Nestes
últimos dois anos, fui levado pelo Senhor a uma experiência
na qual jamais pensei que estaria envolvido. Estou muito esperançoso,
contente, maravilhado, e isso é o que quero compartilhar
com vocês.
O
Senhor me deu uma nova dimensão de Jesus Cristo através
do evangelho de Lucas, e a estou experimentando neste último
tempo. Advirto que poderá ser um pouquinho escandalizante;
mas escutem, meditem, orem, e que o Senhor por seu Espírito
Santo a confirme em seus corações.
Vocês
sabem que temos quatro evangelhos. É bom que não
tenhamos um, mas sim quatro evangelhos. Se não fosse
assim, não teríamos a revelação
completa do nosso Senhor Jesus Cristo. Um só evangelho
não teria podido expressar toda a glória do Senhor.
Tradicionalmente,
todos sabem que Mateus revela a Jesus Cristo como Rei, representado
por um leão; Marcos o revela como servo, representado
por um boi; João revela a Jesus Cristo como Filho de
Deus, representado por uma águia voando. E Lucas o revela
como homem, representado por esse rosto de homem que tinham
os seres viventes.
Assim
Jesus Cristo, em Lucas, é um homem, um verdadeiro homem.
Assim como em João proclamamos e confessamos que Jesus
Cristo é verdadeiramente Deus, com Lucas confessamos
que -sem deixar de ser Deus- é também verdadeiramente
homem. Entretanto, Lucas vai nos dizer que não é
qualquer homem. É um homem único: é o homem
escolhido por Deus.
Lucas
revela a Cristo como o Salvador, o homem eleito e enviado pelo
Pai para trazer a salvação a todos os homens,
e mais ainda, a toda classe de homens.
Em
toda a sociedade, em qualquer época, existem aqueles
a quem a sociedade menospreza como pessoas de segunda classe.
O evangelho de Lucas revela de maneira maravilhosa como Jesus
se fez presente especialmente entre essa gente desprezada e
discriminada.
Quais
eram os marginalizados dessa época? Os leprosos, as prostitutas,
os publicanos, os samaritanos, os pobres, os doentes. A teologia
judia antigo-testamentaria ensinava que Deus prosperava o justo
e o guardava. Portanto, quando eles se encontravam com um pobre,
diziam: "Este se fosse justo, estaria abençoado
por Deus". Assim, os pobres eram desprezados.
Os
doentes. Ninguém podia participar do sacerdócio
se era uma pessoa machucada, coxa, ou que lhe faltava algum
membro.
Os
endemoninhados. Na TV vi uma reportagem dos milagres de Jesus,
e mostravam a passagem aonde ele vai a Gadara. Eu nunca tinha
entendido isso, e eu gostei muito da contribuição.
Os marginalizados não podiam viver com o povo, mas tinham
que ir viver em regiões destinadas para eles. Em Gadara,
uma região para marginalizados, vivia o endemoninhado,
que não era aceito entre o povo. Mas ali não só
viviam os endemoninhados, mas também pessoas que criavam
porcos, pessoas abomináveis para um judeu. Assim que
a marginalização não só era cultural,
mas também territorial.
Um
leproso não podia aproximar-se das pessoas. Tinha que
avisar quando vinha alguém para que não encontrasse
com ele. E que precioso é quando o Senhor se encontra
com um leproso que lhe diz: "Se quiser, pode me limpar",
e o Senhor não só lhe diz: "Quero",
mas sim o tocou; não teve receio dele.
Jesus
não só trouxe a salvação aos judeus
e aos gentios, mas também trouxe a salvação
para toda classe de homens. Hoje em dia teríamos que
dizer que a salvação é para os drogados,
para os neonazistas, para os homossexuais, para os ricos, etc.
Se
lermos a genealogia de Jesus Cristo segundo Lucas 3:23-38, vemos
uma grande diferença com a de Mateus. Quando Mateus escreve,
remonta-se até Davi, para nos mostrar que Jesus é
filho de Davi; e se remonta até Abraão. Interessa
a ele dizer que Jesus é o filho de Davi e que é
filho de Abraão, porque o Espírito Santo o guiou
para demonstrar que Jesus era um judeu, e que era da linhagem
real, pois Mateus revela a Jesus como Rei.
Lucas
também diz que Jesus é filho de Davi, e também
segue para trás. No versículo 34, diz que Jesus
é filho de Jacó, filho de Isaque, filho de Abraão.
Mas o interessante é que Lucas continua indo mais atrás,
e no versículo 38 registra: "Filho de Enos, filho
de Sete, filho de Adão, filho de Deus". Por que
Lucas faz isto? Diferentemente de Mateus, a Lucas interessa
dizer que Jesus não só é filho de Davi,
não só é filho de Abraão, mas também
filho de Adão. Ou seja, Jesus Cristo, o homem eleito
do Pai, é o representante de todo o gênero humano.
Assim
que ele, quando traz a salvação do Pai aos homens,
a traz na qualidade de filho de Adão, e nos incluiu também,
a nós que não éramos judeus. Bendito seja
o Senhor!
Para
perder ou para salvar?
Em
Lucas 9:51, há um incidente relatado somente por Lucas,
que diz: "Quando se cumpriu o tempo em que ele tinha que
ser recebido acima, afirmou o seu rosto para ir a Jerusalém".
"Afirmou o seu rosto", em outras palavras, tomou a
firme determinação de encaminhar-se para Jerusalém.
A última viagem de Jesus foi feito do monte Hermon, em
Cesaréia de Filipe, para Jerusalém, onde ia enfrentar-se
com a morte. Esta viagem tomaria os últimos seis meses
da sua vida.
Nesse
caminho para o sul, o Senhor ia ter que atravessar a região
no meio de Samaria. Tanto que o Senhor envia alguns dos seus
discípulos que vão diante dele a Samaria e lhe
preparem uma hospedagem. "Mas não lhe receberam,
porque seu aspecto era como de como quem ia a Jerusalém"
(V. 53). É como se os samaritanos dissessem: "Na
verdade, ele não está interessado em nós,
ele vai a Jerusalém. Não interessa-nos que venha".
Como
reagiram os seus discípulos diante da ofensa ao seu Mestre?
Levaram a notícia ao Senhor e lhe disseram: "Senhor,
quer que mandemos que desça fogo do céu, como
fez Elias, e os consuma?" (v.54).
Atenção,
porque isto é o que quer enfatizar Lucas: "Então,
voltando-se ele, repreendeu-os, dizendo: Vós não
sabeis de que espírito sois..." (V. 55). É
uma questão de espírito; o espírito não
estava correto. "...porque o Filho do Homem não
veio para perder as almas, mas sim para salvá-las"
(V. 56). O Senhor estabeleceu, no começo desta viagem
a Jerusalém, que a sua razão de estar aqui na
terra, a sua missão como o homem eleito do Pai e enviado
pelo Pai, era a salvação das almas.
Nós
como igreja do Senhor, podemos dizer igualmente como ele, que
não estamos neste mundo para perder as almas. Não
estamos para condenar. Não estamos para dizer: "Estes
não merecem salvação". Viemos para
salvar as almas.
No
final da viagem, quando Jesus já está entrando
em Jerusalém, diz algo que sintetiza todo o evangelho:
"Porque o Filho do Homem veio buscar e a salvar o que se
havia perdido" (Lucas 19:10).
Neste
versículo há um verbo que está antes de
'salvar'. Qual é o verbo? Buscar. E isto é extraordinário,
é um giro de 180 graus na economia de Deus. Quando Jesus
Cristo é enviado ao mundo como o homem eleito para trazer
a salvação aos homens, Deus mesmo desce aos homens
para trazer-lhes a salvação; mas, para salvá-los,
ele mesmo sai para buscá-los.
Não
é que ele vai se estabelecer em um ponto da terra para
dizer: "Aqui estou; se alguém quiser salvação,
venha". Porque quando a pessoa está perdida, não
entende, não vê, não quer. E Deus sabe disso.
Ele vem para salvá-los; mas, para poder salvá-los,
primeiro tem que sair a procurá-los.
Consequentemente
quando, como igreja, nos fechamos e dizemos: "Bom, se alguém
quer salvação, que venha", o Senhor nos perguntará
de que espírito somos, porque o Filho do Homem, para
salvar o que se havia perdido, veio para buscá-los. Você
está aqui, porque Deus saiu para te procurar. E se ele
não o tivesse feito, provavelmente você não
estaria aqui. Que extraordinário é o Senhor, que
admirável é Jesus Cristo!
Duas
classes de espiritualidade
A
espiritualidade antigo-testamentaria dizia que o povo de Deus
devia ficar separado dos pagãos, das pessoas ímpias.
Quando o Senhor Jesus ensina no sermão do monte diz:
"Ouviram o que foi dito: Amarás ao teu próximo
e aborrecerás ao teu inimigo". Eles não só
não tinha que estar juntos com os inimigos de Deus, mas
também tinham que aborrecê-los. Era uma espiritualidade
fechada, exclusiva.
Nós
criticamos e 'satanizamos' muito os fariseus, mas eles eram
coerentes com a sua teologia. Eles representavam à espiritualidade
antigo-testamentaria. Não tinham que juntar-se aos marginalizados
de Deus, com os que Deus desprezava.
Por
isso, é importante que entendamos que a dispensação
iniciou-se com a vinda do Filho do Homem. E é obvio,
iniciou-se algo completamente novo, algo que rompia com a espiritualidade
do Antigo Testamento, com o que todas as pessoas faziam. Por
isso, o Filho de Deus chora, lamentando como Israel não
conheceu a visitação de Deus. Não é
que o anterior estava errado, mas Jesus estava inaugurando algo
novo. O ano do jubileu tinha chegado, e o Filho do Homem, o
mesmo Deus, tinha descido do céu para trazer a salvação
a todos.
O
que isto me impactou é que Jesus saiu para relacionar-se
com os pecadores. Enquanto escutamos isto, por favor, vai pensando
se você, que se relacionava com os pecadores antes de
conhecer a Cristo, porque você era um pecador como eles,
desde que se converteu, você deixou de relacionar-se com
os pecadores? Você se separou deles? Não tem algo
estranho em nossa espiritualidade, que se parece mais antigo-testamentaria
do que com o Novo Testamento?
Porque,
se há alguém espiritual, é Jesus Cristo.
E o Senhor não atuou como nós atuamos. Ele se
relacionou com os pecadores. Mas ainda mais, ia nas suas casas
e comia com eles. Nós, depois que nos convertemos, comemos
entre nós. Também é bom, não estou
dizendo que é mau. Mas Jesus fazia algo estranho: comia
com os pecadores.
Contextualizando-o,
diríamos: Fazia churrascos com os vizinhos. E não
só comia, mas também tomava vinho com eles. (Ao
dizer isto, não pretendo fazer apologia para tomar vinho;
simplesmente estou contando um fato).
Jesus
tinha uma espiritualidade muito gloriosa. Ele estava separado
do pecado, mas jamais se separou dos pecadores. Ele estava absolutamente
separado do pecado em seu coração. Mas o extraordinário
é que, estando separado absolutamente do pecado, ele
se relacionava com os adúlteros, com os que falavam grosserias,
com os que fumavam, com os que se embebedavam, com os que mentiam.
Eu,
em troca, tenho uma espiritualidade na qual tenho associado
que, para poder estar separado do pecado, tenho que estar separado
dos pecadores. Essa é a espiritualidade que eu tinha.
Parece que a minha mente funcionava assim: Se eu começar
a me juntar com os pecadores, vou-me poluir. Se começar
a me juntar com os que falam grosserias, vou terminar dizendo
grosserias; se começar a me juntar com os adúlteros,
vou terminar adulterando; se começar a me juntar com
os que bebem, vou terminar bêbado; se começar a
me juntar com as pessoas que fumam, vou terminar fumando.
Tenho
que ser claro neste ponto: Se você for passar por isso,
é obvio que não pode fazê-lo, porque estamos
para salvar as almas e não para as perder. Se você
for se juntar com os adúlteros e vai terminar adulterando,
obviamente que não pode ir. Mas, ao menos, teremos que
reconhecer que nossa espiritualidade é uma espiritualidade
estranha, que não corresponde a de Jesus. A espiritualidade
dele era estar separada do pecado no coração;
mas não dos pecadores. Nós temos asco dos pecadores.
A
festa de Leví
Vejamos
em Lucas 5:27, a conversão do irmão Leví.
Este é o mesmo irmão Mateus, que escreveu o primeiro
dos evangelhos. Leví não era nenhuma pessoa querida,
nem admirada entre os judeus. Era um publicano. "depois
destas coisas saiu, e viu um publicano chamado Leví,
sentado no banco dos tributos públicos, e lhe disse:
Segui-me. E deixando tudo, levantou-se e o seguiu".
Converteu-se
o irmão Leví. Entendeu que Jesus Cristo era o
seu Senhor, deixou tudo, o seguiu, como qualquer recém
convertido... Como anda um recém convertido? Cristo mudou
a sua vida em 180 graus, anda feliz. Ou melhor, ainda tem desordens
em sua vida, mas Cristo o salvou, tem o gozo da salvação.
E de tão alegre, fez para ele um grande banquete em sua
casa. "OH, isto tenho que celebrar", disse.
Eu
estou de acordo que cada conversão é para ser
celebrada. Assim fez um grande banquete em sua casa. Mateus,
sendo publicano, não era pobre. Convidou os seus amigos
e encheu a casa de convidados. Vocês crêem que ele
convidou à igreja? Não; convidou os seus colegas
de trabalho; a casa se encheu de publicanos. "E havia um
grande número de publicanos e de outros que estavam à
mesa com eles" (V. 29). Quando diz outros, estes não
eram pessoas de boa reputação segundo os parâmetros
judeus. Ou seja, havia publicanos e outros da mesma laia.
Irmão,
você teria ido a esta festa? Se um irmão seu recém
convertido, enchesse a sua casa de familiares mundanos e tudo
isso, você teria ido? Pense consigo, não me responda.
Eu, há um tempo atrás, não teria ido. Eu
não vou a aniversários dos meus familiares; não
quero saber nada de coisas supérfluas, mundanas... Entretanto,
Jesus foi, e foi com os seus discípulos!
Não
aparece isto na Bíblia, mas eu penso que Jesus estava
feliz, sentia-se cômodo. Tragamos, por favor, essa festa
para o nosso contexto atual, para que imaginemos um pouco a
cena. As pessoas, os familiares de Leví, os publicanos,
comiam e bebiam. E de repente algum publicano, falando com Leví,
dizia uma grosseria.
"E
os escribas e os fariseus murmuravam contra os discípulos,
dizendo: por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?"
(V. 30). Vejamos, prestemos um pouco de atenção
nos escribas e fariseus. Entendem que era completamente lógico
o que estavam pensando? É que isso não se fazia,
não era o que foi ensinado, não era a espiritualidade
do Antigo Testamento. Algo estranho estava ocorrendo aqui, Jesus
com os seus discípulos estavam quebrando a tradição.
Ele
devia manifestar uma espiritualidade nova, incompreensível,
que consiste em estar separado do pecado, mas não dos
pecadores. Jesus veio buscar e salvar, por isso é que
ele ia onde às pessoas que não tinham salvação.
Relacionamos-nos só com pessoas que já tem salvação.
Jesus
veio relacionar-se com os que não estavam salvos. Há
parábolas que dizem isso: que ele deixa às noventa
e nove que não necessitam de arrependimento, e vai procurar
a essa uma que não tem salvação. Nós
temos ainda uma espiritualidade que é mais antigo-testamentaria
do que do Novo Testamento.
O
evangelho de Mateus diz que criticaram a Jesus. Aqui diz que
só aos discípulos, mas é a Jesus e aos
seus discípulos. A pergunta é: "por que comeis
e bebeis com publicanos e pecadores?". E a resposta parece
tão simples, mas para eles era totalmente incompreensível.
"Os que estão sãos não têm necessidade
de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar
justos, mas pecadores ao arrependimento" (31-32). Mas,
para chamar os pecadores ao arrependimento, o que teria que
fazer antes? Estar junto na festa de Leví. Como podemos
chamar os pecadores ao arrependimento se não nos relacionarmos
com eles, se não ir onde eles estão?
Agora,
você vai me dizer: "Eu no trabalho me relaciono todos
os dias com pessoas não convertidas e não necessito
algo extra". Sim, mas estou falando da atitude, porque
ainda que se relacione no seu trabalho com pessoas pecadoras,
não se comunica com eles. Almoça separado, em
um cantinho, come rápido e fica lendo a Bíblia.
Você não se 'contamina' com os outros no trabalho.
Eu
fui estudante. Estudei meu Ensino Médio no Liceu "Darío
Salas", e me automarginei de todos, porque era evangélico.
Como ia me juntar com a turma? Como ia me poluir? Com exceção
de que pesava tão pouquinho, espiritualmente falando,
que, claro, ia me poluir. Assim não me juntava com eles.
Se tivesse ido a uma festa com eles, teria terminado extraviado
e perdido.
Repito:
ao menos temos que ser honestos hoje, e dizer que a espiritualidade
que temos não é a espiritualidade de Jesus. E
a espiritualidade de Jesus é a que ele trouxe, a que
corresponde à era da igreja, à era da graça,
a dispensação na qual estamos. Mas nós
parecemos mais pessoas do Antigo que do Novo Testamento.
Comilão
e bebedor de vinho
Lucas
7:33. Aqui, para variar, os fariseus criticam o Senhor, e ele
termina no versículo 7:33-35 dizendo algo tremendo. "Porque
veio João o Batista, que nem comia pão nem bebia
vinho, e dizeis: tem demônio". Que estranho os fariseus!
Veio um da maneira deles, afastado dos pecadores, que se cuidava
e não tomava vinho, e eles disseram: tem demônio.
Lucas
disse de João o Batista que ele se apartou para lugares
desertos até o dia de sua manifestação,
ou seja, ele nunca se juntou com a ralé. Porque ele era
o último profeta do Antigo Testamento. Contudo quão
glorioso é João o Batista, sua espiritualidade,
não obstante, era a do Antigo Pacto. E quando se manifestou,
entrou o reino e ele preparou o caminho para o Senhor. Mas,
embora este fosse um homem que tinha a mesma medida dos fariseus,
eles disseram: tem demônio.
"Veio
o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Este é um
homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos
e de pecadores" (V. 34). Digam-me se não é
terrível isto que estamos lendo. Ele era amigo dos não
convertidos, amigo dos vizinhos que ainda não conheciam
o Senhor.
Irmãos,
para minha vergonha, quando despertei para esta verdade, disse:
"Bom, tenho que começar a me relacionar com os meus
vizinhos". Sabe? Eu não os cumprimentava. Estamos
tão envolvidos em nosso mundo, em nosso mundo de igreja,
em nosso mundo cristão. Eu pensava, quando saia com a
minha família, como nos olharia as pessoas? "Lá
vão aqueles, tão ordenadinhos, a esposa, os filhos
".
Mas nem uma saudação, irmão! Como se fôssemos
pessoas de outro planeta.
Eu
me emocionei tanto por esta palavra, que disse: "vou fazer
imediatamente um assado e vou convidar os meus vizinhos".
Fiz um assado, comprei vinho e tudo para recebê-los, cinzeiros,
tudo. E sabe? Não veio ninguém! Mas, sabe por
que não vieram? Porque, eu vivi no bairro por trinta
anos, e nem os cumprimentava!
Entendi
que ia ter que partir de mais atrás ainda. Tinha que
partir cumprimentando-os. Agora trato de cumprimentar a todos.
E pouco a pouco, aproximar-me deles. Irmão, digo-o com
vergonha. Tive que partir do zero, tomar consciência dos
meus vizinhos, cumprimentá-los, começar a mostrar
interesse. Porque eles não vão vir até
que não vejam um interesse sincero.
"...Amigo
dos publicanos e de pecadores". Nós, se não
é para pregar-lhes, não nos juntamos com eles.
Eu não estou dizendo que não cheguemos para pregar-lhes,
mas não podemos entrar com pancadas e porretadas para
pregar-lhes. Primeiro receba-o, primeiro crie o ambiente para
que ele queira te ouvir. Porque muitas vezes você vai
e prega, e a pessoa nem está te ouvindo, porque é
uma pessoa estranha que está falando para ele. Não
pode partir daí.
Eu
tinha medo. Eu creio que o diabo tem nos apanhado com isso.
Tinha medo de que, se eu me juntasse com os pecadores, ia terminar
fazendo o que eles fazem. Mas mesmo assim, eu fui no nome do
Senhor, e estou indo no nome do Senhor. E estou aprendendo o
que está escrito: "Misericórdia quero, e
não sacrifício". E, à medida que vou
vendo a resposta das pessoas, fico esperançoso. Não
quero deixar de fazê-lo.
Esses
dias estive com uma prima, que está afastada do Senhor,
e uma noite, com outros irmãos, compartilhei a ela do
Senhor. No outro dia, ela voltou para a casa onde eu estava,
e me disse: 'Sabe? Ontem à noite me aconteceu algo com
vocês. Eu, cada vez que me encontro com alguém
que me fala do Senhor, percebo no espírito com o que
me falam, que eu estou desqualificada a princípio, que
estou julgada e que estou condenada. E ontem à noite,
pela primeira vez, senti que alguém me falava do Senhor,
e me senti acolhida; senti que havia esperança para mim,
e que eu também poderia ser restaurada'.
Depois
que ela se foi, disse aos irmãos que estavam comigo:
"O dia que nós dermos às pessoas uma impressão
diferente desta, nós não somos servos do Senhor,
estaríamos falhando com o Senhor". Ela não
se converteu ainda, mas profetizo que ela vai voltar para o
Senhor, que o caminho de sua volta já se iniciou. Algo
se quebrou.
Vocês
querem parecer com Jesus? Se quer parecer com Jesus neste aspecto,
você vai ganhar má fama, vão dizer que é
comilão e bebedor de vinho. 'Agora é amigo dos
pecadores'. "Mas a sabedoria é justificada por todos
os seus filhos". E quando você vir e aprender dele,
vai dizer: 'OH, Deus sabe mais do que nós'.
Enfrentando
o "que dirão"
Lucas
7:36: "Um dos fariseus rogou a Jesus que comesse com ele.
E tendo entrado na casa do fariseu, sentou-se à mesa".
Olhe que lindo o espírito de Jesus. Os fariseus são
os que se opunham a ele, os que o criticavam. Representam oos
evangélicos que estão dizendo: "Olhem o irmão,
está se desencaminhando". Mas Jesus, se um fariseu
o convidava, ia também. Que precioso!
Agora,
a cena seguinte, é terrível. Uma mulher entra
na casa, sem ser convidada. "Então uma mulher da
cidade, que era pecadora -leia-se prostituta-, ao saber que
Jesus estava à mesa em casa do fariseu trouxe um frasco
de alabastro com perfume; e estando por detrás dele a
seus pés, chorando, começou a regar com lágrimas
os seus pés, e os enxugava com os seus cabelos; e beijava
os seus pés, e os ungia com o perfume".
Não
é uma cena maravilhosa? Sua espiritualidade te alcançaria
para que se aproxime de você uma mulher prostituta e comece
a te lavar e a beijar os seus pés?
Na
Bíblia não há nenhuma explicação
do que aconteceu com esta mulher antes, o que aconteceu para
que ela entrasse onde estava Jesus e fizesse o que fez. Eu imagino
que quando Jesus ia para a casa do fariseu, no caminho, esta
mulher estava na rua. E ela, até esse momento, tinha
conhecido só duas classes de olhares por parte dos homens.
Os fariseus ou os escribas a olhavam com desprezo, condenando-a.
E também conhecia a outra classe de olhares dos homens
que passavam.
Mas
esta vez, pela primeira vez, passou um homem, o Homem de Lucas,
nosso bendito Senhor, e a olhou com um olhar que nunca um homem
tinha olhado para uma prostituta. Não era nenhum olhar
que a condenava, nenhum olhar que a desejava. Pela primeira
vez, um homem a olhou com amor. Assim imagino eu. E sabe? Pressinto
que nem sequer houve diálogo; bastou uma só olhada
de Jesus para que esta mulher se sentisse pela primeira vez
amada.
Esta
mulher o viu entrar na casa do fariseu, partiu para a sua casa,
trouxe o que tinha de mais valor, o perfume, e entrou naquela
casa. Achou-se chorando aos pés de Jesus e secou com
os seus cabelos, e tirou o perfume e perfumou os seus pés.
Tinha encontrado um homem que a amava verdadeiramente. E creio
que isto se confirma quando ele dialoga com o fariseu, para
explicar a atitude da mulher, diz-lhe: "Aquele que muito
se perdoa, muito ama".
Mas,
o que fez o irmão evangélico, o fariseu? "Quando
viu isto o fariseu que lhe tinha convidado, disse para si: Este
se fosse profeta, conheceria quem e que classe de mulher é
a que o toca, que é pecadora" (V. 39). Estava contente
o fariseu de que um pecador estava a ponto de ser salvo? Jesus
sabia perfeitamente o que estava fazendo. O que não discernia
o novo tempo, o tempo da visitação de Deus, era
o fariseu.
Vamos
percorrer um pouco mais, para que vocês notem que este
não é um versículo isolado, mas sim é
o teor que tem todo este evangelho, uma e outra vez. Diante
disto eu fico derribado. Diante desta palavra, tenho que reconhecer
que fui mais fariseu que discípulo de Cristo, que a espiritualidade
de Jesus está longe da minha espiritualidade. Que nós,
com a nossa atitude, fechamos a porta para tanta gente. Porque,
olhe que estranho, nós oramos pela salvação
das pessoas, mas com nossa atitude a afastamos.
Termino
com isto: Começamos a nos relacionar com um irmão
desta prima que lhes contei, outro primo na mesma situação
dela, alcoólatra. Eu não teria voltado a me relacionar
com ele se não fosse por esta palavra. Não sei
quantos anos não nos víamos.
Um
dia, participamos os dois de uma festa, e ele começou
a beber. Em um momento, eu disse: Você está se
dando conta que está chegando ao limite? Eu via que ele
não parava, e eu pensava que como estava comigo, ia se
cuidar. Estava assustado, porque ele seguia bebendo, e me atrevi
a lhe dizer: "Primo, não percebe que este é
o momento de parar?". E ele me disse: "Mas eu te disse
que este é o meu problema: que quando começo a
beber, não posso parar". Eu não recordava
que ele me havia dito isso, assim nesse momento disse: "O
que faço?".
E
fiquei enfrentando toda esta verdade. Ia ser coerente ou não?
E a única coisa que me saiu foi lhe dizer: "Então,
segue tomando tudo o que quer. Toma, mas quero que saiba que
eu vou estar contigo, vou estar do teu lado, até que
o Senhor te dê vitória". Ele seguiu e seguiu
tomando; embebedou-se completamente, a tal ponto que esse dia
teve que dormir nessa casa. Eu permaneci do seu lado, segui
saindo com ele, segui falando-lhe do Senhor.
Hoje
em dia, ele está livre do álcool, faz mais de
dez meses que não voltou a embebedar-se. Está
conhecendo a Cristo, está amando a Cristo, e quer andar
comigo para todos os lados, porque tem fome pela palavra do
Senhor. Estou falando de familiares, porque, quantos de vocês
têm familiares que não conhecem ao Senhor? Pode
ser que uma das razões seja o nosso farisaísmo,
que você tem sido demasiadamente 'santo' para eles, que
eles vêem você como uma pessoa a qual não
podem ter acesso.
Meu
próprio irmão, o menor dos sete irmãos
em minha família, está e não está.
Não congrega, mas envia os dízimos. Um dia me
contaram: "Sabe o que o seu irmão disse de você?
Que à última pessoa que ele se aproximaria para
lhe pedir ajuda, seria você". Aquilo me impactou.
Disse: "Senhor, que imagem estou dando? Suponhamos que
um pastor esteja para que os pecadores venham, e qualquer, a
qualquer hora, deva pedir ajuda".
Um
pastor é alguém que está para ajudar, para
ter paciência e estar a favor das pessoas, até
com os extraviados e com os ignorantes. Mas meu próprio
irmão me via em um pedestal, em uma aparência de
espiritualidade, de santidade tal, que eu seria o último
que ele teria confiança para aproximar-se e pedir ajuda.
Porque ele sabe que se lhe disser algo, vai vir a espada do
Senhor. Essas coisas começaram a me derribar. Hoje quero
parecer-me com Jesus.
Alojando
na casa de um pecador
Lucas
19:1-3. "Tendo entrado Jesus no Jericó, ia passando
pela cidade. E aconteceu que um homem chamado Zaqueu, que era
chefe dos publicanos, e rico, procurava ver quem era Jesus...".
Chama-me a atenção porque este publicano está
interessado em conhecer a Jesus. Por que crêem vocês,
a esta altura de Lucas 19? O que tinha escutado falar dele?
"Claro, dizem, tem um homem que não tem asco dos
publicanos, tem um homem que vai às festas deles, come
com eles, recebe-os". Assim de alguma maneira este chefe
dos publicanos se inteirou.
A
esta altura de Lucas, já tem vários publicanos
convertidos, e ele também está interessado em
conhecer-lhe, mas, que bonito! Ele tem interesse em conhecer
a Jesus, porque a fama de Jesus não é a fama de
alguém que recusa às pessoas, mas sim de alguém
que acolhe. Mas tinha um problema: ele era baixinho, pequeno
de estatura, por isso subiu em uma árvore para ver Jesus,
que tinha que passar por ali.
"Quando
Jesus chegou a aquele lugar, olhando para cima, o viu, e lhe
disse: Zaqueu, desce depressa, porque hoje é necessário
que eu pouse em sua casa" (V. 5). Jesus entrou em Jericó,
e onde foi ficar? Na casa do pastor da igreja de Jericó?
Na casa de um publicano! Nós, quando vamos a outra parte
para pregar, onde nos alojamos? Na casa dos irmãos! Então,
Zaqueu, que estava interessado em conhecê-lo, "desceu
às pressas, e lhe recebeu com alegria".
Jesus
hospedou-se na casa de um pecador, um pecador alegre por recebê-lo,
que queria conhecê-lo; mas Jesus esteve disposto a ficar
em sua casa. Como viram isto os outros irmãos? "Ao
ver isto, todos murmuravam, dizendo que tinha entrado para pousar
com um homem pecador". Mas a sabedoria é justificada
pelos filhos. Este feito ganhou a Zaqueu. E ele "...posto
em pé, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, a metade dos
meus bens dou aos pobres; e se em algo defraudei a alguém,
o devolvo quadruplicado. Jesus lhe disse: Hoje veio a salvação
a esta casa; porquanto ele também é filho de Abraão"
(V. 8-9).
Se
você for praticar esta palavra, irmão tem que estar
disposto à crítica. Vai ganhar uma má fama,
como ganhou Jesus. Mas a sabedoria de Jesus vai ser justificada
pelos filhos, pelos que se beneficiam disto, por aqueles que
ficam eternamente agradecidos, porque você não
os discriminou, mas sim os amou e os conduziu a Cristo. Louvado
seja o Senhor!
E
aí está a passagem que lemos antes, onde o Senhor
reafirma: "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar
o que se havia perdido" (V. 10).
Notem
vocês como através de todo o evangelho, uma e outra
vez, Lucas quer nos mostrar um Jesus que se relaciona com os
perdidos, que não os discrimina, e que mesmo que ele
atua de uma maneira tão clara e decidida, recebe permanentemente
a crítica e a resistência dos que representam a
espiritualidade judia desse tempo.
E
foi contado com os iníquos
Lucas
22:35. Isto já me pareceu demais na atitude do Senhor.
Olhem que estranho é esta passagem, antes de Jesus ser
preso no Getsemani. Disse Jesus aos seus discípulos:
"Quando lhes enviei sem bolsa, sem alforje e sem calçados,
faltou-lhes algo? Eles disseram: Nada. E lhes disse: Pois agora,
aquele que tem bolsa, tome-a, e também o alforje; e o
que não tem espada, venda sua capa e compre uma".
Vocês
entendem aqui o que está tratando de fazer o Senhor?
Não há nada estranho quando lhes diz: "...aquele
que tem bolsa, tome-a, e também o alforje..."; mas,
o que diz em seguida? "...e o que não tem espada,
enfaixa sua capa e compre uma". O Senhor está armando
os seus discípulos! Irmãos, vocês tinham
tomado consciência desta passagem?
O
Senhor está a ponto de ser preso, e antes que acontecesse
a prisão, ele, em forma premeditada, pede aos seus discípulos
que se armem. Isso, se o trouxermos para o nosso contexto, não
seria "comprem uma espada", mas sim "comprem
uma pistola". O que está querendo fazer o Senhor?
Isto me pareceu extremamente estranho quando o notei. E a resposta
a isto é tremenda: "Porque lhes digo que é
necessário que se cumpra ainda em mim aquilo que está
escrito: E foi contado com os iníquos; porque o que está
escrito de mim, tem seu cumprimento".
Para
que quis armar com espadas aos seus discípulos? Para
que, quando o prendessem, cumprisse a Escritura que diz: "E
foi contado com os iníquos". Podem crer? Vocês
crêem que esta era a intenção do Senhor
quando lhes disse: "Vendam a capa e comprem uma espada"?
Ele está dizendo: "Quero que, quando me prenderem,
cumpra-se em mim a Escritura que diz: fui contado entre malfeitores,
entre pecadores, entre pessoas más". Dá a
impressão de que o Senhor o faz premeditadamente. Ele
queria que ficasse escrito que ele se uniu com os pecadores.
Que fique em seu testemunho, irmão, que você andava
entre pessoas que tem AIDS, entre homossexuais.
E,
se por acaso é pouco, quando ele foi para a cruz, puseram
um malfeitor a sua direita e um malfeitor a sua esquerda. Morrer
crucificado, já é a maior vergonha. Mas o Senhor
morre entre malfeitores. Não só durante a sua
vida se uniu aos pecadores, mas também quando morreu,
morreu entre bandidos. E vocês sabem que até nesse
momento, um deles se voltou para o Senhor, e foi salvo!
Mas,
para estar salvando até no último minuto a alguém
perdido, terá que estar até o último minuto
com os perdidos! Nosso Senhor morreu crucificado no meio de
dois malfeitores. E Marcos diz que ele, quando morreu crucificado,
cumpriu-se a Escritura que diz: "E foi contado com os iníquos".
Ouçamos
assim ao irmão Lucas, que nos está pregando hoje,
e está nos dizendo: "Sabem, o Jesus que foi revelado
pelo Espírito Santo foi um homem que trouxe a salvação
a todos os homens, a toda classe de homens, e que desde que
começou o seu ministério até minutos antes
da sua morte, viveu no meio deles".
Seus
discípulos não estiveram ao lado dele quando morreu.
Morreu no meio de pecadores, não no meio dos seus discípulos.
Nós, hoje em dia, morremos rodeados de irmãos.
Glorioso! Os irmãos nos acompanham e cantam enquanto
nós estamos partindo. Morremos cheios de boa fama e de
bom nome, e nosso amado Senhor viveu no meio dos perdidos. Não
é admirável, não é glorioso o nosso
Senhor?
Eu
sei que não é simples o que estou dizendo. "Como,
quando, onde, quem. E se nossos jovens começam a fazer
isto...?". Sei que há centenas de coisas, mas algo
tem que ser feito. Penso que como estamos hoje, não pode
permanecer. Por isso, mais que ensinar esta palavra, eu mesmo
quero começar a vivê-la. Quero saber como se faz,
do que se trata, que resultados produz. Até aqui, estou
emocionado, porque a sabedoria foi justificada pelos filhos.
O
coração de Jesus
Quero
seguir aprendendo, e ter este coração de Jesus.
Há tanta gente que necessita de nós. Nós
assistimos reportagens na televisão de como estão
as coisas lá fora. Mas, o que sentimos por essas pessoas?
Somamos aos que dizem: Fuzilem-nos, matem-nos? Ou somos dos
que sentimos misericórdia, e choramos, e estaríamos
dispostos a fazer algo por eles?
Se
o Senhor te houver ministrado, se o Senhor te falou, responda
ao Senhor, respondamos com o nosso coração. Quando
Deus fala, ele espera uma resposta dos que o ouviram. Amém.
(Síntese
de uma mensagem ministrada em Temuco (Chile), Setembro de 2006).