Gales
é um lugar único no mundo. Mesmo fazendo parte
da Grã-Bretanha, os galeses se apressam em deixar claro
que eles não são ingleses, e o enfatizam falando
em seu próprio idioma em lugar de dizê-lo em inglês.
Gales
tem uma grande e especial historia espiritual, pois experimentou
grandes avivamentos, seguidos muitas vezes de profundas depressões
espirituais.
A
história registra alguns galeses notáveis, como
Christmas Evans, Daniel Rowland, William Williams, Howell Harris,
Evan Roberts
e David Martyn Lloyd-Jones, o nosso biografado.
Os
primeiros passos
David
Martyn Lloyd-Jones nasceu em 20 de dezembro de 1899, quando
terminava o século XIX. Deus tinha um plano para este
filho de Henry e Magdalene Lloyd-Jones, para trazer de novo
as chamas do avivamento que Evans, Roberts e outros tinham experimentado
antes. Alguns têm dito que Charles Spurgeon foi o último
puritano, mas o tempo demonstraria que deveriam ter esperado
ouvir o "Doutor" antes de fazer tal afirmação.
A
vida do jovem Martyn foi bastante tranqüila até
janeiro de 1910, quando tinha 11 anos. Até então
o seu pai tinha sido um homem de negócios muito bem-sucedido
em sua cidade natal de Llangeitho. Mas aquele ano ocorreu algo
que mudaria muitas coisas.
Na
escuridão da noite rompeu um fogo que quase custou as
vidas de Martyn e dos seus irmãos, que dormiam no piso
superior. Ainda que a família fosse salva, a maior parte
dos bens familiares se perdeu. Henry nunca se recuperou totalmente
do reverso financeiro. Quase por acidente, Martyn averiguou
pouco depois quão desesperada se tornou verdadeiramente
a sua situação.
Durante
os seus primeiros anos de escola, ele levou esta carga em seu
coração. Como resultado, tornou-se muito sério
para a sua idade, e muito decidido em ter êxito em sua
educação e em sua vida. "Foi como se ele
se apartasse muito do que é comum à juventude,
e isto lhe fez dizer uma vez: 'Eu nunca tive uma adolescência'",
afirma Ian Murray. Ainda que fervoroso de coração,
Lloyd-Jones sempre levaria com ele uma reputação
de austeridade e severidade.
Lloyd-Jones
foi criado no metodismo calvinista galês. O termo "metodismo
calvinista" pode parecer contraditório, porque os
metodistas são arminianos - que enfatizam o livre-arbítrio
do homem - e os calvinistas dão ênfase à
soberania de Deus em relação à salvação.
De alguma forma, o metodismo calvinista de Gales procurou o
melhor de ambas as posturas.
Entre
1914 e 1916, Lloyd-Jones foi para uma escola primária
de Londres, e em seguida estudou medicina. Realizou a sua prática
no influente Hospital de St. Bartholomew, e foi brilhantemente
bem-sucedido. Foi aprovado em seus exames tão cedo que
teve que esperar para graduar-se.
Em
1921 começou a trabalhar como assistente principal de
Sir Thomas Horder, um dos melhores médicos dessa época.
Com a idade de 26 anos, Martyn obteve o seu diploma de membro
do Colégio Médico e tinha uma carreira brilhante
e lucrativa diante dele. No entanto, Deus tinha planos para
que fosse médico de almas em lugar de corpos.
Conversão
e chamada para o ministério
Pouco
a pouco, através da leitura, a sua mente foi atraída
pelo evangelho de Cristo. Não teve nenhuma crise dramática
de conversão, mas chegou a um ponto em que se comprometeu
completamente com o evangelho.
Depois
disso, quando se sentava no consultório, escutando os
sintomas dos seus pacientes, compreendeu que aquilo que muitos
deles necessitavam não era a medicina ordinária,
mas o evangelho que ele tinha descoberto para si mesmo. Ele
poderia ocupar-se dos sintomas, mas a preocupação,
a tensão, as obsessões, só poderiam ser
tratadas pelo poder da conversão. Ele sentia cada vez
mais que a melhor forma de usar a sua vida e talentos era pregando
esse evangelho.
Martyn
se envolveu rapidamente na igreja da Capela da Charing Cross.
Entre outras coisas, ali conheceu a Bethan Philips. Bethan frequentava
ali com seus pais e dois irmãos. O seu pai era um oftalmologista
muito conhecido e Bethan estava a ponto de se formar como médico
no University College Hospital.
Depois
de vários anos de noivado, Martyn e Bethan se casaram,
em 1927. Depois da sua lua de mel em Torquay, instalaram-se
em seu primeiro lar, uma pequena casa paroquial da igreja de
Sansfield, em Aberavon, Gales, decididos a servir naquilo a
que se sentiam chamados.
O
surpreendente movimento do jovem especialista e sua esposa não
podiam deixar de atrair a atenção, e a imprensa
veio até eles. A senhora Lloyd-Jones respondeu a um jornalista
na porta de sua casa com a frase: 'Sem comentários' e
no dia seguinte ficou horrorizada ao ler o titular: '"O
meu marido é um homem maravilhoso", diz a senhora
Lloyd-Jones'. Deste matrimônio nasceram duas filhas, Elizabeth
e Ana.
Os
médicos locais não estavam muito contentes com
o recém-chegado. Pensavam que ele tinha vindo para mostrar
a sua superioridade e lhes tomar os seus pacientes.
Contrário
ao esperado, Martyn não pôde abandonar completamente
a sua carreira médica. No sul de Gales, a sua brilhante
habilidade de diagnóstico escasseava. Depois de uns anos
durante os quais foi deliberadamente ignorado pelos médicos
locais, foi chamado para um caso difícil. Ele soube exatamente
a natureza da obscura enfermidade da que o paciente aparentemente
se recuperaria, e em seguida morreria. O seu prognóstico
se confirmou exatamente, e o médico geral disse: 'Devo
me ajoelhar para pedir o seu perdão pelo que eu tenho
dito sobre você'. Depois disso foi difícil controlar
as chamadas médicas.
Um
escritor descreveu assim o bairro de Sansfield: "Contém
pelo menos uns 5.000 homens, mulheres e crianças que
vivem na maior parte na sordidez e na aglomeração".
Ou como alguém disse, era um lugar para "os jogadores,
as prostitutas e os publicanos".
Lloyd-Jones
não era um ministro recém saído de uma
universidade teológica liberal, que acomodasse a sua
mensagem à opinião contemporânea e às
manias da sua congregação. As palavras do seu
primeiro sermão inspiradas a partir de 2ª Timóteo
1:7 ilustram quais eram as suas convicções: "As
nossas ... igrejas estão lotadas com pessoas, as quais
na grande maioria tomam a Ceia de Senhor sem duvidar um momento,
mas... você por um instante pode imaginar que todas essas
pessoas crêem que Cristo morreu por elas? Bem, então,
você dirá: por que são membros da igreja;
por que eles fingem crer? A resposta é que eles têm
medo de serem honestos consigo mesmos... Eu me sentirei muito
mais envergonhado por toda a eternidade pelas ocasiões
nas que disse que eu cria em Cristo quando na realidade não
era assim...".
Isso
foi muito para alguns, que abandonaram a congregação.
Mas em lugar disso -lentamente no princípio- foi crescendo
o número dos que eram cativados pela verdade, a classe
operária de Gales do Sul. A mensagem os trouxe, e o poder
do Espírito Santo os converteu. Não havia súplicas
dramáticas, só um ministro jovem com a mensagem
clara da justiça de Deus e o seu amor, que conduziam
para um tema duro atrás de outro ao arrependimento e
à conversão.
A
igreja cresceu com a constante corrente de conversões.
Notórios bêbados se fizeram cristãos gloriosos,
e operários e mulheres vieram para as classes de Bíblia
que ele e a sua esposa dirigiam.
Para
aqueles que estão habituados a pregação
bíblica pode ser difícil entender a comoção
que causava este jovem pregador. Primeiro, ele não estava
treinado teológicamente (pelo menos não das formas
reconhecidas). Em lugar de pregar de uma cartilha ou alguma
outra forma pré-elaborada, Lloyd-Jones era acima de tudo
um pregador da Bíblia. Desde o começo, ele procurou
dar uma compreensão verso por verso da Palavra de Deus.
Talvez isto refletisse a sua própria vida pessoal que
incluía ler a Bíblia completa cada ano. Basta
ler as suas mensagens sobre Romanos ou sobre Efésios
para entender quão profundo era o seu afeto pela Palavra
e a sua obediência a ela própria.
Tampouco
há dúvida de que a sua leitura dos Puritanos teve
também uma profunda influência sobre ele. Os Puritanos
freqüentemente foram caricaturados, mas Lloyd-Jones os
leu realmente. Leu todo o Diretório Cristão de
Richard Baxter e os vários volumes de John Owen. Do seu
ponto de vista, os Puritanos diferiam de outras correntes organizadas
em vários pontos importantes.
Primeiro,
acentuavam a natureza espiritual do culto por sobre as formas
e rituais externos. Segundo, enfatizavam o corpo reunido de
Cristo por sobre o indivíduo, fazendo assim a disciplina
da igreja necessária e saudável para a causa de
Cristo. Finalmente, cria na aplicação direta da
Palavra para a alma de cada pessoa. O espírito do Puritanismo,
cria Lloyd-Jones, podia ser delineado de William Tyndale a John
Owen e a Charles Spurgeon. Era este espírito da centralidade
da Palavra de Deus o que conduzia o novo pregador no país
de Gales.
À
medida que as suas pregações eram conhecidas,
a presença de Lloyd-Jones era mais e mais solicitada.
Muitos outros pregadores começaram a encontrar nele um
modelo do que devia ser o ministério do púlpito.
Foi pregar no Canadá e América e freqüentemente
era convidado para falar perante várias assembléias
na Grã-Bretanha.
Foi
na noite fria e nebulosa de 28 de novembro de 1935 que Lloyd-Jones
pregou para uma assembléia em Albert Hall, em Londres.
Durante a sua mensagem, 'o Doutor' explicou os problemas bíblicos
que ele via em muitas das mais usadas formas de evangelização
e crescimento da igreja. Disse: "Podem muitos dos métodos
de evangelismo que se introduziram faz uns quarenta ou cinqüenta
anos realmente justificar-se pela Palavra de Deus? Quando leio
sobre a obra dos grandes evangelistas na Bíblia, vejo
que eles não estavam primeiro preocupados com os resultados;
eles se ocupavam em proclamar a palavra da verdade. Eles deixaram
o crescimento para Ele. Eles estavam interessados, sobretudo
em que as pessoas fossem postas face a face com a própria
verdade".
Chegada
a Westminster
Um
dos ouvintes naquela noite era um ancião de 72 anos,
G. Campbell Morgan, pastor da Capela de Westminster, possivelmente
o pregador com mais renome na época. Dizem que o ancião
pastor disse a Lloyd-Jones: 'Ninguém a não ser
você poderia ter me tirado em semelhante noite!'. Depois
de ouvir a Lloyd-Jones, Campbell Morgan quis tê-lo como
seu colega e sucessor em 1938. Mas não era tão
fácil, porque ele conduzia outras opções
tão atrativas como aquela. No final, prevaleceu o chamado
da Capela de Westminster, e a família Lloyd-Jones com
as suas filhas, Elizabeth e Ana estabeleceram-se definitivamente
em Londres em abril de 1939.
A
associação de Morgan e Lloyd-Jones foi um digno
exemplo de como os cristãos podem trabalhar juntos, mesmo
que difiram em aspectos secundários. G. Campbell Morgan
era um arminiano, e a sua exposição da Bíblia,
ainda que famosa, não se ocupou das grandes doutrinas
da Reforma. Martyn Lloyd-Jones, ao contrário, estava
na mesma tradição de Spurgeon, Whitefield, os
Puritanos e os Reformadores. Mas ambos os homens respeitaram
cada um as posições e talentos do outro, e a sua
associação, até que Campbell Morgan morreu,
foi pacífica e promoveu muito a obra de Cristo em Londres.
Quando
as nuvens de tormenta da Segunda guerra mundial já ameaçavam,
Lloyd-Jones assumiu o pastorado pleno da Capela de Westminster.
Durante
os anos de guerra, os habitantes de Londres suportaram por meses
as intermináveis incursões noturnas dos bombardeiros
alemães. Por causa da Capela de Westminster estar situada
muito próxima ao Palácio de Buckingham e outros
edifícios importantes do governo, permanecia em perigo
constante de ser destruída. A congregação
esteve em um estado constante de crise financeira e emocional.
No entanto, os trabalhos seguiram quase com normalidade. Em
1944, uma bomba voadora explodiu na Capela dos Guardas, a uns
poucos metros dali, cobrindo o pregador e a congregação
de um pó branco. Um membro da congregação
abriu os seus olhos depois do estampido, viu todos cobertos
de branco e creu que devia estar no céu!
Westminster
também estava aproximando-se rapidamente da sua própria
crise interior. Alguns da "velha guarda" não
queriam muito ao jovem calvinista que tinha compartilhado o
púlpito com o seu venerado Dr. Morgan. É um testemunho
do poder da Palavra de Deus e do espírito humilde de
Lloyd-Jones que a igreja não só sobreviveu, mas
também finalmente prosperou. Depois da guerra, a congregação
cresceu rapidamente. Em 1947 as galerias foram abertas e de
1948 até 1968 quando ele se retirou, havia uma média
de 1.500 espectadores aos domingos pela manhã e 2.000
à noite.
No
início de 1953, o estudo da Bíblia das sextas-feiras
a noite começou na Capela principal. Foi ali quando Lloyd-Jones
iniciou o seu monumental discurso sobre o livro de Romanos.
Assim como a obra de Martin Lutero sobre Romanos e Gálatas
influenciou os Puritanos posteriormente, este grande trabalho
sobre Romanos influenciou a atual geração de crentes.
Assim como ele começou, ele continuaria, ministrando
a sua pessoa com a Palavra de Deus em lugar de sua própria
personalidade.
Em
seu enfoque ao trabalho de púlpito, Lloyd-Jones trabalhava
firmemente através de um livro da Bíblia, tomando
um versículo ou parte de um versículo de uma vez,
mostrando o que ensinava, como isso se ajustava ao ensino sobre
o assunto em outra parte da Bíblia, como o ensino inteiro
era pertinente aos problemas do nosso próprio dia e como
a posição cristã contrastava com as idéias
atualmente em voga.
Ele
se punha a si mesmo em um segundo plano, e tentava mostrar para
a sua congregação a Palavra de Deus, permitindo
que a mensagem da Bíblia falasse por si mesma. As suas
pregações explicativas tinham o propósito
de permitir a Deus falar tão diretamente como era possível
aos seus ouvintes com o pleno peso da autoridade divina.
Outras
atividades
Apesar
das dificuldades da guerra, Lloyd-Jones esteve comprometido
na fundação de três instituições
importantes. A primeira foi a criação de uma Biblioteca
Evangélica de grandes obra cristãs, que logo superou
os 20.000 volumes. Desta forma, uma nova geração
de crentes se aproximou dos escritos de Bunyan, Baxter, Owens
e outros.
A
segunda instituição que Lloyd-Jones ajudou a criar
foi a Confraternidade de Westminster. O livro Os Puritanos,
é uma recopilação das mensagens anuais
de Lloyd-Jones para a venturosa congregação.
E
o terceiro, foi o apoio à Confraternidade Inter-universitária
(IVF), e que era a organizadora da Conferência Puritana
realizada a cada mês de dezembro. Havia um forte sentimento
pela necessidade de retornar aos fundamentos teológicos
da tradição protestante, ao período de
cem anos depois da Reforma, quando as suas implicações
teológicas tinham funcionado. Foram lidos e discutidos
documentos e Lloyd-Jones dirigiu as reuniões com habilidade
e autoridade.
A
casa editorial Banner of Truth e a revista Evangelical Magazine
nasceram, com a ajuda e estímulo de Martyn Lloyd-Jones,
que também apoiou poderosamente o trabalho da Biblioteca
Evangélica. A nível pastoral, ele conduziu reuniões
fraternais mensais de ministros desde o início dos anos
40, onde os pastores discutiam todos os problemas que enfrentavam
dentro das igrejas e em seu entorno. Aqui a sua sempre vasta
experiência, a sua profunda sabedoria e o seu sentido
comum ajudaram a muitos ministros jovens com dificuldades aparentemente
únicas e insolúveis.
No
verão de 1947 o doutor fez outra visita aos Estados Unidos
e foi recebido calorosamente. A pedido de Carl F. H. Henry,
ele falou na Universidade de Wheaton. Foram publicadas as cinco
mensagens que ele deu. Neles Lloyd-Jones compartilhou a sua
idéia sobre o tipo de pregação que o mundo
realmente necessita.
Controvérsias
Um
caráter forte e uma liderança forte não
podem evitar as controvérsias. Crendo, como ele fez,
no poder do Espírito Santo para convencer e converter,
ele se opôs profundamente à tradição
com a que tinha crescido à partir de Moody, de reuniões
públicas com música suave e apelações
emocionais para a conversão. Também se opôs
às uniões arbitrárias entre denominações
apoiadas no pragmatismo em lugar da doutrina. Nada causaria
mais problemas a Lloyd-Jones que a sua firme crença na
necessidade de uma adesão a certas doutrinas fundamentais.
No
final da Guerra, enquanto muitos se reuniam para ouvir o doutor,
outros líderes religiosos estavam começando a
ignorá-lo. Quando em 1946 uma publicação
reuniu os nomes dos "Gigantes do Púlpito",
incluindo homens como Weatherhead, o nome de Martyn Lloyd-Jones
foi ignorado.
No
princípio dos anos de 1950, muita coisa havia mudado
no cenário espiritual da Inglaterra. Em 1952, Arturo
W. Pink morreu em relativa obscuridade em uma ilha da Escócia.
Nesse momento poucos teriam imaginado que os seus escritos seriam
um dia publicados e lidos por crentes em todo mundo.
Em
torno de 1959, Lloyd-Jones observou que havia um ressurgimento
do interesse nas doutrinas da graça e os ensinos dos
puritanos na igreja. No entanto, aqueles nos quais se produzia
este retorno não eram da sua própria geração.
O interesse real estava entre os ministros e crentes mais jovens.
Esta nova geração de líderes do púlpito
viu as imutáveis verdades da palavra de Deus em uma forma
que a sua geração anterior não fez. Alguns
acusaram a Lloyd-Jones de ignorância teológica
no melhor dos casos, e no pior, de arrogância espiritual.
A verdade é que ele repreendia freqüentemente os
seus jovens aprendizes por transformar a discussão sobre
Calvinismo e Arminianismo em um ponto de controvérsia.
De fato, ele expressava publicamente a sua crença de
que A. W. Pink deveria ter tido um espírito mais a longo
prazo e conciliatório em seu esforço para retornar
as pessoas para a verdade.
A
controvérsia mais séria veio em suas relações
com a Igreja da Inglaterra. Martyn Lloyd-Jones era um firme
crente na unidade evangélica. Ele não cria que
as barreiras sectárias deviam separar a aqueles que tinham
uma verdadeira fé em comum. Mas quando o movimento ecumênico
liberal fez mais e mais concessões para as correntes
de opinião mundana, ele apoiou o êxodo daquelas
denominações.
Uma
das grandes paixões de Martyn Lloyd-Jones era o retorno
à combinação da doutrina dos Calvinistas
e o entusiasmo dos Metodistas. Nos anos 60, ele estava ansioso
porque a ênfase na sã doutrina recentemente recuperada
não se convertesse em uma árida dureza do doutrinário.
Para neutralizar este perigo, ele começou a dar ênfase
à importância da experiência. Ele falou muito
da necessidade do conhecimento experimental do Espírito
Santo, da convicção plena pelo Espírito,
e da verdade que Deus trata imediatamente e diretamente com
os seus filhos - freqüentemente ilustrando estas coisas
com a história da igreja.
Ao
contrário de grande parte do ensino que se levantaria
durante a Renovação Carismática dos anos
60, Lloyd-Jones enfatizou várias características
do verdadeiro avivamento. Primeiro, ele proclamou que Deus é
soberano e não há, portanto, nenhuma fórmula
para o avivamento. Deus se move de formas diferentes em tempos
diferentes. Em segundo lugar, insistiu em que a igreja necessitava
do avivamento, não para que mais pessoas entrassem na
igreja, mas para que Deus fosse devolvido para o Seu lugar justo
nas vidas e pensamentos das pessoas.
Tal
como no problema de unidade da igreja, as suas idéias
sobre o que agora se conhece como 'psicologia cristã'
provaram ser profundas e proféticas. Ele não estava
absolutamente impressionado com o matrimônio entre a pregação
bíblica e a psicologia secular.
Há
uma coleção de sermões sobre o assunto
em "Depressão Espiritual: Causas e Curas",
publicada pela primeira vez em 1965. A obra aponta para a suficiência
de Cristo na vida do crente e conclui com estas palavras: "Eu
faço o máximo que posso, mas Ele controla a provisão
e o poder, Ele o infunde. Ele é o médico celestial
e Ele conhece cada variação em minha condição.
Ele vê a minha estrutura. Ele sente o meu pulso. Ele conhece...
tudo. 'Assim é', diz Paulo, 'e, por conseguinte tudo
posso através daquele que constantemente está
me infundindo força'
Ele nos conhece melhor do
que nós mesmos nos conhecemos, e segundo a nossa necessidade,
assim será a sua provisão".
No
início dos anos 60, o doutor iniciou uma série
de mensagens sobre o evangelho de João. A sua intenção
neles não foi uma exposição verso a verso
como era habitual, mas uma busca do significado essencial da
certeza e a plenitude do Espírito Santo.
No
início de 1968, em seu 68° ano, Lloyd-Jones teve
uma operação importante e, ainda que se recuperasse
por completo, decidiu que depois de 30 anos em Westminster tinha
chegado o tempo de retirar-se como ministro.
O
seu ministério tinha sido muito abençoado por
Deus. Tinha havido um ribeiro constante de conversões,
muito notáveis e, sobretudo, para uma ampla variedade
de pessoas de toda classe social tinha lhes ensinado a largura
e a profundidade da doutrina cristã. Na Capela tinha
soldados dos quartéis próximos da Wellington Barracks,
trabalhadores dos hotéis e restaurantes do oeste, enfermeiras
dos grandes hospitais, atores e atrizes de teatros do oeste-extremo,
serventes civis menores e maiores de Whitehall, e desempregados
crônicos provenientes da hospedaria do Exército
da Salvação.
A
Capela sempre estava cheia de estudantes, especialmente estrangeiros,
entre os quais estava o agora Presidente Moi do Quênia.
A Igreja chinesa assistia de manhã e muitos Irmãos
de Plymouth pela tarde. Quando os Irmãos Exclusivos se
dividiram, muitos dos que viviam em Londres vieram para a Capela
de Westminster. E havia, é obvio, muitos profissionais,
mestres, advogados, contadores e possivelmente alguns daqueles
que tinham alguma deficiência mental.
Gente
de todo tipo e condição vinha para vê-lo
depois na sacristia, onde ele passaria horas pacientemente escutando
e sabiamente aconselhando. Um deles escreveu: 'Eu tenho uma
lembrança encantadora de ir para ele em uma necessidade
pessoal profunda, ainda muito assustado por causa da sua maneira
pública formidável. A sua tranqüilidade e
atrativa bondade, unidas a um conselho simples e reto, ganharam
o meu coração. A sua inteligência e brilhantismo
como pregador lhe fazem digno de respeito e admiração;
esse outro lado mais manso, que conheci em privado, faz alguém
lhe amar'.
Em
1977 ele falou sobre a diferença no método de
Paulo de ajudar os cristãos e aquilo que se estava popularizando
com o nome de aconselhamento. A sua convicção
era de que muito do que acontecia com o psicológico era
realmente espiritual. Lloyd-Jones viu o púlpito como
o enfoque do verdadeiro 'Cristian counselling'. Isso não
significa que ele estivesse desinteressado de sua gente e dos
seus problemas. Nada poderia estar mais longe daquilo. Ele ocupava
muitas horas no conselho pessoal e na direção
bíblica.
Atividades
finais
Nos
12 anos posteriores da sua aposentadoria ele continuou com a
Conferência de Westminster e dedicou muito tempo para
dar conselhos a outros ministros, responder cartas e falar longamente
por telefone. Livre da rígida rotina dos domingos em
Westminster, ele pôde então dedicar-se aos compromissos
externos que ele tinha tomado como ministro, sobretudo ocupando
os finais de semana em causas pequenas e remotas que ele amava
reanimar. Ele viajou novamente para a Europa e os Estados Unidos,
mas recusou novos e reiterados convites para outros países.
Lloyd-Jones
tinha um lar muito feliz que estava aberto a cada Natal para
os membros da igreja que não tinham outro lugar para
onde ir. Em sua aposentadoria ele estava acostumado a incitar
os seus netos maiores com algum argumento. Eles eram como cachorrinhos
jovens indo para um leão velho, atrevendo-se onde ninguém
mais se atreveria, voltando para trás por um grunhido,
mas tornando a saltar em seguida.
Em
1979, a enfermidade retornou, e teve que cancelar todos os seus
compromissos. Ele ainda desejava pregar novamente. Ele tinha
visto muitos homens seguir depois de que eles deveriam ter parado.
Na primavera de 1980 pôde começar de novo, mas
uma visita ao Hospital em maio revelou que a sua enfermidade
exigia um tratamento mais austero que lhe impediria de pregar.
Entre as exaustivas sessões no hospital, que ele enfrentou
com valentia e dignidade, continuou trabalhando em seus manuscritos
e dando conselho para ministros, mas no Natal ele estava muito
fraco para isto. No final, no entanto, pôde passar tempo
com o seu biógrafo (o seu ajudante anterior, Ian Murray).
No
final de fevereiro de 1981, com grande paz e confiada esperança,
ele creu que a sua obra terrestre estava completada. Disse para
a sua família imediata: 'Não orem por cura, não
procurem me reter de ir para a glória'.
Em
1 de março, o Dia do Senhor, ele passou para a glória
da qual tão freqüentemente tinha pregado, para encontrar-se
com O Salvador ao qual tinha proclamado tão fielmente.