia e na segunda geração a taça permanece cheia. O que significa isso? Que na primeira geração, eles tinham um contato vivo com a fonte de vida. A geração mais jovem, novamente, tem que ter uma experiência de primeira mão.

Irmão, você que pertence à primeira geração, seja cuidadoso. A sua responsabilidade é trazer para a geração mais jovem à presença do Senhor. O Espírito Santo saberá como vos ensinar. A unção está neles. Nós não devemos usurpar o lugar do Espírito Santo. Só assim vamos manter cada geração com vida. Isso é muito importante.

 

Esdras e a segunda geração

Quando estudamos o livro de Esdras, e chegamos ao capítulo 7, vemos algo muito interessante. No capítulo 1, a primeira geração retornou para Jerusalém, conduzida por Zorobabel e Josué. Mas, em seguida, no capítulo 7, temos a geração mais jovem, a segunda geração, conduzida por Esdras. E Esdras era um escriba que tinha nascido na Babilônia.

Para Zorobabel, o retorno para Jerusalém tinha uma motivação. Ele tinha deixado Jerusalém quando era jovem, e ao retornar estava com cerca de noventa anos de idade. Tinha saudades da sua casa; seu lar era Jerusalém. Por comoção, desejava retornar. Mas Esdras tinha nascido na Babilônia. E todos os jovens nascidos na Babilônia tinham o seu futuro na Babilônia. Eles nunca tinham visto Jerusalém. Jerusalém era uma cidade vazia, uma cidade morta. Por outro lado, olhem para a Babilônia!

Esdras tinha nascido na Babilônia. Todo o seu brilhante futuro estava lá. No entanto, de alguma forma, Deus estava operando na Babilônia, no meio da confusão. Se você viver em Jerusalém, tudo está claro; se viver neste outro mundo, tudo é confuso. Esdras nasceu e cresceu naquele ambiente onde se adoravam ídolos, mas de alguma forma ele procurou a palavra de Deus, e tomou uma determinação: ele queria conhecer a palavra de Deus.

Esdras não tinha um motivo para ir para Jerusalém. No entanto, graças a Deus, a palavra de Deus o cativou, e Esdras chegou a ser o grande escriba. Por meio dele foram reunidos os 39 livros do Antigo Testamento. Quando chegamos ao tempo de Esdras, pela primeira vez temos a revelação do Antigo Testamento completa.

Irmãos, o Senhor pode fazer algo além da nossa imaginação. A primeira geração nunca pensou que o Espírito de Deus tinha um maravilhoso depósito ainda na Babilônia. E então este jovem, embora tivesse um futuro brilhante na Babilônia, voltou às costas a esse mundo e chegou a Jerusalém. O que significa isso? Que embora a segunda geração tivesse nascido com revelação de primeira mão, a segunda geração pode chegar a ser mais rica que a primeira.

Vocês, os pais, deveriam estar muito orgulhosos de que os seus filhos e filhas sejam muito melhores que vocês, mais bem-sucedidos e mais inteligentes que vocês. Esse é o êxito desta maravilhosa família. Não me diga que seus filhos têm só a metade de sua habilidade, e seus netos a metade da habilidade de seus filhos. Se for assim, sua família está indo cada vez mais para baixo. Como sabemos que uma família está indo para cima, para cima e para cima? Em que seus filhos são melhores que você, tem mais êxito que você, e você não têm ciúmes deles; você está contente com eles. E quando chega a ver os netos, muito melhores ainda. Assim deve ser uma família que foi abençoada por Deus.

O mesmo se aplica à família de Deus. Se o testemunho tiver sido preservado, temos que estudar o livro de Esdras. Não só a primeira geração, mas também a segunda geração.

Agora, para a primeira geração está a tarefa do fundamento. Eles retornam ao fundamento; edificam o altar e em seguida a casa. Por vinte anos, a sua obra é uma obra de fundação.

 

A contribuição de Esdras

Então, qual é a contribuição de Esdras? Ao estudar este livro cuidadosamente, vemos que ele teve duas contribuições. Primeiro, ele tentou embelezar o templo. Se traduzirmos isto para a linguagem do Novo Testamento, significa que a igreja deve crescer para a maturidade. Na primeira geração, o fundamento está seguro. Mas agora, na segunda geração, Esdras não construiu outro templo. Não. Ele está fazendo algo sobre o fundamento original; ele vai embelezar o templo. É a igreja como segunda geração.

Relembrem, a igreja não é só algo exato, algo ‘correto’ de acordo ao entendimento da verdade. Tudo isto é maravilhoso. Mas a igreja, o corpo de Cristo, deveria crescer. Então, o que significa embelezar o templo? Muito simples. Através da segunda geração, a igreja chega a ser muito mais bela, mais amadurecida, sem mancha, apresentada a Cristo como uma igreja gloriosa.

Por que Esdras retornou? Ele sabia, pela palavra profética do Antigo Testamento, que quando o Messias viesse, entraria no templo. Então, Jerusalém tinha que ser reedificada e o templo embelezado. Esdras retornou porque ele sabia que o Messias viria logo. Esdras retornou por amor ao Messias. Inconscientemente, ele retornou a Jerusalém, para que Jesus pudesse nascer em Belém. E no oitavo dia, Ele pudesse entrar no templo.

Irmãos e irmãs, vemo-lo agora? A geração mais jovem está, sem dúvida, mais próxima da volta do Senhor que a primeira, e supõe-se que eles devem receber a volta de seu Mestre. Naturalmente, a igreja tem que amadurecer. É claro que o templo tem que ser belo. Essa é a primeira contribuição.

A segunda contribuição de Esdras é a restauração da autoridade da palavra de Deus. Recordem que quando Esdras leu a Palavra, muitas pessoas choraram, foram tocadas pela Palavra. Então, a geração mais jovem deveria ter uma Palavra muito mais rica que a primeira geração.

Irmãos e irmãs, como pode a igreja ser gloriosa, sem mancha e sem ruga? A Bíblia diz: Pela Palavra, pela água da Palavra. Essa «palavra», no original grego, é Rhema, a palavra de vida.

Quando nossos jovens, nestes dias, estudam as Escrituras, eles estudam o Logos, estão aplicando o seu coração ao estudo do Logos. Eles contam com melhores condições que os da primeira geração, manejam o inglês, conhecem os computadores, sabem como utilizar livros de referências. Então, estão preparados para a Palavra. Mas também vivem na presença do Senhor, e o Espírito Santo falará outra vez a esta geração mais jovem, e aquele Logos se tornará então uma palavra viva. Esta é a contribuição de Esdras, esta é a contribuição da geração mais jovem.

 

A responsabilidade da primeira geração

Então, irmãos, se o Senhor for misericordioso conosco, se ele demorar a retornar, a nossa história não se reduzirá só aos primeiros capítulos do livro de Esdras, mas deveríamos alcançar, além disso, a experiência do capítulo 7 do livro de Esdras.

Agora, irmão, como sabe se o Senhor não levantará aqui mesmo a alguns como Esdras ou como Neemias? Portanto, não se desanimem. Mesmo que eles estivessem cativos na Babilônia, embora ali tudo fosse confusão, havia esperança. Pensem isto: Quando o povo de Israel estava cativo na Babilônia, esta era uma super potencia naquele época. Parecia impossível que algum dia eles pudessem ser libertados do poder da Babilônia. Mas ainda assim, Deus pôde fazer uma obra maravilhosa.

Então, a primeira geração tem uma grande responsabilidade. Não pode ficar sem fazer nada. Sua melhor contribuição é orar por eles.

Você conhece o poder da oração dos pais. Vocês conhecem muito bem a Santo Agostinho. Ele foi um dos maiores pecadores da história; mas chegou a ser também um dos grandes filósofos, um dos grandes pensadores do mundo.

Como se pode combinar um grande pensador com um grande pecador? Era um grande pecador, porque era um grande pensador. Ele era um jovem professor naquele tempo. Era muito promissor, mas estava longe de Deus. Sua mãe, Mônica, orava fervorosamente pela salvação de seu filho. Em si mesma, ela não podia imaginar que seu filho seria salvo. Mas, para a sua surpresa, por causa da sua oração, aquele grande pecador chegou a ser um dos maiores santos na história. Não importa em que condição estão os seus filhos, a sua oração é a contribuição mais importante.

Graças a Deus, você pertence à primeira geração, conheceu ao Senhor em uma experiência de primeira mão. A sua taça está cheia, mas, o que dizer da geração mais jovem? O que dizer dos próximos dez anos, se o Senhor se demorar? Irmãos, essa é a responsabilidade da primeira geração.

O segundo ponto: «Não provoqueis a ira aos vossos filhos…». Segundo a Bíblia, o que significa isso? Que não deveria frustrar ou debilitar sua ambição diante do Senhor. Que sua família seja uma atmosfera cheia de amor, estimulando-os. Os jovens podem facilmente ser estimulados. Quando são jovens, gostam de competir, querem ser o número 1, querem ser superiores. Assim são os jovens. Então, irmão, tenta ajudá-los, animá-los sempre a ser superiores e melhores no reino dos céus.

Finalmente, há uma lição muito importante que devemos aprender.

Ontem à noite empregamos três horas estudando o livro de Ester. É um drama. Naquele drama havia um homem chamado Amã. O rei tinha posto a Amã em uma posição elevada, por causa disso, todos deviam honrar a Amã. Mas havia também outro personagem chamado Mardoqueu. Como judeu, ele se negou a ajoelhar-se diante de Amã. Amã estava tão furioso, que não só queria matar a Mardoqueu, mas também a todo o povo ao qual este pertencia.

Conhecemos esse drama. Se Amã realmente tivesse obtido o seu objetivo, não só Mardoqueu teria morrido, mas também o seu povo teria sido exterminado. Naquele livro, vemos que no princípio Mardoqueu, o homem correto, estava fora, e Amã, o homem incorreto, estava dentro. Amã representa a nossa carne, e Mardoqueu representa o Espírito Santo.

O Espírito Santo tem que lutar contra a nossa carne; essa é a história do livro de Ester. Mas, escutem cuidadosamente: Aparentemente, Amã só tentava matar a Mardoqueu e o seu povo. Mas ao estudar com cuidado a cronologia do livro de Ester e do livro de Esdras, descobrimos que o drama de Ester ocorreu entre o retorno da primeira geração e o da segunda geração a Jerusalém, entre Zorobabel e Esdras.

Se Amã tivesse obtido o seu objetivo, quer dizer, se a nossa carne obtivesse o seu propósito, não só nós sofreríamos a perda, e não só o testemunho de Deus estaria em perigo. Mais ainda, se Amã obtivesse o seu objetivo, não haveria Esdras; teria sido impossível que Esdras nascesse na Babilônia. O inimigo de Deus sabia muito bem que embora ele não tivesse podido impedir que a primeira geração voltasse para Jerusalém, teria uma forma de deter a segunda geração.

Agora, a primeira geração estava cheia de bênçãos; a segunda teria só a metade. Somente quando a segunda geração, como Esdras, retornasse a Jerusalém, só então se manteria a mesma bênção em plenitude. Então, o inimigo trata de frustrar a obra de Deus – e isso conhecemos muito bem. Então, irmão e irmã, por essa razão, você que pertence à primeira geração, ore pelos mais jovens.

Toda vez que nosso Amã está no trono, toda vez que permitimos que a carne seja exaltada, o resultado é muito simples: é impossível o nascimento de Esdras. Não haverá segunda geração.

Vocês recordam que Amã era agageo, descendente do rei Agague. Quem é Agague? Recordem a história de Saul. Deus pediu a Saul que tratasse com os amalequitas, que os exterminassem, e que não tomasse nada deles, nem animais nem homens. Mas Saul desobedeceu a Deus; ele guardou os bois e as ovelhas, e disse: ‘Guardei isto para sacrificá-lo a Deus’. Por isso, Samuel lhe disse: «A obediência é melhor que os sacrifícios». E mais ainda, Saul não matou a Agague.

Na Bíblia, os amalequitas representam a carne. Se não matares a Agague, um dia o agageo vai matar a ti. Se hoje não matares a carne, um dia a carne não te dará nenhuma oportunidade: matar-te-á. E, finalmente, a carne exterminará à geração mais jovem. Irmãos, essa é a tragédia. Que o Senhor fale com os nossos corações.

Hoje não é o método, nem alguma doutrina, nem alguma luz a respeito da igreja. Irmãos, não. Tudo depende de que aprendamos nossa lição diante do Senhor. Nossa alma deve descobrir que o adversário, o inimigo, é este perverso Amã. Quando ao nosso espírito é revelado pelo Espírito Santo a verdadeira cara da nossa carne, então a nossa carne estará na cruz.

Quando isso ocorre, e também quando Mardoqueu está no trono, toda a igreja é controlada pelo Espírito Santo. Cristo é a nossa cabeça. O final maravilhoso do drama do livro de Ester é quando o homem correto está dentro e o homem errado está fora. Desta maneira, então, a geração mais jovem será preservada; todo o povo de Israel será preservado. Não se esqueçam.

De fato, aqui temos duas vidas. Segundo a lei do pecado e da morte, todo o povo de Israel deveria ser exterminado. Isso é certo. Mas, como vamos mudar toda a situação? A atitude de Ester é muito importante, quando ela diz: «Se perecer, que pereça». Ela sabia que se fosse à presença do rei, a conseqüência seria a morte. Há duas mortes aqui: a morte de Ester e a morte do povo –a morte do testemunho de Deus–, ou a morte da segunda geração, a morte de Esdras.

Para que Esdras pudesse ser preservado, Ester tem uma oração maravilhosa: «Se eu perecer, que pereça». Irmão, quando perder a sua vida, salvará a sua vida. Mas quando guardas a sua vida, perdê-la-á. Esta é uma lição que devemos aprender.

Agora falo especialmente com a geração mais antiga: Recordem, se querem preservar o testemunho de Deus, se de alguma forma a vida de Esdras deve ser preservada, andemos no Espírito. Tome a sua cruz, e siga ao Senhor. Não eleve a sua carne ao trono; esse não é o seu lugar. Nossa carne deve estar na cruz. Permitamos que Cristo seja tudo e em tudo; que o Espírito Santo tenha o controle total; que toda a igreja seja cheia do Espírito Santo. Então, uma coisa é certa: Quando perder a sua vida, ganhá-la-á. Perderás a sua vida, mas Esdras será maravilhosamente preservado.

Que o Senhor fale aos nossos corações.

(Mensagem ministrada em Temuco, em setembro de 2008).