O
homem a quem Deus justifica
Abraão
surge cada vez que tocamos o tema da justiça de Deus
na Bíblia. Ele é o modelo e exemplo. Através
dele nos é ensinado como Deus imputa justiça ao
homem, e a que classe de pessoas. E quando o vemos, enchemo-nos
de assombro.
Ao
contrário do que as vezes é dito, Abraão
não era o que poderia ser chamado uma pessoa moralmente
irrepreensível, a qual Deus devia galardoar com a Sua
justiça. Era simplesmente "uma pedra a mais da pedreira
do mundo".
Quando
Deus o chamou, vivia no meio da idolatria própria dos
babilônios. E só obedeceu parcialmente a este chamado.
Não deixou a sua parentela nem a casa de seu pai, nem
tampouco chegou à terra que Deus lhe havia de dar. "Arrastou",
por assim dizer, a seu pai Tera e a seu sobrinho Ló,
e ficou parado em Harã, na metade do caminho. Quando
por fim se desprendeu de seu pai (porque morre), e segue viagem
a Canaã, Ló ainda o seguia.
Mais
tarde, quando Deus diz a Abraão: "À tua descendência
darei esta terra" (Gên. 12:7), não diz que
ele tenha crido em Deus. A promessa de Deus recebeu nesta primeira
instância uma morna resposta - ou, ao menos, não
a resposta de fé que justificasse a Abraão.
Pouco
depois, Abraão passa de largo em sua chamada, pois vai
ao Egito, uma terra que sempre lhe trará más lembranças.
Ali mente a Faraó, expõe vergonhosamente a sua
esposa ("para que me vá bem por tua causa"),
e, quando toda a ofensa se esclarece, retorna do Egito carregado
de presentes muito mal adquiridos.
Depois
da vergonha do Egito, Abraão volta para o lugar da bênção.
Deus o respalda generosamente no episódio com Ló,
e no que concerne à batalha contra os quatro reis. Só
depois disto, e de ter recebido a bênção
de Melquisedeque, Abraão recebe o dom da justiça
de Deus: "E creu em Jeová, e foi contado por justiça"
(Gên. 15:6).
E
tampouco foi na ocasião mais nobre, pois esta palavra
de Deus não veio a ele por causa da sua "semente"
espiritual (que, segundo Paulo em Gálatas, é Cristo),
mas sim por causa da sua descendência natural (Ver Gên.
15:4-5). Não tinha filhos, e ele temia que o herdeiro
fosse "esse damasceno Eliezer". Então Deus
lhe fala, e, pela primeira vez os ouvidos espirituais de Abraão
se abrem verdadeiramente à palavra de Deus, e ouviu com
fé, e esta fé lhe foi contada por justiça.
Assim
é como chegamos ao ponto chave na vida de Abraão,
que é citado tão abundantemente no Novo Testamento.
Assim, quando tentamos procurar um caráter justo em Abraão,
não o encontramos. E parece que tem que ser assim também
com todos os que seguem as pisadas de Abraão, para que
a justificação seja por graça e não
por obras: "Que, diremos, pois, ter alcançado Abraão,
nosso pai segundo a carne? Porque se Abraão foi justificado
pelas obras, tem do que se gloriar, mas não para com
Deus. Porque, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus,
e isto lhe foi contado por justiça. Mas ao que faz obras,
não lhe conta o salário como graça, mas
sim como dívida; mas ao que não faz obras, mas
crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé
lhe é contada por justiça" (Rom. 4:1-5).
O
ouvir de Abraão
"Aquele,
pois, que lhes dá o Espírito, e faz maravilhas
entre vós, o faz pelas obras da lei, ou pelo ouvir com
fé? Assim Abraão creu a Deus, e isto lhe foi contado
por justiça" (Gálatas 3:5-6).
Nesta
passagem, Paulo apresenta o exemplo de Abraão. Exemplo
quanto à fé, mas mais estritamente, e antes que
isso, no ouvir a Deus.
"Assim
Abraão creu a Deus..." diz Gálatas. Como
"assim"? Para entendê-lo, devemos unir esta
frase com a última do versículo anterior: "...pelo
ouvir com fé". Então, como creu Abraão?
A Escritura mesma nos dá a resposta: "Pelo ouvir
com fé".
Se
revisarmos a passagem referida por Paulo, em Gênesis 15,
nos damos conta que Deus falou com Abraão referente à
sua descendência quando este ainda não tinha filhos.
Levou-lhe a olhar para as estrelas, e lhe disse: "Assim
será a tua descendência". E o relato adiciona:
"E creu a Jeová, e isto lhe foi contado por justiça".
Algumas
Bíblias traduzem aqui "e creu no Senhor", como
se o assunto se tratasse de crer na existência de Deus,
em vez da sua palavra. Mas aqui se trata de crer o que Deus
disse. A existência de Deus não está em
jogo aqui. Deus é crido?
Abraão
creu na promessa que lhe foi feita - embora ele sendo velho
e sua esposa estéril. Creu que ele chegaria a ter uma
descendência incontável como as estrelas do céu.
É uma fé assombrosa, sem dúvida! Mas, como
chegou a tê-la? Paulo nos diz: "Pelo ouvir com fé".
Esta
classe de "ouvir" não é atribuível
ao homem, entretanto. A Escritura nos diz que o ouvir é
pela Palavra de Deus (Rom.10:17). Quer dizer, o falar de Deus
tem tal força, e produz tal impacto no homem, que este
não pode deixar de ouvir, e conseqüentemente, crer.
Tudo em definitivo depende, e é gerado, pelo falar de
Deus.
Como
nós ouvimos a Deus? As palavras de Deus estão
na Bíblia, e ele nos fala continuamente através
dela. Entretanto, podemos ouvir com o coração,
ou simplesmente com a mente. Expor-se - estar disposto para
- ao falar de Deus é absolutamente necessário
para chegar a ouvir e a crer como Abraão.
Portanto,
desejemos que as palavras de Deus nos rodeiem, nos impregne,
nos sature; que quebrem como um martelo a surdez de nosso coração,
e então creremos e seremos verdadeiros filhos de Abraão.
A
fé contada por justiça
A
memorável frase de Gênesis 15:6 com respeito a
Abraão são citadas três vezes em Romanos
4. Evidentemente, este é o exemplo de justificação
por excelência! E cada vez se contextualiza de maneira
diferente.
A
primeira, reforça a idéia de que quem recebe a
justiça é o que crê, não o que faz
obras. O versículo diz: "Mas ao que não faz
obras, mas crê naquele que justifica o ímpio, a
sua fé lhe é contada por justiça"
(v5). É preciso enfatizá-lo, pois parece sem nexo
para quem a escuta ou lê pela primeira vez.
O
sentido da recompensa está tão enraizado no coração
do homem, que sem pensar o atribuímos a Deus igualmente.
Parece-nos que se não fizermos algo, não merecemos
receber; não devemos receber. Mas aqui na Escritura temos
uma lógica distinta, que não deixará de
espantar ao homem, pois quebra o seu esquema de ações
e recompensas.
A
segunda nos mostra em que condições estava Abraão
quando recebeu a justificação pela fé:
era um incircunciso (v. 10). A circuncisão veio depois,
como sinal da justiça que tinha recebido estando na incircuncisão.
É notório o aborrecimento que os israelitas circuncidados
faziam aos gentios incircuncisos; mas eles esqueciam que os
seus ancestrais mais distantes e honoráveis também
tinham sido, e que eles receberam a circuncisão só
depois de terem crido. A circuncisão, nos diz Paulo,
não tem valor espiritual se não vier precedida
da fé.
A
terceira nos mostra que a justificação requer
a paciência e a esperança para ver o seu fruto
final (v. 18). Depois que Abraão creu na promessa de
Deus, teve que esperar 15 anos antes de ter o filho da promessa
nos braços. Enquanto isso, ele "creu em esperança
contra a esperança", nos diz Paulo, porque as circunstâncias
se tornavam cada vez mais desalentadoras. Como poderia ter um
herdeiro?
Muitos
de nós cristãos falhamos por exigir frutos da
fé no mesmo instante. E se não os obtemos, desanimamo-nos
até o ponto de desconfiar da própria Palavra de
Deus. No entanto, a fé opera como a concepção
natural. Deve esperar o tempo necessário - o tempo da
vida, o tempo de Deus - para que o fruto no final apareça.
Abraão
foi declarado justo no mesmo instante que creu em Deus; no entanto,
os frutos dessa justificação demoraram algum tempo
para aparecer. A palavra da promessa foi cumprida, mas no tempo
oportuno.
É
pela fé e pela paciência que se herdam as promessas,
diz o escritor de Hebreus (6.12). E disso nos fala este terceiro
aspecto da justificação pela fé de Abraão.
Esta
espera é normalmente mais longa do que desejamos, porque
somos impacientes por natureza. Mas os caminhos de Deus são
mais altos que os nossos, e ele nos faz esperar, porque nesta
espera vão-se produzindo outros efeitos espirituais proveitosos
no coração do crente.
Pai
de uma multidão
A
promessa que Deus fez a Abraão era com respeito à
descendência. Tão significativo foi este fato que
provocou a mudança do nome de Abraão. Antes se
chamava Abrão, que significa "Pai enaltecido",
agora iria se chamar Abraão, que significa "Pai
de uma multidão" (Gênesis 17:5).
O
homem enaltecido de antigamente seria agora pai de multidões.
A obra de Deus em um homem produz reviravoltas muito grandes,
como transformar a altivez em frutificação. Conforme
Abraão ia envelhecendo, e suas forças iam minguando,
o homem ia cada vez melhor espiritualmente, menos centrado em
si mesmo, um pouco mais fecundo.
Agora,
é curioso que Abrão fosse chamado "Abraão"
muito antes que o novo nome correspondesse a sua realidade.
O ventre de Sara ainda estava seco quando Abraão já
exibia o seu novo nome. Provavelmente devia encarar a brincadeira
dos que viam essa inconseqüência. O caminho da fé
e das promessas de Deus tem a sua cota de infâmia, de
descrédito.
Os
primeiros a rir, entretanto, foram os próprios pais anciões.
Abraão riu a vontade quando foi anunciado que o seu filho
teria que nascer de Sara (Gên. 17:17). Sara faria o mesmo
pouco depois (Gên. 18:12). Muitos outros certamente riram
com eles ao saber o estranho milagre (Gên. 21:6). Os caminhos
de Deus são assombrosos e incompreensíveis para
o homem natural. No entanto, a fé e a obediência
nos enchem o coração de louvor.
O
homem exterior vai se desgastando, mas o interior se renova
de dia em dia (2ª Cor. 4:16). O homem exterior conhece
a morte, mas o interior, a vida. Na impossibilidade do homem,
Deus é glorificado. Ninguém pode roubar a glória
de Deus; ninguém pode presumir diante dele.
Romanos
4 insiste muito no caráter de Abraão como pai.
O chama "herdeiro do mundo" (13), "pai de todos
nós" (16), "pai de muitas nações"
(17 e 18). Deus não quer que os seus justos sejam estéreis.
Quer que eles sejam pais de uma multidão. Por isso, fará
que a vida que está em seu interior germine até
multiplicar-se. Muitos outros filhos sairão dos seus
lombos, para a glória de Deus.
Os
filhos de Deus, tal como Abraão, devem chegar a ser pais,
e ter os seus próprios filhos. Paulo diz aos Coríntios:
"Porque embora tenham dez mil aios em Cristo, não
terão muitos pais; pois em Cristo Jesus vos gerei por
meio do evangelho" (1ª Cor. 4:15). E aos gálatas:
"meus filhinhos, por quem torno a sofrer dores de parto..."
(4:19).
Abraão
viveu um período de infertilidade e de provas depois
de ser justificado, antes de receber o que foi-lhe prometido.
Assim também os demais filhos de Deus. Pode haver muitos
justificados, mas talvez nem todos sejam pais. A vontade de
Deus é que pela fé e paciência alcancemos
o prometido.
João,
em sua primeira epístola, distingue os "filhinhos",
os "jovens" e os "pais". Os pais são
os que conhecem aquele que é desde o princípio.
Eles têm maturidade, pois passaram pelas provas, pelos
fracassos de descer ao Egito e de gerar filhos na carne. Eles
conhecem a fidelidade de Deus, e sabem que se houverem frutos
hoje, é pela graça de Deus. É a graça
que concedeu-lhes a fé, imputa-lhes a justiça,
e dá-lhes a paciência para esperar até que
tenham o formoso menino em seus braços.
A
justiça que é pela fé produz herdeiros
do mundo. Os que são de Cristo, são descendência
de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gál.
3:29). À semente de Abraão - quer dizer, a Cristo
- foi feita a promessa, e também aos que são de
Cristo, nEle.
Vejam
como estamos desgastando em nossas forças. Como estamos
perdendo a confiança em nós mesmos. Vemos quão
feroz é o tempo que nos tira o vigor. No entanto, no
meio a tudo isto, vemos como Deus produz as suas maravilhas,
como transforma a morte em vida, e ressuscita os mortos.
Há
coisas que Deus quotidianamente opera nos seus amados. Um sopro,
uma carícia, uma resposta oportuna em sua velhice. São
sinais à beira do caminho que falam de transformação,
de vivificação. São menos as coisas que
temos que fazer, mais as que receber. Menos nós, mais
Cristo. Menos filhos e mais pais, para ter muitos filhos.
A
Promessa
A
primeira parte de Romanos 4 está dedicada à fé
que justifica, no entanto a segunda parte está dedicada
ao cumprimento da promessa.
A
promessa é uma boa palavra de Deus dita em um tempo mau.
É uma palavra de abundância em tempo de seca, ou
de multidão quando não há ninguém.
Por isso requer da fé. Costuma estar rodeada de trevas,
angústia e solidão. Mas a promessa, quando é
crida, enche o coração de esperança. E
que doce é essa esperança, embora tachada de ilusória
aos olhos da carne, e grande objeto de brincadeiras!
Por
que Deus dá uma promessa e espera que ela seja crida?
Por que interessa tanto a Deus que seja crida, a ponto de fazer
derivar disso a justiça e a herança?
A
promessa faz descansar tudo em Deus. Muda o foco de atenção
do homem para Deus. O homem crê, mas em seguida espera
"como os olhos dos servos olham para a mão dos seus
senhores" (Salmos 123:2), para recebê-la ao seu tempo.
Deus decide os tempos e as ocasiões, segundo o seu propósito
e o desdobrar do seu perfeito plano.
Em
Romanos 4.17 se diz de Deus: Primeiro: Ele é a quem Abraão
creu. Segundo: Ele é quem dá vida aos mortos.
Terceiro: Ele é quem chama as coisas que não são,
como se já fossem (ou para que sejam).
Deus
falou e Abraão creu. A Palavra de Deus deve ser crida,
pois isso faz Deus verdadeiro. João nos diz que aquele
que não crê a Deus o faz mentiroso (1ª Jo.
5:10), o qual é mais terrível que não crer
em Deus. Abraão e nós temos algo importante em
que crer a Deus. Abraão creu na palavra de Deus referente
à sua descendência, nós temos diante de
nós a palavra de Deus referente a seu Filho Jesus Cristo.
O
fato a ser destacado aqui é que Deus é quem dá
vida aos mortos, significa que o justo tem que passar pela morte,
nesta espera da promessa, antes de recebê-la. A imagem
desse casal de anciões - ele quase morto, ela estéril
- nos comove pelo patético e desolada. Eles tiveram que
provar a morte, para poder vir a ser herdeiros do mundo. Da
mesma maneira, antes de Deus nos outorgar algo, faz-nos primeiro
passar pela morte, para que fique claro diante dos nossos olhos
que aquilo não é obra nossa.
Deus
chama as coisas que não são como se já
fossem. Sabemos que pela palavra de Deus foram criados os céus
e a terra, e que pela mesma palavra são sustentados.
Deus gosta de criar por meio da sua Palavra. Ele está
constantemente criando, e sustentando. Na natureza, ele já
acabou a sua criação, mas no reino dos homens,
ele segue criando. Cada vez que alguém nasce de novo,
é uma nova criação de Deus. Cada vez que
alguém é vivificado por sua Palavra, é
uma nova forma de expressão de sua vida criativa.
Quando
alguém crê a Deus, começa a atuar o seu
poder criativo para dar vida a aquilo que foi crido. Isso verdadeiramente
deleita a Deus. Muitos crentes provocam, no ato de crer continuamente,
que a mão de Deus siga estendendo para criar. E essas
são as promessas de Deus que vão se tornando realidade.
O
poder da graça
A
graça é a mão estendida de Deus para o
homem, suprindo-o em sua pobreza e em sua necessidade. A graça
é um presente de Deus; infelizmente, o homem nem sempre
está disposto a aceitar presentes, porque isso fere o
seu amor próprio. Em sua soberba, prefere comprar, pagar,
receber recompensas pelas obras realizadas.
A
graça de Deus requer que o homem não faça
obras, mas sim espere e receba. Mas este "esperar"
é difícil para o homem. Quando Abraão devia
esperar, em vez de esperar, ele atuou, e nasceu Ismael. Não
conhecia ainda o poder da graça. Tinha sido justificado
pela fé, mas ainda faltava para ele saber que o fruto
da fé também chegaria por graça. Não
só a justiça é pela fé, mas também
o cumprimento da promessa se recebe por fé.
Parece-nos
que esperar na graça de Deus é ociosidade, e,
portanto, desprezamo-la. Preferimos ter algo nas mãos,
para ajudar à graça de Deus. Deus teve que esperar
que Abraão fracassasse antes de oferecer o fruto da graça.
Nisto Abraão também é nosso pai - não
só no tocante à fé. A impaciência
e a voluntariedade também nos caracterizam.
Parece-nos
que a graça de Deus é infértil, que nunca
se alcançarão os objetivos se esperarmos nela.
Mas o que nos diz a Escritura? "E sua graça não
foi vã para comigo, antes trabalhei mais do que todos
eles" (1ª Cor. 15:10). "Deus é poderoso
para fazer abundar em vós toda e graça, a fim
de que, tendo sempre em todas as coisas todo o suficiente, abundeis
em toda boa obra" (2ª Cor. 9:8). "frutificando
e crescendo assim como entre vós ("a palavra verdadeira
do evangelho"), desde o dia que ouvistes e conhecestes
a graça de Deus em verdade" (Col. 1:6). A recepção
da graça por parte do crente liberta o poder de Deus
para operar todo fruto de justiça.
A
graça, na Escritura, aparece associada com a fraqueza
do homem ("E ele me disse (o Senhor): A minha graça
te basta; porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza",
2ª Cor. 12:9); e com o poder de Deus ("o dom da graça
de Deus que me foi dada segundo a operação do
seu poder", Ef. 3:7). A graça requer uma essência
de humildade ("Deus resiste aos soberbos e dá graça
aos humildes", Tg. 4:6) e também de fraqueza, para
que assim seja patente o poder de Deus, e para que não
haja jactância.
Para
o homem é extremamente incômodo viver em fraqueza,
e estar rodeado de "afrontas, necessidades, perseguições
e angústias". No entanto, é debaixo dessas
condições que o poder de Deus se aperfeiçoa.
Muito do aparato que há dentro da cristandade, com o
que se pretende fazer a obra de Deus, é nada mais que
a impossibilidade de esperar nos recursos da graça.
Constantemente
temos que decidir se esperaremos em Deus, ou nos adiantaremos
a fazer o que nós podemos e sabemos fazer. O tempo que
esperamos em Deus é sempre muito longo, e o sentido de
impotência é tão agudo que podemos até
chegar a adoecer. No entanto, quem espera em Deus com fé,
tendo sido fortalecido no homem interior para crer em "esperança
contra a esperança" receberá o que foi crido.
Porque Abraão, "tendo esperado com paciência,
alcançou a promessa" (Heb. 6:15). É depois
de Ismael que aprendemos a esperar com paciência até
alcançar a promessa.
Os
dois filhos de Abraão
Os
capítulos 16 e 21 de Gênesis são incompreensíveis
sem a interpretação que faz Paulo deles em Gálatas
4. Especificamente, no que se refere a Agar e Ismael.
Em
Gênesis 16 conta como Abraão, por sugestão
de Sara, tomou a Agar, serva egípcia, como concubina,
e como ela veio a dar-lhe um filho, Ismael. Um pouco mais adiante,
em Gênesis 21 conta como Abraão despediu a concubina
e a seu filho por determinação de Deus.
Paulo
nos dá a explicação: Agar representa o
antigo Pacto, e Ismael os filhos escravos que dá esse
pacto. Por isso devia ser expulso de casa, pois devia herdar
o filho da escrava com o filho da livre.
Gênesis
16 nos conta que Agar era egípcia, e que quando Abraão
se chegou a ela, tinha 85 anos. Abraão gerou esse filho
com a força que ainda tinha. Por isso nasceu "segundo
a carne", nos disse Paulo. Por outro lado, quando 15 anos
depois nasceu Isaque, Abraão já estava quase morto,
e Sara era incapaz de conceber.
Ismael
é o filho que Abraão fez; Isaque é o filho
que Deus lhe deu. Aí está a diferença.
A lei consiste no que o homem pode fazer; a graça consiste
no que Deus nos dá. A lei sempre apela para a capacidade
do homem; a graça se manifesta por causa da incapacidade
do homem.
Ismael
nasceu primeiro; Isaque nasceu 14 anos depois. Ismael nasceu
10 anos após Abraão ter chegado a Canaã.
Isaque nasceu 25 anos após.
Ismael
nasceu primeiro; Isaque nasceu 14 anos depois. Ismael nasceu
primeiro, porque o homem sempre tenta provar primeiro com as
suas forças, antes de abandonar-se nos braços
de Deus, reconhecendo a sua incompetência. Após
a concepção de Ismael, e também depois
do seu nascimento, Abraão e Sara tiveram muitos problemas.
Pois o que nasce da carne produz morte (Rom. 8:6). "A lei
produz ira", diz Paulo, e isso é o que aconteceu
nesses longos anos em que Abraão e Sara puderam evidenciar
quanto se equivocaram.
A
lei, a carne e as obras da carne estão estreitamente
aparentadas. O resultado de todas elas mostra a ineficácia
dos esforços humanos por agradar a Deus. Por outro lado,
que felicidade e consolo produziu Isaque! Quão cheio
da bênção de Deus!
Todos
nossos Ismaeis estão cheios de morte; mas quão
cheios de vida está nosso Isaque. Por isso, terá
que por para fora a Ismael, porque ele não tem herança
junto com Isaque. O que procede do homem é carne, e a
carne "para nada aproveita" (Jo. 6:63). Isto é
fácil dizê-lo, e fácil compreendê-lo;
mas não é nada fácil aceitá-lo em
nossa experiência.
Quanto
nos agarramos às nossas pequenas virtudes, aos nossos
escassos acertos; quão orgulhosos estamos do que somos
e do que podemos fazer para Deus. Têm que passar 14 ou
mais anos - falamos figuradamente - para reconhecer que nosso
Ismael só nos causou problemas, e que não tem
sorte nem lugar na casa de Deus. Quão tarde é
quando Deus decide nos dar a Isaque; tanto, que alguns de nós
não alcançam a obtê-lo! E aí, o único
que temos são muitos Ismaeis!
Deus
clama por meio do salmista: "Aquietai-vos, e sabei que
eu sou Deus; serei exaltado entre as nações, serei
enaltecido na terra" (Salmos 46:10). Se estivermos quietos;
se esperamos em Deus até que cessem os nossos ímpetos,
e morra o nosso zelo carnal, e terminem os nossos arrestos de
justiça própria, então Deus atuará,
e como conseqüência, ele será exaltado e enaltecido,
e não nós, entre as nações.
O
caráter de Abraão
Como
temos visto, em Gênesis capítulo 15, temos o magnífico
episódio em que Abraão foi declarado justo por
crer em Deus. No entanto, nos capítulos seguintes de
Gênesis encontramos Abraão vivendo diversos naufrágios.
O qual nos demonstra que a justiça imputada não
é ainda a justiça encarnada e expressa em toda
a sua formosura.
Recentemente
no capítulo 22 encontramos o fruto maduro da justiça,
a transformação que esta opera no crente. Deus
pediu a Abraão que oferecesse o filho da promessa sobre
o altar do sacrifício. Era impossível que um homem
comum realizasse aquele ato. Mas Abraão já não
era mais um homem comum.
Deus
queria manifestar figuradamente, antecipadamente, o que ele
mesmo teria que fazer uns mil e oitocentos anos depois, ao oferecer
o seu filho Jesus Cristo na cruz. Qual homem Deus poderia utilizar
para expressar tão grande ato de abnegação?
Sem dúvida, devia ser alguém em quem Deus vinha
trabalhando desde há muito tempo. Desde aquele fato de
Gênesis 15 até este de Gênesis 22 aconteceram
provavelmente uns quarenta anos na vida de Abraão.
A
justiça que tinha sido primeiramente apenas imputada
era agora uma gloriosa realidade em Abraão, cujo caráter
tinha sido inteiramente transformado. Agora era justo por atribuição
e justo por conduta. Deus via refletido nele aspectos de Seu
próprio caráter. Para representar a Deus no oferecimento
de seu próprio Filho, Abraão deveria ser justo
em toda a maneira de ser, como Deus lhe havia dito: "Eu
sou o Deus Todo-poderoso; anda diante de mim e sê perfeito"
(Gên. 17:1). Que satisfação devia sentir
Deus ao achar um homem em que poderia usar para expressar o
seu próprio caráter! Expressar a si mesmo! Não
é esta a nossa maior meta e privilégio?
O
privilégio de Abraão foi mostrar muito tempo antes,
em si mesmo, um traço - provavelmente o maior - da maravilhosa
natureza de Deus. E o fez bem. Tanto, que as palavras de Deus
que seguiram ao oferecimento de Isaque são das mais expressivas
que Deus tenha falado jamais a um homem.
Quanto
do caráter de Deus pode ser expresso através dos
crentes de hoje?
Abraão
sem filhos
Como
sabemos, Abraão foi pai de dois filhos: Ismael e Isaque.
Um tinha nascido no vigor de seu pai; o outro, na impotência
de sua velhice. Mas em um momento de sua vida, Abraão
ficou sem nenhum dos dois - pelo menos no âmbito do seu
coração.
Ismael
devia ser expulso de casa, pois tinha sido concebido de uma
mulher escrava, e em resposta à iniciativa humana. Isaque,
entretanto, o filho amado, o filho da promessa, devia ser oferecido
sobre o altar do sacrifício.
O
que nasceu da carne devia ser expulso; o que proveio de Deus,
devia voltar para Deus. Nada era de Abraão. Nem o que
ele produziu, nem o que Deus lhe deu.
Tal
coisa ocorre na vida do crente que caminha com Deus e procura
agradar a Deus. Os seus primeiros esforços têm
um fim de morte, e não podem permanecer na casa de Deus.
Após o fracasso, e a derrota, vem a alegria do fruto
espiritual, dos feixes que Deus põe em suas mãos.
No
entanto, o crente tem que experimentar a morte de novo. O que
Deus pôs em suas mãos, deve voltar para ele. O
fruto de sua fé pertence a Deus, e não é
dele. Dele é somente impotência, desolação,
morte.
Deixar
ir a Ismael é doloroso; mas pôr a Isaque sobre
o altar é ainda mais. É toda nossa glória,
porque chegamos a compreender que Deus é quem nos deu.
Este filho tem a marca de Deus, o selo da ressurreição.
Não é maravilhoso? No entanto, em um determinado
dia, Deus nos dirá para irmos ao monte Moriá,
e levemos aquilo que tanto amamos - o fruto da nossa fé,
e de nosso caminhar com Deus - para que o ofereçamos.
O
crente não tem direitos com Deus. Não há
nenhuma obra que Deus lhe tenha confiado, nenhuma bênção
espiritual que tenha posto em suas mãos, que pertença
ao homem. O que começou em Deus deve voltar para Deus.
Se o crente não estiver disposto a perdê-lo, significa
que ainda se agarra a algo seu.
Se
não estamos dispostos a perder o que Deus nos deu, significa
que ainda é nosso. E se é nosso, Deus se afastará
disso.
Se
Deus não nos devolver Isaque depois do altar, então
significa que nunca foi nosso. Só o que perdemos em Deus,
e Deus nos entrega de volta é verdadeiramente nosso.
Não há nada mais belo que a bênção
de Deus em nossa mão, mas tudo isto não é
maior que o Deus da bênção. Acima de Isaque
está o Deus de Isaque.
Qual
é o fim desta história? Deus disse: "Por
mim mesmo jurei, porquanto fizeste isto, e não me recusastes
o teu filho, teu único filho; de certo te abençoarei
... porquanto obedeceste a minha voz" (Gên.22:16,
18). Chegou a bênção superabundante.
Mas
o segredo está em estar disposto a ficar sem filhos;
só com Deus.