História
e ficção
Possivelmente
nenhum grupo de crentes tenha sido objeto de tanta especulação
como os albigenses ou cátaros. Na atualidade, com o ressurgimento
do esoterismo, tem sido escrito numerosos livros e novelas onde
pretendem 'resgatar' o verdadeiro legado dos cátaros
e os seus ensinos. E, seguindo as várias e duvidosas
declarações dos seus perseguidores e inquisidores,
os associam em forma extemporânea com os gnósticos
do princípio da era cristã (Séculos II
e III).
Existem,
inclusive, documentos onde os inquisidores atribuem aos cátaros
confissões do tipo gnóstico copiadas letra por
letra do livro "Contra Heresias", escrito pelo Ireneo
de Lyon no final do século II, sem incomodar-se em trocar
ou adaptar os seus parágrafos.
Por
esta razão, diante da evidente falta de objetividade
e a inegável parcialidade dos documentos que sobreviveram
aos cátaros, muitos historiadores seculares se abstêm
de promulgar qualquer juízo histórico e preferem
manter silêncio. Outros, no entanto, especulam sem apoio
histórico, e criam as mais fantásticas teorias
sobre a sua origem e crenças.
No
entanto, quando estudamos em paralelo a história de bogomiles,
cátaros e valdenses, descobrimos que, de fato, existia
uma fluida e constante comunhão entre estes grupos, o
qual não poderia ter ocorrido se alguns deles tivessem
sido gnósticos ou maniqueus. Dos valdenses se preservaram
numerosos documentos que provam, sem nenhuma dúvida,
o caráter evangélico e escritural das suas crenças.
E é um fato que, para os inquisidores da sua época,
os valdenses, cátaros e albigenses, eram uma mesma coisa.
Distintos nomes dados a idênticos irmãos, dependendo
do lugar e da ocasião, pois, devemos lembrar que eles
recusavam tomar qualquer nome sobre si, com exceção
de "cristãos" ou "irmãos".
Com certeza, é possível identificar a persistência
de algumas heresias gnósticas, disseminadas aqui e lá
em algumas seitas medievais, as que, no entanto, não
podem ser associadas sem mais nem menos aos cátaros e
albigenses. Além disso, devemos lembrar que no período
apostólico e pós-apostólico muitas heresias
gnósticas se desenvolveram à beira das igrejas
de Cristo, tal como o mesmo apóstolo João advertiu
em sua Primeira Carta.
A
causa da heresia
A
presença do engano e o engano nunca estão muito
longe de qualquer desenvolvimento verdadeiramente espiritual.
Isto não nos deve assombrar. As igrejas de Cristo, ao
colocar-se sob a autoridade da Escritura e do Espírito
Santo, evitando qualquer uniformidade e organização
exterior, dependem exclusivamente do Senhor para o seu êxito
e continuidade. Não existe entre elas nenhum credo exterior,
rígido e uniforme, vigiado e defendido por alguma instituição
humana. Pois sua persistência diante de Deus não
pode depender da sua adesão a uma ortodoxia fria e morta,
mas sim do contato vivo com a sua Cabeça, que é
Cristo. Só esse contato pode livrá-las do engano
e da deformação.
As
heresias gnósticas surgiram no estreito contato com a
fé bíblica, pois formam parte da estratégia
de Satanás para confundir e apartar à igreja de
Cristo, sua cabeça. De fato, em Colossos já tinham
aparecido os primeiros sinais, ainda nos dias do apóstolo
Paulo. E o mesmo se pode constatar nas cartas às sete
igrejas de Apocalipse. No entanto, a resposta de Paulo e João
não foi nem remotamente um chamado à perseguição,
a difamação e a tortura dos hereges, como ocorreria
mais tarde com a cristandade organizada, mas sim uma exposição
mais ampla e aprofundada de Cristo, a Verdade, com claridade
e autoridade espiritual. Só isto é suficiente
para desbaratar os planos do diabo e salvar os irmãos
da confusão e do engano. E, obviamente, nada mais pode
ser.
Por
isso, ao longo da história dos irmãos esquecidos,
encontraremos sempre, lado a lado com a fé bíblica,
sempre distinta, algumas crenças heréticas e distorcidas.
Este fato, unido à ilimitada ambição da
cristandade organizada por ser considerada a única e
verdadeira "igreja de Cristo", que a levou a perseguir
infatigavelmente os cristãos dissidentes que não
reconheciam a sua autoridade 'oficial', deformando e destruindo
o registro quase completo de sua passagem pela história,
teve êxito em fazer de muitos daqueles valentes irmãos,
"hereges", ainda aos olhos de outros sinceros irmãos
que vieram depois. Esta é a trágica história
daqueles mártires que corajosamente levantaram o estandarte
de Cristo na hora mais obscura da fé.
Indagando
nas origens
A
origem dos cátaros e albigenses permanecem ainda em mistério.
O mais provável é que fossem fruto da conjunção
de vários fatores. Em primeiro lugar, existiam disseminados
pela Europa ocidental pequenos grupos de crentes que se separaram
da cristandade organizada no tempo de Constantino, entre os
quais os mais conhecidos foram os novacianos, quem também
foram conhecidos com o nome de cátaros ou 'puros' (gr.
cataroi). Por outro lado, durante o início da Idade Média,
a corrupção generalizada de uma grande parte da
cristandade levou irmãos sinceros a apartar-se dos seus
males e abusos. Entre esses irmãos se destacaram homens
de grande zelo espiritual, que denunciaram abertamente os males
da cristandade e ganharam um considerável número
de seguidores para uma fé mais bíblica e singela,
entre os quais se destacam Pedro de Bruys e Henrique de Cluny.
Além disso, existiu uma contínua corrente migratória
de irmãos que eram perseguidos no oriente (paulicianos
e bogomiles), que, ao chegarem ao ocidente entraram em contato
com as igrejas dos cátaros, albigenses e valdenses.
Todos
estes fatores ajudam a explicar o surgimento de uma poderosa
corrente espiritual durante a Alta Idade Média (Séculos
X ao XV), conformada por numerosos grupos de crentes que se
apartaram decididamente do cristianismo oficial do seu tempo.
Foram conhecidos por muitos nomes: cátaros, albigenses,
valdenses, petrobrusianos, patarinos, etc. E, embora existisse
entre todos eles uma estreita comunhão e inter-relação,
o nome de cátaros e albigenses se aplicaram melhor aos
grupos de irmãos que floresceram no sul da França
e norte da Espanha. O nome valdenses se aplicou em especial
àqueles irmãos que se desenvolveram nos vales
do norte da Itália e Suíça, e deles queríamos
nos ocupar em um artigo posterior.
O
nome 'cátaro', aplicado aos irmãos, parece derivar
do costume dos seus pregadores itinerantes de venderem todas
as suas propriedades e se fazerem assim "perfeitos"
para seguir o Senhor e pregar o evangelho, tomando literalmente
o conselho do Senhor (Mateus 19:21). Não obstante, este
não era um costume generalizado entre os irmãos,
pois a maioria deles permaneciam em seus trabalhos, ofícios
e famílias. Por outro lado, o termo 'albigense' apareceu
logo em meados do século XII, na cidade francesa de Albi,
onde um grupo de irmãos foram queimados na fogueira sob
a acusação de heresia maniqueista (embora isto
não pôde ser provado). A partir de então,
acostumaram a associar os irmãos do sul da França
com a 'heresia de Albi', e dali o nome, 'albigenses'.
Neste
artigo vamos nos enfocar especialmente naqueles irmãos
que foram conhecidos como cátaros e albigenses. Entre
as pessoas comuns foram chamados normalmente 'os Homens Bons',
em reconhecimento ao seu caráter santo e espiritual,
que contrastava notavelmente com o clero da cristandade da sua
época.
Líderes
inspirados
Já
mencionamos que entre os fatores que explicam o surgimento destas
companhias de irmãos está o ministério
de alguns notáveis líderes espirituais, como Pedro
de Bruys e Henrique de Cluny.
O
primeiro, Pedro de Bruys, viajou infatigavelmente por mais de
vinte anos, percorrendo diversas províncias da França:
em Delfinado, Provença, Languedoque e Gasconia. Multidões
de pessoas assistiam as suas pregações em que
denunciava abertamente o uso de imagens, especialmente da cruz,
a veneração a Maria, os sacramentos, e o batismo
de meninos, como costumes contrários à Escritura.
Para escutá-lo, as pessoas deixavam os serviços
religiosos e se reuniam em qualquer ponto onde ele estivesse.
Como também não reconhecia a autoridade da Igreja
organizada, foi açoitado e finalmente detido em 1116
DC. Foi queimado publicamente na praça de Saint Gilles
nesse mesmo ano. Não obstante, os seus seguidores continuaram
com a sua obra e com o tempo se uniram ao resto dos irmãos
perseguidos.
Henrique
de Cluny continuou com a obra de Pedro de Bruys, de quem foi
discípulo. Este era monge e diácono do famoso
monastério de Cluny. Possuía uma grande capacidade
de oratória e um aspecto físico imponente. Mas
era, além disso, um homem extraordinariamente devoto
e inflamado de zelo espiritual. Suas pregações
atraíam milhares de pessoas, e produziam centenas de
conversões, entre elas, as de alguns reconhecidos pecadores,
que mudavam radicalmente as suas vidas. O avivamento que ele
ajudou a acender se estendeu rapidamente por todo o sul até
o meridional da França.
Os
líderes da igreja organizada se encontravam intimidados
e até aterrorizados diante do poder da sua pregação,
e não se atreviam a fazer nada contra. Foi tão
grande o seu impacto nessas regiões que grande parte
dos templos e monastérios ficaram abandonados.
Finalmente,
Bernardo de Clarvaux, o homem mais poderoso da Europa, foi chamado
para detê-lo. Este era um homem de caráter santo
e devoto, cujos hinos em honra a Cristo são lembrados
até hoje. No entanto, neste assunto atuou com todo o
zelo da cristandade oficial, pois considerava Henrique o pior
dos hereges, um demônio saído do próprio
inferno. E com respeito aos irmãos, quem se negava a
reconhecer a sua identidade com homem algum, inclusive com Henrique
de Cluny ou Pedro de Bruys, queixava-se: "Inquiram deles
o nome do autor da sua seita e não a atribuirão
a ninguém. Que heresia há, que, entre os homens
não tenha o seu próprio heresiarca?... Mas, por
que sobrenome ou por qual título arrolam eles a estes
hereges? Porque a sua heresia não se derivou do homem,
nem tampouco a receberam de um homem". Sua conclusão
foi que, consequentemente, tinham recebido o seu ensino dos
demônios!
Henrique
se viu forçado a fugir de Bernardo, e continuou com o
seu infatigável trabalho, até que foi finalmente
preso e condenado a um destino desconhecido, talvez ser emparedado
vivo, ou a pena de morte, em Toulouse. Os irmãos, não
obstante, continuaram adiante com o seu valente testemunho e
passaram a formar parte daqueles grupos de irmãos perseguidos,
conhecidos por seus inimigos como cátaros e albigenses.
A
cruzada contra os albigenses
O
importante despertar espiritual daqueles anos entre os irmãos,
teve o seu epicentro na região conhecida como o Meridional
da França, especialmente em Languedoque. Ali multidões
de homens e mulheres de toda classe e condição,
incluindo nobres e bispos do clero, somaram-se às filas
dos irmãos, e as suas congregações cresceram
em um número alarmante aos olhos da hierarquia da cristandade.
Em 1167 foi realizada uma conferência de mestres que congregou
irmãos de todas as partes da Europa, inclusive de Constantinopla.
Ali estavam os paulicianos, cátaros, albigenses, valdenses,
bogomiles, reunidos simplesmente como irmãos, sem aceitar
nenhum dos apelidos que os seus caluniadores lhes colocavam.
Relataram do avanço da obra em lugares tão distantes
como a Romênia, Bulgária e Dalmácia. E este
fato nos ajuda a visualizar a amplitude e alcance do despertar
espiritual que eles protagonizaram naqueles anos.
Finalmente,
o Papa Inocêncio III decidiu acabar por completo com os
'hereges', depois de fracassar em suas tentativas de convencer,
mediante os seus legados, aos albigenses, pois estes se negaram
a reconhecer outra autoridade além das Escrituras, e
à cristandade organizada como a "verdadeira noiva
de Cristo". Tentaram, então, convencer o conde de
Provença e outros governadores das províncias
do sul da França para que o apoiassem em seus intentos
de aniquilação dos "hereges". No entanto,
frente à resistência de suas pretensões,
convocou uma cruzada de extermínio contra os albigenses
e as províncias do Meriodional francês. Nessa região,
devido à influência dos irmãos, desenvolveu-se
a civilização mais rica e próspera da Europa.
Centenas
de milhares se uniram à cruzada convocada pelo Papa,
atraídos pelas riquezas que ficariam a mercê da
pilhagem e da devastação. Liderada pelo terrível
Simón de Monfort, a cruzada contra os albigenses devastou
o sul da França até reduzi-lo a mais completa
desolação. Um após o outro, os pacíficos
povos do sul foram tomados e todos os seus habitantes passados
ao fio da espada. Em Minerva, Monfort encontrou 140 irmãos,
que negaram a abnegar-se de sua fé, por isso foram entregues
às chamas de uma grande fogueira que ele mesmo preparou
no centro do povo. Em Beziers, vendo rodeada a cidade e compreendendo
que toda resistência seria inútil, o conde Rogelio,
junto com o bispo, saiu para pedir clemência para as mulheres
e meninos e ainda para aqueles que não eram 'hereges',
pois nem todos nela eram albigenses. A resposta de Simón
de Monfort foi: "Matem a todos. Deus reconhecerá
os seus".
A
sangrenta cruzada se estendeu por cerca de vinte anos, até
devastar totalmente o país. Em 1211 caiu Albi e em 1221,
Toulouse e Avinhon. Seus habitantes tiveram a mesma sorte de
todos os outros, e foram passados ao fio da espada.
Centenas
de milhares de irmãos morreram, pela guerra ou queimados
na fogueira. No entanto, os poucos que conseguiram sobreviver,
fugiram para diferentes países levando consigo a sua
fé e testemunho. Não obstante, a cristandade oficial
não retrocedeu em seu esforço por destruir 'a
heresia albigense'. No Concílio de Toulouse, em 1229
foi criada a Inquisição, com o fim de continuar
a perseguição em cada recanto da Europa. E a Inquisição
completou a obra inconclusa da cruzada contra as províncias
do Meridional francês. Deste modo, a civilização
de Provença foi extinta por completo.
Apesar
de tudo, a fé dos irmãos não morreu. Em
qualquer lugar que fossem, tornaram a levantar o testemunho
de Jesus Cristo. Por toda a Europa, numerosos irmãos
saíam da cristandade organizada, e aqui e acolá
tornavam a aparecer, para em seguida ocultar-se, durante os
terríveis séculos em que a Inquisição
exerceu o seu império. Até que por fim, com o
advento da Reforma, saíram novamente à luz, e
se encontravam em centenas de milhares, dispostos a escrever
um novo capítulo de sua heróica história,
encontrando-se unidos à própria Reforma, ou tomando
parte da reforma mais radical, com o nome de anabatistas.