Uma revista para todo cristão
Ano 8 · Nº 43
Janeiro - Fevereiro 2007

Precoce, fértil, polêmico, eloqüente, Charles Haddon Spurgeon, um homem que maravilhosamente fez brilhar o evangelho na penumbra da Inglaterra do século XIX.

O príncipe dos pregadores
(1ª Parte)

 

Alguém disse que poderia dividir a vida de Charles Haddon Spurgeon igual aos seus sermões, com uma introdução e três seções. A introdução seria Spurgeon da infância até a adolescência. O primeiro período (ou divisão), Spurgeon em New Park Street, época do despertar e da oposição. O segundo período de Spurgeon, depois de se instalar no Tabernáculo Metropolitano em que a tormenta se converteu em quase admiração. O último ponto seria o período dos últimos cinco anos, em que a paz terminou subitamente e se tornou em oposição.

Seguiremos, pois, este esboço para desenvolver esta breve biografia da vida do homem que foi chamado "O Príncipe dos Pregadores".

Infância e adolescência

Charles H. Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834, em Kalvedon, num povoado campestre no condado de Essex, Inglaterra. Foi o primeiro de 16 filhos.

Pertencia a uma família cristã de origem protestante (calvinista) de reconhecida probidade. Duzentos anos atrás, o seu bisavô havia sido encarcerado por razões de consciência. Por causa da hostilidade, a família teve que fugir para a Inglaterra, onde o seu avô, James, foi pastor da Igreja de Stanbourne por mais de meio século.

Quando o pequeno Charles tinha apenas 18 anos de idade, seu pai mudou-se para Colchester, onde era responsável pela contabilidade de um comércio de carvão. Entretanto, exercia o pastorado de uma igreja independente em Tollesbury. Mais tarde, o menino foi enviado para viver com o seu avô na localidade de Stanbourne.

Desde a mais tenra idade, leu os livros do seu pai e do seu avô. Mas, mais do que isso, se impregnou da atmosfera da verdadeira piedade de ambos os lares: o respeito pela Palavra, que era tão característico dos puritanos, a retidão de consciência que sempre caracterizou aos não conformistas ingleses, a decidida rejeição às práticas da igreja imperante e a absoluta dedicação à obra do evangelho.

Enquanto estava com o seu avô, ocorreu um fato muito significativo. Chegou em sua casa Richard Knill, um pregador amigo da família. Depois de compartilhar vários dias com eles, ficou muito impressionado com o pequeno Charles. Antes de partir, reuniu a todos e, sentando o menino sobre os seus joelhos disse: "Não sei como, mas tenho um solene pressentimento de que este menino pregará o Evangelho a milhares e que Deus o abençoará com muitas almas. Estou tão seguro disto, que quando meu pequeno homem pregar na capela de Rowland Hill gostaria que cantasse o hino que começa assim: "Deus se move de maneira misteriosa, para suas maravilhas efetuar".

Spurgeon disse mais tarde: "As palavras de Mr. Kill contribuíram para efetuar o seu próprio cumprimento? Penso que sim. Cri nelas e olhei para o futuro, para a época em que pregaria a Palavra". De fato, a profecia se cumpriu e a pregação em Rowland Hill também, com o hino incluído.

Quando tinha 11 anos de idade freqüentou uma escola em Colchester e mais tarde passou dois anos em uma escola de Maidstone. Durante seus dias ali, ganhou prêmios e medalhas em torneios literários e concursos. Possuía uma viva inteligência e era persistente no estudo, e de muito boa memória. Seus condiscípulos admiravam a sua habilidade de observação.

J.D. Everett, que foi o seu condiscípulo, o recorda assim: "Era muito pequeno e delicado, de rosto pálido, mas cheio, olhos e cabelos escuros, de estilos vívidos e brilhantes, com incessante manancial de conversação. Fisicamente frágil, não se ocupava com os jogos atléticos. Era esperto e hábil em todo gênero de livros de conhecimento; e hábil nos negócios. Tinha uma assombrosa memória pra as passagens da oratória, e costumava recitar-me partes de conferências, de vívida descrição. Ouvi-lhe também recitar grandes partes do livro 'Graça Abundante' de John Bunyan".

Conversão e primeiros passos

Spurgeon tinha o costume de ir à igreja do seu pai; mas no domingo de 15 de janeiro de 1850 não pode ir por causa da forte nevasca que caía. Por causa disso, procurou um lugar onde poderia ouvir a Palavra. "Encontrei uma pequena capela dos Metodistas Primitivos. Eu tinha ouvido muitas pessoas falar desta gente, e sabia que cantavam tão alto que o seu canto dava dor de cabeça; mas não me importei. Queria saber como ser salvo, e não me importava se me desse dor de cabeça. Assim que me sentei, o serviço continuou, mas o pregador não veio. No final, um homem de aparência muito magra, Roberto Eaglen, subiu no púlpito, abriu a Bíblia e leu as palavras: 'Olhai para mim e sedse salvos, vós, todos os confins da terra' (Isaías 45:22). Então, fixando os seus olhos em mim como se me conhecesse , disse: 'Jovem, tu estás em dificuldades'. Sim, eu estava em uma grande dificuldade. Continuou: 'Nunca sairá dela enquanto não olhares para Cristo'. Então, levantando as suas mãos, gritou como creio eu, só podem gritar os Metodistas Primitivos: 'Olhe, olhe, olhe. Só tem que olhar', disse. E nesse momento vi o caminho da salvação. Oh, como saltou de alegria o meu coração naquele momento! Não sei se disse outra coisa. Não prestei muita atenção a isto, tão possuído que eu estava só por aquela idéia". Spurgeon tinha nestes momentos quinze anos e seis meses.1

Pouco depois passou a viver em Newmarkel, onde trabalhou como ajudante de professor. Ali, com o consentimento paterno, se batizou e uniu-se aos batistas. Posteriormente trabalhou em uma escola em Cambridge. Estando ali, sentiu o chamado para o ministério.

Spurgeon começou o seu serviço ao Senhor como professor de Escola Dominical e pregador leigo. Por seu caráter afável e pela agradável instrução que aplicava aos meninos, se tornou muito querido.

O seu primeiro sermão foi dado de maneira inesperada. Foi encarregado para acompanhar a um jovem pregador à aldeia de Terversham, mas, para a sua surpresa, o pregador se negou a pregar e encarregou a sua tarefa a Spurgeon. O tema da sua pregação foi: "Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade" (1ª Pedro 2:7). Os simples camponeses ficaram muito impressionados pelo ardor do coração do jovem e, desde então, sua fama começou a crescer nos arredores.

E quando não queriam ouvi-lo, ele arrumava uma maneira para que o fizessem. Certa vez, em uma noite chuvosa, depois de haver caminhado bastante para chegar a um povoado, se deparou que ninguém estivesse reunido. Então, vestido de sua capa, levando sua lanterna na mão, foi de casa em casa, convidando as pessoas. Assim pode reunir uma pequena congregação.

Primeiro pastorado

No final de 1850, quando tinha apenas alguns poucos meses de pregador, foi chamado ao pastorado da Igreja Batista de Waterbeach, um lugar próximo a Cambridge. Spurgeon tinha então 17 anos de idade. Desde então, e ainda quando esteve em seus dias de glória, nunca desdenhou as congregações pequenas ou rurais, onde sempre pregava com o maior prazer.

Quando iniciou como pastor em Waterbeach, a aldeia tinha um pouco mais de 1000 habitantes, espalhados em uma zona ampla. A figura masculino dali tinha uma má fama. Na maioria eram rudes camponeses, dados a embriagues e à libertinagem. A pequena congregação se reunia em um celeiro, transformado em capela de paredes brancas e teto de palha. Tinha uns cinqüenta membros, dos quais só estava presente uma dúzia quando Spurgeon pregou o seu primeiro sermão.

Durante o tempo que permaneceu em Waterbeach passou por apertos e escassez, mas a Igreja cresceu e o povo sofreu uma completa transformação. O jovem que Deus havia usado para isso recebeu o apreço e o respeito de todos.

Em pouco tempo, os pais de Spurgeon queriam que o seu filho ingressasse no famoso Regent´s Park College. Ainda que Spurgeon se sentisse arredio a fazê-lo, acordaram em uma entrevista entre ele e o diretor, a fim de tratar o assunto. A entrevista seria organizada na casa de um tal Macmillan, um editor cristão. Ambos foram ao encontro no horário e lugar marcado, mas por um erro de uma das empregadas, foram introduzidos em distintos cômodos, onde ficaram esperando por muito tempo, sem saberem que se encontravam tão perto um do outro.

A entrevista fracassou e Spurgeon considerou que isto era uma indicação de que Deus não queria que ele cursasse estudos sistemáticos de teologia. Essa mesma tarde entendeu ouvir uma voz que lhe dizia: "Procuras grandes coisas para ti? Não as busque". Ele recebeu isto como um expresso mandamento de Deus para não ingressar em universidade alguma. Nem naquele momento nem depois, Spurgeon haveria de fazê-lo. No entanto, chegou a ser um dos homens mais ilustres da época. Dizem que lia pelo menos seis livros por semana e chegou a contar com uma biblioteca pessoal de 10.000 volumes.

No final de outubro ou início de novembro de 1853, quando Spurgeon ainda não havia completado 20 anos, celebrou-se em Cambridge uma Convenção de Escolas Dominicais, onde foi convidado juntamente com outros dois pregadores. No auditório se encontrava um senhor de sobrenome Gould. Por esta época, a antiga e célebre Igreja da rua New Park Street de Londres, se encontrava sem pastor e num estado de grande decadência. Um dia, conversando Gould com um diácono daquela igreja, se lamentava com as tristes condições em que se encontrava a congregação. Então Gould lhe falou de Spurgeon.

Num domingo pela manhã, entregaram a Spurgeon uma carta procedente de Londres. Após lê-la, entregou-a a um diácono e lhe disse: "Seguramente esta carta não é para mim, e sim para alguma outra pessoa com o meu nome". No dia seguinte, escreveu para Londres dizendo que supunha haver algum erro, pois ele tinha apenas 19 anos de idade e era o pregador de uma pequena igreja rural. Com esta carta deu por encerrado o assunto. Mas logo em seguida, recebeu outra carta de Londres na qual retificava o convite para pregar em New Park Street.

Chegada a New Park Street

A visita a Londres estava cheia de temores, de sentimentos de ridículo (na casa de hóspedes lhe fizeram ver os seus trajes rudes) e da pequenez da sua pessoa, em meio a grandeza da capital. No entanto, a sua pregação no domingo pela manhã agradou aos pouco mais de cem que a assistiam. Deu o texto foi Tiago 1:17 "Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto". À noite pregou sobre Apocalipse 14:5 "E não se achou engano na sua boca; porque são irrepreensíveis". Depois do serviço da pregação, a congregação não se dissolveu imediatamente, comentando o que haviam ouvido, e expressando o seu desejo de que o jovem pregador voltasse outra vez.

A congregação da rua New Park tinha uma história muito respeitável, que datava do século XVII. Em diferentes épocas havia desfrutado de grande prosperidade e florescimento, mas naquele momento se achava em grande decadência; ao ponto que, como disse o autor, "todo o seu futuro parecia encerrar-se no seu passado". O local da capela, capaz de conter 1200 pessoas sentadas, apenas recebia a visita de 60 ou 70 em um ambiente glacial.

Os diáconos comprometeram Spurgeon a pregar durante seis semanas, alternando as pregações entre Londres e Waterbeach. Não o bastante a intermitência, a igreja se via cada dia mais animada e concorrida. Ao terminar o prazo, pediram-lhe que suprisse o púlpito por um período de seis meses, como um passo prévio ao pastorado. Spurgeon respondeu-lhes que o prazo de três meses bastava, cuja data poderia ser prorrogada por outros três, ou despedido sem necessidade de explicações. Quando ainda não estavam concluídos os primeiros três meses, a congregação convidou-lhe para aceitar o pastorado com o caráter oficial e permanente. Era 28 de abril de 1855.

Em pouco tempo a epidemia de cólera invadiu Londres, causando estragos na população. O diligente e valioso comportamento do jovem pregador aumentou ainda mais a sua popularidade e isto fez que ganhasse muitos amigos leais. As multidões literalmente invadiam a capela de New Street para ouvi-lo.

Num daqueles domingos, ao terminar o sermão, disse Spurgeon: "Pela fé caíram os muros de Jericó; e pela fé também cairá esta parede do fundo". Ao concluir o serviço, um dos diáconos da igreja lhe disse que não deveria voltar a mencionar tal assunto, ao que este respondeu com a sua característica prontidão: "O aqe você está querendo dizer? Não me ouvirão mais falar disto quando estiver feito, portanto, quanto mais rápido fizer, melhor". Em poucos dias começaram os trabalhos.

Casamento e família

Entretanto, Spurgeon se casou com Susana Thompson, uma jovem da igreja. Considerando que ela teve durante grande parte da sua vida problemas de saúde, foi uma ajudadora idônea e amiga fiel. Pertencia a uma pacata família de comerciantes da cidade e havia recebido uma sólida educação. Brilhava em seu ambiente por seus gostos refinados e pela grande bondade do seu caráter, mais que pela beleza física. Era uma mulher a quem Deus havia adornado com as melhores virtudes para a missão que lhe corresponderia cumprir.

Ela teve a energia para empreender duas obras que lhe valeram muito reconhecimento e estima: o "Fundo de Livros", e o "Fundo de Auxílio para Ministros Pobres".

O primeiro surgiu quando Spurgeon publicou os seus "Discursos aos meus alunos", em 1869. Ela se sentiu tão apaixonada pelo livro, que quando o seu marido lhe perguntou: "Você gostou?, ela respondeu: "Quem me dera pudesse por isso nas mãos de cada ministro da Inglaterra". "Quanto disponibilizará para este fim?", perguntou ele.

Então ela se lembrou que em uma pequena gaveta tinha um dinheiro guardado por anos. Ao contá-lo, viu que somava a quantidade necessária para comprar cem exemplares do livro. Assim nasceu o "Fundo dos Livros".

A obra efetuada por esta nobre mulher adquiriu grande importância a medida que o tempo passava. No ano de 1884, ela informava que, nos quinze anos de existência do "Fundo dos Livros", foram distribuídos 122.129 livros, além de um grande número de sermões; e que estes livros haviam sido doados a mais de 12.000 ministros de todas as denominações.

Estes trabalhos permitiram a Sra. Spurgeon inteirar-se dos graves problemas econômicos que afligiam aos muitos ministros pobres. Assim surgiu a idéia de criar a o Fundo de Auxílio Ministerial.

Com respeito aos filhos, os Spurgeon tiveram apenas dois filhos gêmeos, e ambos, passado o tempo, ingressaram no ministério. Um deles se destacou por sua eloqüência e capacidade, e sucedeu a seu tio de mesmo nome, que havia ficado à frente do Tabernáculo após a morte de Spurgeon. Seu outro filho também desempenhou postos de importância em sua denominação.

Publicações

Uma das maiores fases do trabalho de Spurgeon, e que lhe deu rápida popularidade, foi a publicação dos seus sermões. Desta maneira esteve enviando as suas mensagens para muito longe, em um período de um terço de século.

Sendo ainda muito jovem, Spurgeon leu um sermão que lhe causou profunda impressão, daí surgiu a idéia de publicar alguns dos seus sermões 'com valor de um peni-que ' (moeda inglesa que equivale à centésima parte da libra esterlina). Ao término do seu primeiro ano em Londres, já havia publicado doze. Então se pôs em acordo com o editor Passmore, que era membro da igreja, para realizar a publicação semanal dos seus sermões. Assim, desde o ano de 1855 até o ano de 1892, ano da sua morte, por um espaço de 35 anos, esta publicação continuou ininterruptamente.

Os sermões eram registrados taquigraficamente e na manhã seguinte ele os revisava; então entregava ao impressor e um dia depois se dedicava a fazer a primeira e a segunda correção das provas. Desde o início, tiveram uma ampla circulação: 2.500 exemplares semanais. Durante os 35 anos foram publicados aproximadamente uns 32 milhões de sermões. Foram publicados em um grande número de jornais e revistas, em diversas partes do mundo. "O auditório de Spurgeon", disse alguém, foi todo o mundo cristão".

Um dia Spurgeon deu uma emocionada notícia em seu auditório: "Tenho em minha mão um sermão no qual dou grande valor. Tem estampadas as iniciais D.L., quer dizer, David Livingstone, e é um sermão meu encontrado dentro de uma das caixas do doutor Livingstones. Tem o título 'Acidentes e Castigos'; e nele se encontra escritas estas palavras: 'Muito bom! D.L.' Foi enviado pela sua viúva, e esta sujo e rasgado, mas o guardo como uma relíquia, porque aquele servo de Deus o levou com ele".

Em seu extenso ministério, houve muitos outros testemunhos similares. Um deles fez um grande percurso antes de chegar às mãos de uma mulher de vida imoral: "Pensem naquele sermão pregado em Londres, enviado à América, um resumo dele publicado num jornal daquele país, esse jornal enviado à Austrália, parte dele rasgado (como se fosse acidentalmente), envolvendo um pacote que foi enviado a Inglaterra, e depois de tanto viajar, leva a mensagem de salvação à alma daquela mulher".

Um inglês que subia os Alpes, perto do lago de Genebra, chegou a uma casa, perdida naquele lugar deserto onde encontrou sentada sobre a erva, duas mulheres concentradas na leitura de um livro: se tratava de um tomo dos sermões de Spurgeon, traduzidos para o francês.

Nos Estados Unidos, os sermões eram publicados até por jornais seculares. Muitas igrejas que não tinham pastores pediam para que fossem lidos em suas reuniões. Na Rússia dos Ramanoff, onde muitos cristãos eram perseguidos, os sermões de Spurgeon tiveram uma grande recepção e efetuaram a sua obra de salvação. Em 1881, um ministro de San Petersburgo escreveu a Spurgeon: "Por meio dos seus sermões você está tomando uma grande parte no adiantamento do Reino de Cristo, tanto em San Petersburgo como no interior. Você é bem conhecido entre os sacerdotes, os que parecem agarrar-se aos seus sermões traduzidos; e, o que é mais estranho, é que conheço casos em que o Censor, de boa vontade deu permissão para que as suas obras fossem traduzidas, e isso ao mesmo tempo em que se mostrava irredutível com respeito a outras publicações".

Outro ministro de Varsóvia escreveu a Spurgeon em 1882: "Nas últimas semanas, tenho visitado as Igrejas da Silésia e Polônia Russa. Em quase todo povoado e vilas, uma das primeiras perguntas que me faziam era: 'Como está o irmão Spurgeon?'. Os soldados ingleses que foram enviados para a Índia recebiam os sermões semanalmente pelo correio, e no domingo à noite liam. Um caso atípico, porque não liam nada que tivesse algum teor religioso. Quando o sermão já havia passado pelas mãos de 50 ou 60 homens, encontrava-se completamente escuro, usado e rasgado.

Na Austrália, um homem encontrou um sermão impresso jogado no chão de uma cabana, e por meio de sua leitura chegou ao conhecimento da verdade. Guardou-o cuidadosamente durante o resto da sua vida, e em seu leito de morte, o deu a um missionário como o único tesouro que poderia deixar atrás de si. Outro australiano fez com que alguns destes sermões fossem publicados nos jornais, pagando pessoalmente um alto custo para isso.

Da Tasmânia escreveu a esposa de um missionário em 1885: "Se o Sr. Spurgeon soubesse quão apreciado são os seus sermões em nossos serenos bosques, onde não há pregações por espaço de anos, e quantos casos de conversões tem havido devido a eles, se sentiria maravilhado e se regozijaria com gozo indizível".

Conta-se um caso de um armador de barcos de pesca, no Mar do Norte, que se converteu por um dos sermões de Spurgeon, e colocou em um dos seus barcos o nome de "Charles H. Spurgeon", o qual havia intervido no salvamento de outro barco que estava preste a naufragar.

A. G. Brown relata o seguinte acontecido: "Uma vez veio a mim um homem de presença magnífica. Perguntei-lhe: 'Onde você recebeu o Salvador?', e imediatamente me respondeu: 'Latitude 25, longitude 54'. Confesso que estanhei tal resposta e fiquei intrigado. 'O que você está querendo dizer?', lhe perguntei. Ele respondeu: 'Eu estava sentado na cobertura do meu barco, e de um pacote de jornais que estava diante de mim, tirei um dos sermões de Spurgeon. Comecei a ler, e enquanto avançava na leitura, vi a verdade e recebi o Senhor em meu coração. Imediatamente busquei a latitude e a longitude em que me encontrava, e esta é a que tenho dado a você".

A casa editora Passmore & Alabaster teve que abandonar todo outro gênero de publicações, para ocupar-se exclusivamente da edição dos livros e folhetos de Spurgeon, e não dava conta.

Da grande quantidade de obras publicadas por Spurgeon, tanto de mensagens, exposições, de ilustrações, devocionais, históricos, de ensino e moral cristã, podemos destacar, dos traduzidos ao espanhol: "O Tesouro de Davi" (comentários dos Salmos em 2 tomos), "Pescador de almas", "Devocionais matutino", "Discursos aos meus alunos", "Notas de sermões", "Tudo por graça".

As hostilidades começam

Era 1856. Enquanto executavam as modificações da capela em New Park Street, a congregação alugou o Exeter Hall, um enorme edifício com capacidade para 5 ou 6 mil pessoas, que se encontrava em uma das avenidas mais importantes de Londres. Mas rapidamente também ficou pequena.

A imprensa não podia deixar passar a verdadeira revolução que o jovem Spurgeon estava realizando. Alguns - poucos - tratavam o assunto com seriedade e respeito, mas os demais trataram impiedosamente, lançando na face as acusações mais absurdas, grosseiras e injuriosas. O seu nome começou a ser "chutado na rua como uma bola de futebol".

Apresentavam-lhe como um macaco, um porco, um palhaço, ou como a personificação do próprio diabo.

No dormitório em sua casa, a senhora Spurgeon pendurou um texto: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que vieram antes de vós" (Mateus 5:11-12).

Em muitos outros lugares do país, a imprensa se unia a essa corrente. Um jornal de Sheffield publicava: "Nos momentos atuais, o grande leão, a estrela, o meteoro, ou como quer que o chamem, dos batistas, é o reverendo Spurgeon. Ele está fazendo um verdadeiro furor no mundo religioso. A cada domingo, as multidões assaltam o Exeter Hall como se fossem a um grande espetáculo dramático. O enorme local se enche até transbordar de um público emocionado, cuja boa sorte para conseguir entrada só é invejada pelas centenas de pessoas que ficam do lado de fora assediando as portas fechadas... Spurgeon prega a si mesmo. Não é outra coisa senão um ator, e não faz outra coisa senão exibir aquela incomparável safadeza que o caracteriza em alto grau, entregando-se a grosseiras familiaridades com as coisas santas, declamando em estilo delirante e coloquial, contorcendo-se para cima e para baixo no púlpito como se estivesse no Teatro de Surrey, e orgulhando-se de sua própria intimidade com os céus com uma freqüência de dar náuseas. Dizem que o cérebro deste pobre jovem tem sido transtornado pela fama que adquiriu, e pelo incenso que se oferece no santuário. Reconheçamos em favor deles, que as grandes luminárias de sua denominação não apóiam nem sustentam Spurgeon. É um fenômeno espetacular, mas de curta duração, um cometa que apareceu subitamente no firmamento religioso. Subiu como um foguete, e pouco depois descerá como uma cana". Spurgeon tinha apenas 22 anos.

Dias de controvérsia

Porém, a maior controvérsia se apresentou no plano teológico. Spurgeon se deparou com a corrente doutrinária que imperava na cristandade de Londres. O ponto de vista doutrinário predominante nos anos de 1850 a 1860 era arminiano, e Spurgeon professava valentemente o calvinismo. Ele pensava que o arminianismo era um erro que estava influenciando todo o setor não conformista, assim como a própria Igreja da Inglaterra, e o dizia com o ímpeto da sua arrojada juventude e do seu zelo por aquilo que ele considerava a pureza do evangelho.

"The Bucks Chronicle" o acusava de fazer do hiper calvinismo requisito essencial para entrar no céu; "The Freeman" lamentava que denunciasse os arminianos "em quase todos os sermões"; "The Christian News" assim mesmo condenava as suas "doutrinas de tão feroz exclusivismo" e sua oposição ao arminianismo; e "The Saturday Review" se doía porque Spurgeon pregava a redenção "em salas saturadas de cheiro de tabaco".

Ao invés de declarar-se inocente destas acusações, Spurgeon imediatamente as aceitava. Afirmava que a necessidade primordial da Igreja não era simplesmente mais evangelismo, nem sequer mais santidade (em primeiro lugar), senão o retorno à plena verdade das doutrinas da graça, e às que, para abreviar, estava disposto a chamar calvinismo. Spurgeon afirmava: "A antiga verdade que Calvino pregou, que Agostinho pregou, que Paulo pregou, é a verdade que devo pregar hoje, ou do contrário, seria infiel à minha consciência e ao meu Deus. Não sou eu quem dá forma à verdade; ignoro o que seja suavizar as aresta e saliências de uma doutrina. O evangelho de John Knox é o meu. O que ascendeu na Escócia há de ascender de novo na Inglaterra".

Spurgeon se defendia dos ataques com sutileza e elegância: "Nos culpam de sermos 'ultras'; nos consideram a escória da criação; apenas existem ministros que olham ou falam favoravelmente de nós, porque defendemos pontos de vista enérgicos quanto a soberania de Deus, suas divinas eleições, e seu amor especial para com o seu próprio povo".

Pregando para a sua própria congregação, disse em 1860: "Não existe uma igreja de Deus na Inglaterra nos últimos cinqüenta anos que passou por mais provas do que nós... Não há um dia que não caia sobre a minha cabeça o mais infame dos insultos, tanto privado como na imprensa pública; buscam todos os meios para destruir o ministro de Deus...".

Spurgeon pensava que a oposição não era apenas com a sua pessoa, senão que os ataques obedeciam a causas mais profundas. "Irmãos, em todos os corações existem esta natural inimizade contra Deus e contra a soberania de sua graça". "Sei que há homens que mordem os lábios e rangem os dentes em cólera quando estou pregando a soberania de Deus... Os ensinos de hoje aceitam um Deus, mas um Deus que não é Rei, isto é, escolheram um deus que não é deus, antes servo do que soberano dos homens". "O fato de que a conversão e a salvação pertencem a Deus, é uma verdade humilhante. Devido ao seu caráter humilhante, não é aprovado pelos homens".

Spurgeon considerava o arminianismo como popular porque servia para aproximar mais o Evangelho do pensamento do homem natural; aproximava os ensinamentos da Escritura à mente mundana. "Se a religião de Cristo nos houvesse ensinado que o homem fosse um ser nobre, só que um pouco caído - se a religião de Cristo houvesse ensinado que por seu sangue houvesse tirado o pecado de todo homem, e que todo homem pelo seu próprio e livre arbítrio, sem a graça divina, pudesse ser salvo - certamente seria uma religião muito aceitável para a massa dos homens". Os ensinamentos da graça foram os fundamentos do ministério de Spurgeon durante todo o seu ministério.

Em todo caso, esta postura calvinista tão decidida por parte de Spurgeon foi muito mais teológica do que prática, e foi suavizando com os anos. O seu calvinismo nunca o impediu - ao contrário - de pregar com diligência o evangelho a todos, como se fosse o mais convencido dos pregadores metodistas e arminianos do avivamento wesleyano.

Estas controvérsias não tiveram mais efeito do que tornar ainda mais popular o nome de Spurgeon, e que os seus serviços tivessem mais assistências. E os que vinham ver o palhaço fazer contorções, ou para ver a figura que tinha o diabo herege, permaneciam para ouvir a pregação. Muitos deles foram levados aos pés de Cristo. Spurgeon, que tinha senso de humor, conservava as caricaturas, como também os folhetos e artigos que publicavam da sua pessoa e obra.

Tragédia

Em junho de 1855, a congregação retornou do Exeter Hall para a capela de New Park Street, que tinha capacidade para 400 pessoas a mais do que antes. No entanto, o local tornou-se muito pequeno. Muitos tinham que retornar para as suas casa, frustrados.

Mas Spurgeon não pregava somente ali. Também o fazia em outros lugares nos meios de semana. E também fora da Inglaterra. Em 1855 pregou em distintas cidades da Escócia. No seu retorno para a Inglaterra, viajou por Essex, Cambridgeshire, e Suffolk, pregando em muitos povoados, começando por Waterbeach, de onde havia ido a Londres dois anos antes.

A estreiteza da capela de New Park Street, levou a necessidade de construir um templo que reunisse as condições apropriadas. Mas viam como uma tarefa muito difícil. Entretanto, pensaram em regressar ao Exeter Hall, mas os proprietários se negaram a arrendá-lo muito tempo para um só pregador. Pouco antes desta data haviam inaugurado o Music Hall (Teatro da Música) provavelmente o de maior capacidade em Londres. Alugar este edifício parecia um empreendimento gigantesco. No entanto, não havia outra opção.

Então, enquanto se criava um fundo para a construção de um novo templo, alugouram o Music Hall. Mas reuniões ali tiveram um triste começo. A primeira noite em que Spurgeon pregou, em 19 de outubro de 1856, aconteceu um acidente que causou um tremendo impacto sobre o público, sobre o pregador e sobre o futuro da obra em Londres. O que não conseguiram os ataques dos jornais e dos teólogos - calar Spurgeon - quase conseguiu este funesto acidente.

O lugar estava lotado com mais de 7.000 pessoas. Já na metade do sermão, alguns mal intencionados gritaram: "Fogo! Fogo!". A multidão reagiu de uma maneira terrível e correu para as portas, pisoteando uns aos outros e ocasionando a mais espantosa cena de desolação e morte. Spurgeon do púlpito suplicava para que a multidão permanecesse tranqüila, mas foi impossível dominar a assembléia. Sete pessoas morreram e 28 ficaram feridas. Nunca souberam quem foram os que tinham provocado está tragédia.

Spurgeon ficou doente. Segundo algumas de suas biografias, foi esta enfermidade que o levaria à morte anos mais tardes. Além disso, foi terrivelmente fustigado por uma parte da imprensa. "The Saturday Review" escreveu em 25 de outubro: "Cremos que as atividades do senhor Spurgeon não merecem mais o mínimo de aprovação dos seus correligionários. Há apenas um ministro não conformista de certa categoria que está associado com ele. Não observamos, em nenhum dos projetos ou operações de edificação, que os nomes de nenhum dos líderes do chamado mundo religioso figurem como fiadores... Existe a opinião geral de que os seus anormais procedimentos não beneficiam à religião. Alugar locais de entretenimento público para pregação do domingo é uma novidade lamentável. Fica a impressão que a religião se encontra com falta de recursos. Depois de tudo, o senhor Spurgeon não faz outra coisa senão representar o papel de Jullien dominical. Ele nos fala do espírito profano que deve ter havido por detrás da mente clerical quando a Igreja representava Autos Sacramentais e tolerava a Festa dos Asnos; mas estas coisas antigas reaparecem quando os pregadores populares alugam salões de concertos, e pregam a redenção em salões saturados de cheiro de tabaco, e onde ressoam as melodias das gerações do 'Bobbing Around' e valsa de La Traviata".

Ainda muitos religiosos o combateram; mas muitos amigos estiveram do seu lado.

A terrível tragédia obrigou os irmãos a construir mais rapidamente um edifício que oferecesse segurança. Com efeito, a igreja adquiriu um extenso terreno, o mesmo onde nos séculos anteriores, um grande número de cristãos haviam sido queimados por sua fidelidade à Palavra de Deus.

Neste mesmo ano levantou-se uma nova controvérsia em torno de Spurgeon, conhecida como a "Controvérsia do Ribeiro", e foi motivada por um volume de hinos que haviam sido publicado: Hinos para o Coração e para a Voz, O Ribeiro. Para Spurgeon, muitos dos hinos eram simplesmente "poemas da natureza", e careciam de uma clara verdade evangélica. Apesar de ser muito jovem, Spurgeon tinha idéias muito claras; e por ser jovem, as expressava com muita franqueza.

(Continua)