Uma revista para todo cristão
Ano 9 · Nº 51
Maio - Junho 2008

Análise de uma experiência chave na vida cristã.

A bênção da traição

H. L. Roush

A neve caía silenciosamente, como plumas à deriva, e logo cobriu de branco a terra cinzenta e suja. Tinha nevado toda a noite e eu olhava da janela do meu estúdio, com o coração quente e repousado, a primeira nevada de inverno. Era o dia seguinte do dia de Ações de Graças, e a nevada me deu o pretexto que eu necessitava para reduzir a velocidade de minha atarefada agenda, e ter um tempo necessário para desfrutar com a minha família.

Aquele ano, como sempre, tínhamos muitas razões para estarmos agradecidos. A mão do Senhor tinha sido tão evidente sobre as nossas vidas e ministério que só podíamos nos inclinar diante dEle com os corações agradecidos, reconhecendo em silêncio que Ele tinha sido o autor de tudo isso.

A preciosa calma dessa manhã foi interrompida de repente pelo som insistente do telefone. Foi o primeiro elo de uma pesada cadeia que logo ia envolver-me em desespero e dor; porque a voz no outro lado da linha me informou que um grande problema tinha entrado em minha vida. Originaram-se circunstâncias que punham em perigo todo o meu ministério, assim como a ruína eventual de minha vida pessoal e familiar.

É assombroso ver quão rapidamente o mundo inteiro parece mudar quando mudam as nossas circunstâncias. Na verdade, a beleza está no olho de quem olha, porque a branca quietude da neve agora me parecia ser só a hipocrisia que cobria os atos duros e cruéis que se ocultavam sob a sua capa enganosa. A alegria das Ações de Graças com a minha família desapareceu rapidamente sob a sombra desta dor presente, e me afundei em minha cadeira tremendo, estremecido. Sérias acusações foram lançadas contra mim por um acusador desconhecido, e Deus sabia que eu era uma vítima inocente das circunstâncias retorcidas. Só pude clamar: "OH, Pai, quem pôde fazer isto?". A minha oração teve resposta dentro de um par de dias, e com ela veio a dor mais profunda de todas, porque descobri que o meu traidor era um amigo que dizia me amar.

Durante dois dias permaneci atônito, no silêncio e no desespero mais tenebroso. O problema que eu enfrentava era extremamente grave, mas ia além do que eu me sentia capaz de suportar, pelo fato incrível de que aquele que havia trazido este pesar para a minha vida era um que partia o pão comigo ao redor da mesa do Senhor, e freqüentemente falava do seu amor por mim.

As preciosas verdades que aprendi através dessa experiência são o tema deste escrito. As nossas experiências "pessoais" não são tão pessoais como talvez imaginamos - o que acontece em nossas vidas como membros do Corpo de Cristo tem o propósito de trazer consolo e ajuda para outros (2ª Cor. 1). Acontece-nos porque é a herança mútua dos membros do Corpo de Cristo compartilhar os sofrimentos da Cabeça (Flp. 1:29; Col. 1:24).

A certeza da traição

A dura experiência de ser traído por nossos amigos e amados deve ocorrer forçosamente na vida de cada crente. Baseio esta observação em muitas experiências sobre a vida cristã, além do claro e simples ensino da Palavra de Deus. É um descobrimento interessante aprender que a palavra "traição" e suas formas só se usam com respeito à traição de Jesus por Judas, excetuando uma só menção em Lucas 21:16. Nesta passagem, que é profética, usa-se para representar o fim do tempo da graça e é indicada como uma das marcas de identificação, ou sinais, da vinda do Senhor Jesus Cristo. O versículo simplesmente diz: "Vocês serão traídos até por seus pais, irmãos, parentes e amigos; e a alguns de vós serão entregues à morte" (NVI).

Esta é uma coisa terrível de descobrir, mas é a promessa clara da palavra de Cristo. O tempo da graça será encerrado com um tempo de engano religioso mundial. Será a hora da grande apostasia - tempos perigosos nos quais a verdade será resistida pela falsidade e o engano (estudem as palavras de Paulo em 2ª Timóteo 3:1-17).

Eu creio que cada homem em quem Jesus habita, terão nestes terríveis últimos tempos o seu próprio Judas pessoal; porque na era da apostasia se destacará o irmão falso. Do mesmo modo, a traição é a experiência comum de cada homem a quem Deus usou alguma vez para a Sua glória.

Nosso versículo em Lucas 21:16 diz que a traição vem da parte de "pais, e irmãos, parentes e amigos". Espantoso, mas real, e por uma boa razão. Primeiro, os nossos inimigos não podem nos trair. Eles não estão próximos o bastante dos nossos corações. Não somos suficientemente íntimos com eles. É com os nossos irmãos e amigos que abrimos o nosso coração. Os nossos inimigos não podem nos ferir; são os nossos amigos que nos ferem. Assim, o salmista disse no Salmo 55:12-14: "Porque não me afrontou um inimigo, o qual teria suportado; nem se elevou contra mim o que me aborrecia, porque me teria escondido dele; mas tu, homem, meu íntimo, meu guia, e meu familiar; que juntos comunicávamos docemente os segredos, e andávamos em amizade na casa de Deus".

Assim que toda a história da Bíblia ecoa do fato da traição para as mãos dos nossos amigos. Abel foi traído por seu único irmão; Esaú por seu irmão gêmeo; Isaque por seu filho; Urías por seu rei em quem confiava e por sua esposa encantadora; Jesus por seu discípulo consagrado; Paulo por "falsos irmãos". Não precisamos seguir, porque esta solene verdade permanece: freqüentemente são os nossos amigos os que se levantam contra nós, e assim se multiplicam as nossas aflições na vida cristã. Em geral, eu fui tratado com muita mais bondade por inconversos do que por irmãos declarados; e tenho experimentado freqüentemente a ferida esmagadora da traição pelas mãos daqueles que professavam me amar. Este paradoxo pode nos perturbar e nos entristecer, mas a sabedoria e o amor de Deus se vêem em tudo isso, na serena verdade de que ele não libertou nem o seu próprio Filho a este respeito, mas o enviou para a morte por mão de um amigo. Que Deus instrua os nossos corações por meio desta preciosa lição!

O método da traição

O método sempre será o mesmo. Primeiro, os nossos traidores escolherão cuidadosamente a hora. No caso de Jesus, ele foi traído no momento exato da sua vida em que ele tinha a maior necessidade de companhia humana (Marcos 14:37); na hora da sua maior necessidade; e quando estava a um passo de sua maior obra (o Calvário). Anima-te, querido leitor, se a traição tiver sido a sua recente experiência. Deve haver grandes coisas diante para ti, de outro modo Satanás não o açoitaria neste momento.

Os nossos traidores também conhecem o lugar onde nos atacar. João 18:2 mostra que Judas sabia o lugar secreto onde Jesus se retirava. Eles nos observam e conhecem o nosso lugar de agonia e oração; e assim, tendo a vantagem da intimidade, nos golpeiam com violência no lugar oportuno.

A sua forma de traição sempre será o beijo. Eles respiram o nosso amor, de modo que podem nos golpear no momento mais inesperado. A palavra de Deus diz: "Até o homem da minha paz, em quem eu confiava, que do meu pão comia, levantou contra mim o calcanhar" (Sal. 41:9). Há uma figura preciosa neste verso. O significado original representa um cavalo conhecido e confiável que cruelmente dá coices em um amigo desprevenido e confiado.

Vitória sobre o traidor

O que aconteceu com Judas? A história registra o seu trágico final, mas encoberto na aparente vaguidade do breve relato de sua morte há um drama que tem permanecido por muito tempo sem revelação.

Para vê-lo em sua perspectiva real, devemos olhar brevemente para a relação entre Jesus e Judas. Jesus escolheu a Judas e orou por ele (Luc. 6:12-13), como o fez por Jerusalém que o rejeitou e por aqueles que o crucificaram. Jesus desejava que Judas comesse a última Páscoa com ele (Luc. 23: 14-15), amou-o e lhe ofereceu o lugar de amor e comunhão à mesa no aposento da Páscoa (João 13:26). Jesus lavou os seus pés (João 13:5) e, daí, expressou-lhe um amor que era indubitavelmente verdadeiro e digno do Filho de Deus. Jesus deu a Judas total reconhecimento e nunca o delatou como o seu futuro traidor, mas se referia a ele como o seu "amigo". A meditação cuidadosa sobre os eventos que levaram a traição revelará que Jesus ofereceu a Judas toda mostra de amor e não esteve disposto a repudiá-lo nem mesmo no momento do seu crime.

Jesus ensinou em Mateus 5:44 que devemos amar os nossos inimigos e ele praticou tudo o que pregou. Ainda que de antemão conhecesse perfeitamente o mal que Judas faria contra ele, mostrou-lhe o seu amor sincero em toda forma concebível.

Em Marcos 14:45 Judas acordou trair Jesus com um beijo. Há duas palavras no original para "beijo". Uma significa o beijo de amizade e outra significa beijar fervorosamente, ou o beijo do amor verdadeiro. Agora, vamos ao Getsemani e vejamos a cena final. Judas vem com a multidão armada com paus e espadas para fazer Jesus prisioneiro. Judas saúda o Senhor e o beija; mas, de acordo com o original, não é com o beijo de amizade como tinha acordado, mas com o beijo de amor genuíno! Só a eternidade revelará o que passou nesse momento pelo coração de Judas. Possivelmente, à luz flutuante das tochas, Judas viu no rosto de Jesus a assustadora verdade de que apesar da sua traição, Jesus ainda o amava, porque ele chamou a Judas, de "amigo".

Jesus foi aprisionado e Judas chorou por ter traído sangue inocente; tinha aprendido que o amor de Jesus para ele era real. O seu coração deve ter experimentado um golpe demolidor, e agora ele não pode racionalizar a sua loucura ou justificar o seu ato detestável. Tenta desfazer o que tinha feito devolvendo o dinheiro, mas é rejeitado com desprezo por seus ímpios amigos, pois nem mesmo eles querem relacionar-se agora com Judas. O seu ganho momentâneo se torna pó em suas mãos -o futuro é negro sem a fraternidade de Jesus e dos seus amigos- ele perdeu para sempre aquele ministério que Jesus lhe tinha dado (Atos 1:20); a sua habitação estará agora desolada, outro homem tomará a sua coroa, e Judas irá para o seu próprio lugar em uma morte solitária efetuada por sua própria mão.

Judas morreu por sua própria mão? Parece-me evidente que Judas morreu sob a força do irresistível amor de Cristo. Judas destruiu a si mesmo porque ele já não podia viver mais consigo próprio ou com outros, e tudo isto foi operado pelo verdadeiro amor do Senhor Jesus Cristo. Parece-me que as palavras de Romanos 12:20-21 são repentinamente claras: "Assim, se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; pois fazendo isto, brasas de fogo amontoará sobre a sua cabeça. Não sejas vencido do mau, mas vence com o bem o mal".

Não se cumprem assim aquelas palavras que afirmam: "Porque as armas da nossa milícia não são carnais ..." (2ª Coríntios 10:4), e "o amor nunca acaba" (1ª Cor. 13:8)? Sem dúvida, precisamos afirmar desesperadamente em nossos corações que a Palavra de Deus é a verdade. Nós só damos mais razão ao ódio dos nossos inimigos e motivo para a traição dos nossos amigos quando lhes devolvemos mal por mal. O amor que é verdadeiro e não muda mesmo frente a uma má obra contra ele, finalmente conduzirá o seu traidor às solitárias ladeiras do Campo de Sangue (Acéldama - At. 1:19) para morrer.

A necessidade da traição

Há outra consideração no ato da traição de Judas. Ele foi escolhido pelo Senhor Jesus Cristo, ainda que o Senhor soubesse de antemão que Judas o trairia (João 6:64). Em minha própria experiência pessoal de traição pelas mãos de um amigo, o amado Senhor me mostrou esta verdade preciosa. Enquanto estava no fogo desta provação, fui deitar em uma noite pensando naquele que pretendia me amar e tinha usado a sua profissão para me pôr nas mãos dos meus inimigos. De noite despertei em oração achando a resposta para este pensamento: O Senhor Jesus escolheu os seus próprios amigos, e sabendo de antemão a traição de Judas, escolheu-o de todos os modos! Disse-lhes que ele tinha escolhido aos doze, e que um deles era o diabo. Dava graças a Deus por esse diabo, pois ele era necessário para o ministério de Jesus, e por meu traidor, sendo que ele também era necessário em minha vida.

Que necessidade teria de um crente ser traído por seus amigos ou amados? Que bom propósito poderia ter a dor e a tristeza de um coração ferido? Eu fiz estas perguntas aquela noite e encontrei respostas que vieram ao encontro das necessidades do meu coração. Nós temos necessidade de reconhecer a fidelidade do Espírito Santo em nossas vidas. Consideremos o fato de que Jesus nunca foi enganado a respeito de Judas. "Porque Jesus sabia desde o princípio quem era os que não criam, e quem o havia de entregar" (João 6:64).

Eu estou seguro de que, em cada experiência de traição na vida do crente, ele pode olhar para trás e recordar a advertência fiel do Espírito Santo. Em um caso, me recordo que poderia estar ciente desde o começo se eu apenas tivesse ouvido o testemunho interior do Espírito.

Quem pode explicar a natureza da advertência de Deus na alma com respeito a um irmão falso? Não é fácil expressá-lo com palavras, mas todos os santos conhecem a inquietação que a razão não pode explicar sobre alguns que professam serem nossos amigos. Conhecemos e experimentamos esse muro real de restrição que procura impedir que déssemos os nossos corações para aqueles que nos trairiam em um tempo de necessidade. Não estaríamos tão freqüentemente afligidos e defraudados por outros se fôssemos mais sensíveis ao Fiel que mora em nós. Nós não cremos no "discernimento" pelo Espírito? Então, por que freqüentemente desprezamos aquele sentimento estranho em nosso coração por amigos declarados e nos aventuramos a "proclamar" comunhão por sobre todas as advertências do Senhor Jesus Cristo por Seu Espírito? Quando nós aprenderemos que "o Senhor conhece os que são seus"?

A nossa responsabilidade é ouvi-lo nas profundidades mais íntimas da nossa alma e depender Dele para esquadrinhar os corações de outros por Seu Espírito. A experiência da traição esclarece a verdade de que a aceitação pública no meio dos crentes, o emprego de vocabulário comum entre os santos, a realização de obras religiosas, a pregação da Palavra, ou qualquer outro sinal externo que normalmente constitui uma "provação" da salvação e fidelidade de um homem, nem sempre manifestam a situação verdadeira. "...pois o homem olha para o que está diante dos seus olhos, mas o Senhor olha para o coração" (1 Sam. 16:7).

Reconheçamos em cada homem a posição que ele declara ter diante de Deus, mas nunca nos permitamos ir além do testemunho do Espírito de Deus em nossos corações em nossa relação aos outros. Temos lido de muitos que vieram a Jesus e professaram fé nele, apoiados puramente nos milagres que realizou, e não sobre uma genuína fé nele como o Filho de Deus. Movidos só pela impressão das obras externas, eles se incluíram entre os seus seguidores... "Mas o próprio Jesus não se confiava neles, porque conhecia a todos, e não tinha necessidade de que ninguém lhe desse testemunho do homem, pois ele sabia o que havia no homem" (João 2:24-25).

A nossa obrigação não é abrir o coração para todo homem que procura entrada em nosso homem interior, mas permitir aos nossos corações serem afetados para outros pelo Espírito Santo, pois ele sempre nos advertirá daqueles que tentam nos enganar. Aprendamos que a "comunhão" é a obra do Espírito Santo e não do homem. Não tentemos estabelecê-la sem a sua ajuda, nem a rejeitemos quando ele tão obviamente a estabelece entre os nossos corações e outros no Corpo de Cristo.

Qual é a necessidade da traição? Talvez deva ser esclarecida através das palavras de Pedro em sua primeira epístola quando ele observa que os seus leitores terão que "ser afligidos em diversas provações... se for necessário". É necessário porque, como ele explica tão belamente, há um fruto tanto presente como futuro de tais experiências aflitivas. No futuro, esta prova da nossa fé, como o ouro provado no fogo, tirará do forno as nossas vidas em louvor, honra e glória para o Senhor Jesus Cristo em sua vinda. Se só pudéssemos nos agarrar neste tremendo potencial no meio das nossas provações, quão distinta seria a resposta dos nossos corações ao desafio dessa hora! Além disto (graça sobre graça), as duras provações da vida são usadas para fazer uma obra muito necessária em todos nós - a obra de aumentar o nosso amor e gozo nesta vida presente. Leia 1.a Pedro 1:6-8 e recordem que, depois de cada forno de aflição, saímos amando ao Senhor como nunca antes e nos regozijando na realidade da sua comunhão.

Necessitamos da experiência da traição para aprender a verdadeira submissão ao Senhor. Você sabia que a maior oração que um filho de Deus pode dizer é a oração do Filho perfeito: "Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado" (Luc. 10:21)? Quando pudermos clamar assim do íntimo dos nossos corações feridos, saberemos que o aguilhão já se foi e que triunfamos, porque a nossa submissão para o desejo do Pai em nossas vidas traz a vitória sobre todo ataque que venha contra nós (2ª Cor. 2:14).

2ª Coríntios 4:15-18 oferece mais razões para a aparente injustiça das grandes desilusões da vida. Paulo dá a perspectiva apropriada para as nossas aflições, nos dizendo que o ataque não é contra o homem exterior, mas sim contra o homem interior.

Freqüentemente estremecemos sob o temor das "conseqüências que isto poderia trazer para a nossa vida", e esquecemos que nos tempos angustiosos nada pode causar dano ao nosso homem interior se estivermos vestidos de toda a armadura de Deus. Estas coisas duram só um momento comparadas com a eternidade, e um dia trarão um eterno peso de glória. Estas águas profundas só serviram para tirar os nossos olhos dos laços e "coisas" terrestres, e pô-los nos valores eternos. O inimigo gostaria de nos angustiar e ofuscar a nossa razão, nos conduzindo a olhar os detalhes horríveis da experiência exterior; assim, enquanto nos ocupamos com preocupações inúteis sobre o exterior, somos às vezes golpeados com violência no homem interior, e derrotados. Muitos santos sobreviveram aos ataques exteriores só para cair mortalmente feridos por amarguras, ressentimentos, malícia, e um coração rancoroso. Em tempos de traição, os santos devem aprender primeiro a cingir os lombos do seu entendimento em Cristo e a apropriar-se de toda a armadura de Deus, o qual realmente significa vestir-se de Cristo em toda a Sua força e poder.

A bênção da traição

Consideremos a bênção que traz a traição quando, através dela, aprendemos a não reconhecer outra mão a não ser a mão fiel de nosso amado Pai no céu, em todas as coisas. Nós damos demasiada glória ao diabo, ao mundo e à carne nas circunstâncias das nossas vidas. Culpamos os nossos inimigos quando somos sacudidos; mas grande paz e quietude de coração se tornam nossos quando nos negamos a reconhecer segundo as causas em nossas vidas. Deus é soberano e ele é o nosso Pai. Agradou-lhe permitir que isto nos acontecesse, e nossa parte é crer que "...aos que amam a Deus, todas as coisas contribuem para o bem, isto é, aos que são chamados conforme o seu propósito" (Rom. 8:28).

Na bênção desta quietude, Davi suportou com um espírito paciente a maldição de Simei e proibiu que lhe devolvesse mal algum pelo mal que fez. Davi viu só uma mão detrás de tudo isso - a mão amorosa de Deus operando o bem através do mal de Simei.

José foi traído amargamente por seus irmãos, posto no poço e vendido como escravo, para depois ser concedido a Potifar, e, outra vez, ser maliciosamente traído por sua esposa. Posto na prisão, ele fez amizade com o copeiro do rei, e logo conheceu mais uma vez a agonia do beijo da traição, porque quando aquele homem foi restaurado a favor da corte do Egito, quebrou a sua promessa feita na prisão. A Palavra de Deus diz: "E o chefe dos copeiros não se lembrou de José, mas o esqueceu" (Gên. 40:23).

Tanta aflição para um só homem parece suficiente para feri-lo mortalmente em seu interior, até perecer debaixo da amargura da alma que freqüentemente resulta na rejeição pessoal; mas os anos passaram e José foi lembrado pelo Senhor e exaltado ao trono do Egito em vitória. E o bendito segredo da sua cura, sim, de sua paciência triunfante e vitoriosa, revela-se em suas palavras aos seus irmãos: "Vós pensastes mal contra mim, mas Deus o encaminhou para o bem..." (Gên. 50:20).

Pedro manifestou esta mesma verdade em sua perspectiva da cruz do Calvário. Ainda que ele acuse à nação de prender a Jesus por mãos de iníquos para crucificá-lo e matá-lo, Pedro não o vê como uma tragédia, não vê nisso uma vitória de Satanás, mas sim, triunfalmente anuncia que o Senhor Jesus Cristo foi "...entregue pelo determinado conselho e antecipado conhecimento de Deus..." (At. 2:23).

E assim, meus amados santos de Deus que neste momento se encontram perplexos por causa da traição de um amigo, reconheçam nesta hora que Deus bem pôde havê-lo evitado se o tivesse desejado, mas o permitiu para o seu bem. Regozijem-se nesta bênção, pois ele os está tomando como seus filhos e lhes preparando para consolar e abençoar outros. Ele agraciou as suas vidas com o privilégio glorioso de compartilhar com vocês os mais íntimos sofrimentos de Cristo (Flp. 3:10).

Esta comunhão é dada a um grupo seleto, porque nem todos têm o privilégio de conhecer a agonia da traição, de poder compartilhar em alguma medida a profundidade do amor de Cristo. O seu traidor tentou lhe fazer mal, mas Deus tornará tudo para bem; e como Jesus escolheu a Judas, pois Ele tinha necessidade da traição em Sua própria vida, assim Deus em Sua fidelidade escolheu os nossos traidores - Ele sabia perfeitamente que, se a escolha tivesse sido nossa, nunca teria sido feita.

Vocês dirão: "Escolher os nossos traidores? Que bem podem nos fazer eles?". Vocês se esqueceram que a traição de Judas levou a Jesus Cristo para a sua maior obra, e desencadeou os eventos que cumpriram os propósitos eternos de Deus em Cristo? A redenção eterna através do sangue de Cristo foi fruto do desprezível ato de Judas!

Segue sendo um fato que os nossos inimigos não farão esta obra por nós. Só nossos amigos nos entregarão à dor das circunstâncias além do nosso controle; e, portanto, realizarão um verdadeiro serviço aos santos de Deus.

Só posso falar a partir da minha experiência pessoal. Um traidor me levou às circunstâncias que mudaram o curso do meu ministério e lançaram a maior obra da minha vida. Um traidor trouxe para a minha vida penalidades que me levaram a ser tirados da dependência do homem e me fizeram um homem livre no Senhor!

Um traidor trouxe para a minha vida um sofrimento que produziu o presente ministério frutífero e jubiloso que recebi de Cristo para o Seu Corpo. Como todos os santos, a minha percepção do passado é melhor que a minha visão do futuro. Quando olho para trás, dou graças a Deus por cada "diabo" escolhido por um Pai fiel, pois é muito provável que eu tivesse perdido algumas das maiores benções da minha vida se não tivesse sido por eles!

A bênção da traição? Só Deus pode realizar tal milagre, mas tenho descoberto que a paradoxo destas palavras é uma realidade. A traição pelas mãos daqueles a quem tenho confiado o coração pode trazer benções impossíveis de conter. Através da traição aprendi o que o salmista quis dizer quando cantou: "Nisto conhecerei que tenho te agradado, por não triunfar de mim o meu inimigo" (Salmo 41:11). Também o que o profeta quis dizer quando escreveu: "Nenhuma arma forjada contra ti prosperará, e condenará toda a língua que se levante contra ti em juízo. Esta é a herança dos servos do Senhor, e a sua salvação que de mim virá, disse o Senhor" (Isaías 54:17).

Através da traição aprendi que o poder e a graça do Senhor Jesus Cristo em minha vida só podem ser operadas através da bênção da fraqueza, que é produzida pelas bofetadas de Satanás como um aguilhão na carne (2ª Cor. 12:7).

Através da traição somos preparados para a bênção de ser usados para encorajar a outros na mesma prova de fé, com a mesma consolação que nós recebemos de Deus (2ª Cor. 1:4). Através da traição pelas mãos de um "amigo", recebi a bênção de tocar nesta mensagem as verdades preciosas que aprendi na comunhão de Cristo Jesus, meu Senhor. As benções dos que lerão esta mensagem fluirão da fonte da traição e, daí, a maldade desse fato se transforma, através da graça, no bem de Deus.

Através da experiência da traição de amigos falsos, recebi uma das maiores benções da minha vida, aprendendo como amar a meus inimigos e abençoar os que me perseguem.

Durante anos, foi difícil entender estas palavras: "Abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis" (Rom. 12:14), e muito mais difícil praticá-las. O cumprimento delas se opõe diametralmente a todo o humano; e a sua compreensão delas foi aberta por meio das águas amargas do ataque selvagem dos meus falsos amigos. Somente a experiência as transformou em uma realidade bendita para mim. A palavra "bendizei" significa "elogiai" ou "falar bem de". A expressão "não maldiga" significa "não deseje nenhum mal".

Quando se concretiza a bênção da traição, olhamos para trás e vemos quanto temos segado em crescente gozo, amor, graça, força e comunhão com o amado Senhor Jesus; sentimo-nos abismados pela compreensão de quanto bem nos tem feito o nosso traidor. Não importam quais foram as suas intenções. O que importa é o fruto bendito que ele trouxe para as nossas vidas.

Quão gloriosamente fácil se torna em verdade "falar bem" dele e não lhe desejar nenhum mal! Sim, quando olhamos o nosso presente estado de bênção e compreendemos que fomos entregues por um inimigo à liberdade e magnitude da terra que agora possuímos, nós podemos dizer: "Não posso senão falar bem dele, porque foi uma bênção para mim!".

Deste modo, tal como a flor pisoteada cujo perfume sobe para abençoar o pé que a esmagou, assim os nossos corações não encontram amargura, não procuram nenhuma vingança, não desejam nenhum mal. A plenitude dos nossos vasos precisa transbordar e abençoar as mãos que nos afligiram.

Tirado de: http://www.bbmhp.org/authors/roush.html (Traduzido do inglês).