O
livro de Gênesis contém ao menos dois relatos identificáveis
a respeito da criação. O primeiro, que compreende
o capítulo um, descreve o início de todas as coisas
no espaço de seis dias, mais um dia de repouso, com uma
narração maravilhosa da ação criadora
da Palavra, que cria, separa e ordena o universo, deixando o
seu rastro divino em cada intervenção com a expressão:
"E viu Deus que era bom".
O
homem no Éden
Ao
entrar no capítulo dois, a lente bíblica se aproxima
para nos narrar detalhes de como foi a criação
do homem e da mulher. A ação poderosa de Deus
se mostra paternal, afetiva, onde prima à relação.
Deus cria o homem do pó da terra, "carinhosamente"
sopra em suas narinas o fôlego de vida. Cena que tipifica
a de um pai e seu filho. Desta maneira, Adão pela primeira
vez abre os seus olhos, e sua retina retém o rosto de
Deus, seu Pai. Como diz o evangelho: "Adão, filho
de Deus" (Lucas 3:38).
O
homem Adão desperta para a vida e recebe a marca divina,
o apego necessário para subsistir, pois o sentido do
homem está sempre em Deus.
O
homem recebe cuidados e é introduzido em um jardim chamado
Éden, cujo significado é Delícia. Este
nome nos revela as condições nas quais Adão
foi acolhido por Deus. O lugar era aprazível, o próprio
Deus "passeava no frescor do dia
" (Gênesis
3:8).
Tudo
faz pensar que no Éden concentrava um ambiente harmonioso.
Deus tinha um especial interesse nesta terra. Nela se via o
bom da sua criação. Razão pela qual deu
ao homem um duplo propósito ao introduzi-lo nele, que
se registra explicitamente nas Escrituras. "Então
o Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim, para que
o cultivasse e o cuidasse" (Gênesis 2:15).
A
tarefa do homem era aplicar as suas forças para trabalhar
a terra e cuidar de cada uma das espécies que ali brotavam.
Espécies que lhe proporcionariam diversos e deliciosos
frutos, em especial da Árvore da Vida que estava no meio
do jardim. Também havia neste jardim outra árvore
importante, cujo fruto seria o conhecimento do bem e do mal.
A administração deste conhecimento era de suma
importância para Deus; por esta razão era-lhe necessário
guardá-lo em um lugar seguro e de sua confiança.
Para
a tarefa encomendada de lavrar a terra, Adão contava
com as riquezas do jardim, pois do mesmo brotava um rio que
regava toda a terra, ramificado em quatro braços, rio
que as Escrituras mais adiante chamam de rio de vida (Apocalipse
22:1). Ali vivia Adão, no meio de um clima prazeroso,
cuja missão era cultivar e cuidar do jardim de Deus.
Uma
ajudadora que lhe corresponda
Mais
tarde, Deus pensou: "Não é bom que o homem
esteja só, far-lhe-ei uma ajudadora idônea"
(Gênesis 2:18). Outra vez vemos um Deus preocupado com
o homem. A tarefa encomendada seria fatigante, requereria ajuda
e companhia. Então, meigamente planeja uma mulher, cuja
definição por natureza é "ajudadora
idônea". Literalmente, o texto hebreu traduz: uma
ajudadora que lhe corresponda.
Que
curioso: Deus viu que Adão necessitava uma correspondência,
alguém que co-responda as suas necessidades, com quem
obtenha mutualidade. Adão não encontrou esta correspondência
nos animais, nem ainda na mais delicada e inteligente das espécies.
Por isso Deus, do próprio Adão, tira Eva, fazendo-o
cair em um profundo sono. Ele não sabia que intrinsecamente
escondida em seus ossos, estava "ela", a quem a chama
ishshah, pois de ish foi tomada. Ela seria capaz de responder
às suas mais íntimas necessidades. Desta maneira,
ambos poderiam levar a cabo a missão encomendada por
Deus, de lavrar e cuidar do seu jardim.
Em
resumo, temos no capítulo 2 de Gênesis, um casal
criado no afeto de Deus Pai, com uma missão especial:
servir-lhe no jardim de sua delícia. Agora sim o homem
estaria em posição de trabalhar e cuidar do jardim
de Deus; a ajuda necessária tinha chegado para incorporar-se
ao trabalho supremo.
O
propósito de Deus
Mas,
o que Deus esperava do trabalho do homem? Que projeção
Deus tinha cultivando e cuidando do jardim? A resposta a encontramos
na similitude que existe entre os primeiros e os últimos
capítulos da Bíblia. Ao lê-los atentamente,
observamos que o que se iniciou rudimentarmente em Gênesis
com um pequeno jardim, termina em Apocalipse com uma grande
edificação, em cujo conteúdo existem os
mesmos elementos descritos em Gênesis.
Como
unimos estas duas realidades? A resposta a encontramos na Igreja,
pois ambas são uma figura dela. Salomão escreve
a respeito: "Jardim fechado é, OH irmã, esposa
minha; manancial fechado, fonte selada. Os teus renovos são
um pomar de romãs, com frutos excelentes, o cipreste
com o nardo. O nardo, e o açafrão, o cálamo,
e a canela, com toda a sorte de árvores de incenso, a
mirra e aloés, com todas as principais especiarias. És
a fonte dos jardins, poço das águas vivas, que
correm do Líbano! Levanta-te, vento norte, e vem tu,
vento sul; assopra no meu jardim, para que destilem os seus
aromas. Ah! entre o meu amado no jardim, e coma os seus frutos
excelentes! Já entrei no meu jardim, minha irmã,
minha esposa; colhi a minha mirra com a minha especiaria, comi
o meu favo com o meu mel, bebi o meu vinho com o meu leite;
comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados."
(Cantares 4:12-5:1).
A
mulher se identifica com um jardim onde o amado é convidado
a entrar para desfrutar dos seus frutos. Que cena mais preciosa.
Cristo, representado no marido, entra na terra fértil
de um jardim que representa à igreja. Efetivamente, concluímos
que o jardim é figura da igreja.
Mais
adiante, o apóstolo Paulo escrevendo à igreja
em Corinto, une a figura do jardim e do edifício em alusão
a seus destinatários: "Pois, quem é Paulo,
e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes,
e conforme o que o SENHOR deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou;
mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é
alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.
Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá
o seu galardão segundo o seu trabalho. Porque nós
somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus
e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que
me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento,
e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre
ele." (1ª Cor. 3:5-10).
As
palavras chaves neste texto são: "E vós sois
lavoura de Deus, edifício de Deus". Indubitavelmente,
Paulo identifica à igreja com uma terra fértil
onde se planta e rega a semente; terra que deve ser lavrada,
quer dizer trabalhada e cuidada, referência exata à
encomenda de Adão.
Mas
Paulo vai mais à frente, porque acrescenta o que chegará
a ser este jardim ao ser trabalhado e cuidado através
do tempo. Quer dizer, o Edifício de Deus, cujo fundamento
é Jesus Cristo. Figura que casa exatamente com a última
revelação do que chegará a ser a Igreja
descrita na visão do apóstolo João. "
Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro... e me mostrou
a grande cidade... que descia do céu, de Deus, tendo
a glória de Deus... tinha um muro alto e doze grandes
portas... E o muro da cidade tinha doze alicerces... A cidade
estava situada em quadrado, e o seu comprimento era igual a
sua largura... E mediu o seu muro... O material do seu muro
era... A rua da cidade era de ouro... Depois me mostrou um rio
puro de água da vida... No meio da rua da cidade e de
um e de outro lado do rio, estava a árvore da Vida, que
produz doze frutos... e as folhas da árvore eram para
a cura das nações." (Apoc. 21:9-22:5).
Em
conseqüência, o que começou com um jardim
terminará com uma grande cidade, cujo edifício
se encontra, inalterável, a árvore da Vida.
Nossa
participação
Qual
é a sua participação neste macro projeto
de Deus? A encomenda dada ao primeiro casal segue hoje sendo
a mesma. Nossa maior dedicação na vida é
trabalhar a terra de Deus, para que logo chegue a ser o edifício
onde ele depositará definitivamente a sua Glória.
A
igreja se cumpre com estas duas figuras. Lavoura e edifício,
jardim e cidade. De modo que o nosso esforço e sentido
de vida devem estar em edificar a Igreja de Jesus Cristo.
Trabalhem,
que a transformação da lavoura chegará
a ser a cidade edificada, cujo crescimento está nas mãos
daquele que prometeu: "Edificarei a minha Igreja".